Novena de São Simão Apóstolo — 9 Dias de Oração ao Zelote Transformado pela Graça
Entre os doze apóstolos há um que carrega um apelido que, no contexto do século I, era tudo menos religioso: “o Zelote.” Simão o Zelote. Os zelotes eram o movimento político e militar mais radical do judaísmo da época — aqueles que acreditavam que a libertação de Israel do jugo romano exigia a luta armada, que a colaboração com o ocupante era traição à fé, e que Deus abençoaria a violência ao serviço da libertação nacional.
Jesus chamou Simão o Zelote para o círculo dos doze. E nesse mesmo círculo estava Mateus, o cobrador de impostos — o colaborador do poder romano que os zelotes mais desprezavam. Que Jesus tivesse chamado ambos e os tivesse feito irmãos numa mesma missão é talvez o sinal mais eloquente da sua capacidade de transformar inimigos em companheiros, de converter o ardor da violência em ardor do amor, de usar o fogo do zelote para iluminar em vez de destruir.
São Simão Apóstolo é o patrono dos que têm ardor — dos que se indignam com a injustiça, dos que não se conformam com o estado das coisas, dos que têm dentro de si uma energia que precisa de ser canalizada para o bem. A diferença entre o zelote que mata e o apóstolo que dá a vida não é a intensidade — é a direcção. Jesus não apagou o fogo de Simão. Reorientou-o.
Quem Foi São Simão Apóstolo
Simão aparece nas quatro listas dos apóstolos no Novo Testamento — sempre identificado como “o Zelote” ou “o Cananeu” (aramaico para zelote). Não é Simão Pedro — é outro Simão, de quem o Novo Testamento não preservou nenhuma fala nem nenhuma acção específica além da sua presença no grupo dos doze e no cenáculo de Pentecostes.
Esta ausência narrativa de Simão nos Evangelhos não é insignificância — é discrição. Simão foi um dos que serviu sem protagonismo, que trabalhou sem que as histórias ficassem com o seu nome. E a tradição honra exactamente isso: a festa de São Simão Apóstolo em 28 de outubro é partilhada com São Judas Tadeu — dois apóstolos discretos que a Igreja celebra juntos.
Após o Pentecostes, a tradição atribui a Simão a missão na Pérsia, na Etiópia e possivelmente na Britânia. Foi martirizado — segundo as versões mais comuns, serrado ao meio, o que explica a serra como atributo iconográfico. Morreu pelo mesmo Senhor a quem havia servido com o ardor que antes reservava para a luta armada.
Como Rezar Esta Novena
Faça o sinal da cruz e recite a oração de abertura
Leia a meditação do dia
Apresente a sua intenção específica
Recite a oração do dia
Reze o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Glória ao Pai
Encerre com a oração de encerramento
Oração de Abertura (Todos os Dias)
Glorioso São Simão Apóstolo, zelote transformado pelo amor de Cristo, intercedei por mim nesta novena. Vós que levastes o vosso ardor da causa política para o serviço do Evangelho, intercedei para que eu também saiba canalizar as energias que Deus me deu para a missão que Ele me propõe. Amém.
Primeiro Dia — O Zelote Chamado por Jesus
Meditação: Jesus chamou Simão sabendo quem ele era — um zelote, um activista político-religioso que acreditava na violência como instrumento da vontade de Deus. E Jesus não lhe pediu que fosse outro — pediu que o seguisse. Esta aceitação de Simão tal como era é o modelo do chamamento cristão: Jesus não espera que sejamos perfeitos para nos chamar. Chama-nos com os nossos ardores, os nossos excessos, as nossas energias mal canalidas — e depois transforma o que encontra.
São Simão, zelote chamado por Jesus tal como eras, intercedei para que eu também responda ao chamamento de Cristo tal como sou — sem esperar ser melhor primeiro. Que eu não adie o seguimento enquanto espero condições que nunca serão perfeitas. E que Jesus transforme o que precisa de ser transformado depois de eu ter dito sim. Amém.
Segundo Dia — O Fogo que Muda de Direcção
Meditação: O zelotismo de Simão não era vício — era virtude mal orientada. O ardor pela justiça, a indignação com a opressão, a recusa de aceitar o inaceitável — tudo isso era genuíno e bom. O problema não era a intensidade mas o método: a violência como caminho para a justiça. Jesus não apagou o fogo — mudou a sua direcção. O mesmo ardor que faria Simão pegar em armas fê-lo pregar o Evangelho até à morte. A graça não elimina o temperamento — purifica-o e usa-o.
São Simão, cujo fogo Jesus reorientou, intercedei para que as minhas energias mais intensas sejam também reorientadas para o bem. O meu ardor por justiça — que seja serviço aos pobres, não indignação estéril. A minha intensidade — que seja perseverança na missão, não violência nas relações. Que Jesus use o que sou, reorientado pela graça. Amém.
Terceiro Dia — Simão e Mateus: Inimigos que se Tornaram Irmãos
Meditação: No mesmo grupo dos doze estava Mateus, o cobrador de impostos — exactamente o tipo de pessoa que os zelotes de Simão desprezavam como traidores. Jesus colocou-os lado a lado. Este gesto radical de Jesus — reunir numa mesma missão pessoas que seriam inimigos mortais fora do Evangelho — é o sinal mais eloquente do poder transformador da graça. A comunidade cristã é o lugar onde os inimigos se tornam irmãos não porque as diferenças desaparecem mas porque Cristo é maior do que elas.
São Simão, que partilhastes a missão com Mateus sem o matar, intercedei pela reconciliação dos que considero inimigos. Pelos que têm visões políticas opostas às minhas, pelos que pertenceram ao lado “errado” de conflitos, pelos que causaram dano. Que o Evangelho que transformou o zelote e o publicano em irmãos transforme também as minhas inimizades. Amém.
Quarto Dia — A Discrição como Serviço
Meditação: Simão não tem nenhuma fala preservada nos Evangelhos. Nenhum episódio protagonizado. Estava lá — na multiplicação dos pães, na Última Ceia, no Pentecostes — mas a câmara não ficou nele. Esta invisibilidade de Simão é ensinamento: a maior parte do serviço cristão é assim. Feito na sombra. Sem câmara. Sem história que fique. E é exactamente este serviço discreto que sustenta o que aparece. A Igreja funciona porque há muitos Simões invisíveis.
São Simão, apóstolo discreto e fiel, intercedei para que eu aprenda a servir sem precisar de destaque. Que o bem que faço na sombra seja tão real para mim como o bem que faço à luz. Que eu não reduza o meu serviço ao que tem audiência. E que a discrição do meu serviço seja tão apostólica quanto a de Simão foi. Amém.
Quinto Dia — O Ardor pela Justiça
Meditação: O zelotismo de Simão tinha uma raiz boa: a indignação com a injustiça. A ocupação romana era real e opressiva. A colaboração dos coletores de impostos era real e lesiva. A indignação de Simão com estas realidades era uma forma de amor ao povo que sofria. A tradição cristã não condena esta indignação — condena apenas o método violento. Jesus não disse a Simão que a injustiça não importava. Mostrou-lhe uma forma mais eficaz de a combater.
São Simão, cujo ardor por justiça Jesus acolheu e transformou, intercedei para que eu também me indignie com as injustiças do meu tempo. Que eu não me torne insensível ao sofrimento dos pobres, dos oprimidos, dos marginalizados. E que esta indignação me leve ao serviço e não à violência — ao amor exigente que transforma, não ao ódio que destrói. Amém.
Sexto Dia — Pentecostes: O Zelote Cheio do Espírito
Meditação: Simão estava no cenáculo no dia de Pentecostes. O mesmo homem que havia servido a causa da libertação pela espada recebeu o Espírito Santo e saiu a proclamar o Evangelho. O fogo que desceu sobre ele naquele dia era diferente do fogo que havia alimentado o zelotismo — mas a capacidade de ser inflamado, de ser intenso, de não ser tépido era a mesma. Pentecostes não apagou Simão — completou-o. O Espírito Santo usa os temperamentos que encontra.
São Simão, zelote cheio do Espírito Santo no Pentecostes, intercedei para que eu também receba o fogo do Espírito que completa e orienta os meus dons naturais. Que a minha intensidade seja inflamada pelo Espírito e não pelo ego. E que o Pentecostes que vós vivestes seja também a experiência que transforma a minha vida cristã. Amém.
Sétimo Dia — Patrono dos Curtidores e Serradores
Meditação: São Simão é patrono dos curtidores e serradores — pelo instrumento do seu martírio, a serra. Este patronato, como o de São Bartolomeu com os curtidores, transforma o instrumento da morte em símbolo de protecção. O sofrimento de Simão tornou-se patronato: o que o matou torna-o companheiro dos que trabalham com as mesmas ferramentas. A dor redimida não apenas produz santidade pessoal — estende-se em protecção e companhia para os que sofrem algo semelhante.
São Simão, patrono dos que trabalham com a madeira e os seus instrumentos, intercedei pelos trabalhadores manuais. Pelos carpinteiros, serradores, marceneiros, construtores. Que o seu trabalho seja honrado, seguro e bem remunerado. E que a dignidade do trabalho manual — que Jesus também exerceu em Nazaré — seja reconhecida pela sociedade. Amém.
Oitavo Dia — A Festa Partilhada com Judas Tadeu
Meditação: Simão e Judas Tadeu partilham a festa em 28 de outubro — dois apóstolos discretos que a Igreja celebra juntos. Esta celebração conjunta é sinal de algo: há na vida da Igreja uma zona de serviço silencioso, de fidelidade sem protagonismo, de missão sem crónica — e esta zona é habitada por muitos. Os dois apóstolos sem falas preservadas nos Evangelhos são os patronos de todos os cristãos que servem sem que ninguém escreva a sua história.
São Simão, festejado com Judas Tadeu no mesmo dia, intercedei com o vosso companheiro de festa por todos os cristãos anónimos que servem sem reconhecimento. Pelos voluntários, pelos cuidadores, pelos que rezam em silêncio pelas intenções do mundo. Que o seu serviço discreto seja tão eficaz quanto o vosso foi. Amém.
Nono Dia — Consagração Final
Meditação: Chegamos ao último dia desta novena. São Simão viveu a transformação mais radical que um homem pode viver: do ódio ao amor, da violência ao serviço, do zelotismo à missão. Esta transformação não foi fácil nem rápida — foi o trabalho de anos de convivência com Jesus, de escuta do Evangelho, de Pentecostes. E terminou no martírio — a prova de que o fogo que Jesus reorientou era real e duradouro. O zelote que uma vez estaria disposto a matar pelo país esteve disposto a morrer pelo Evangelho.
São Simão Apóstolo, zelote transformado em mártir do amor, ao terminar esta novena eu me comprometo a deixar Jesus reorientar os meus ardores. Intercedei pelas intenções desta novena junto ao Senhor. E que a graça que vos transformou continue a transformar-me — do que sou para o que Deus quer que eu seja. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oração de Encerramento (Todos os Dias)
Glorioso São Simão Apóstolo, zelote transformado pelo amor de Cristo e mártir fiel, recebei as orações desta novena. Intercedei por mim junto ao Senhor Jesus. Que o ardor que Deus me deu seja sempre orientado para o serviço do Evangelho e nunca para a destruição. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Quando Rezar Esta Novena
De 19 a 27 de outubro — nos nove dias antes da festa de 28 de outubro
Para canalizar energias intensas para o bem
Por reconciliação entre pessoas de lados opostos
Para trabalhadores manuais e artesãos
Por quem serve sem reconhecimento
Outras Devoções Relacionadas
A devoção a São Simão se aprofunda com outros conteúdos do site. A Novena de São Mateus Apóstolo complementa — o cobrador de impostos que se tornou irmão do zelote. A Novena de São Bartolomeu aprofunda — outro apóstolo discreto cuja vida de serviço fala mais alto do que as palavras. O Salmo 133 — “quão bom e agradável é os irmãos habitarem juntos” — é o salmo de Simão e Mateus vivendo como irmãos no mesmo grupo apostólico. E o Salmo 69 — “o zelo da vossa casa me consume” — é o salmo do zelote que Simão foi, transformado pelo amor a Cristo.