Salmo 39 — Texto Completo, Significado e Oração "Faze-me Saber o Fim da Minha Vida"

Salmo 39 — Texto Completo, Significado e Oração “Faze-me Saber o Fim da Minha Vida”

Salmo 39 — Texto Completo, Significado e Oração “Faze-me Saber o Fim da Minha Vida”

O Salmo da Brevidade da Vida — Quando o Silêncio Não Basta e o Tempo Assusta

Salmo 39 — Texto Completo, Significado e Oração

O Salmo 39 é um dos mais filosoficamente profundos do saltério — e também um dos mais desconcertantes. Começa com resolução heroica de silêncio (“Eu disse: Guardarei os meus caminhos para não pecar com a minha língua; guardarei a minha boca com freio” — v.1) e termina com clamor de quase desespero (“Olha para mim e tem misericórdia de mim antes que eu me vá e não seja mais” — v.13). Entre o silêncio resolvido e o clamor urgente, o Salmo 39 percorre uma das meditações mais honestas sobre a brevidade da vida, a vaidade da riqueza, o peso do sofrimento e a solidão do ser humano diante do tempo.

O Salmo 39 pertence a um gênero raro no saltério: o salmo sapiencial de lamento — uma meditação sobre a condição humana que usa o formato do lamento pessoal para articular verdades filosóficas e existenciais universais. Como o livro de Jó e o Eclesiastes, o Salmo 39 não se satisfaz com respostas fáceis — confronta a brevidade e a insignificância da vida humana com honestidade que pode parecer sombria mas que é, em última análise, libertadora: se a vida é tão breve, então o fundamento verdadeiro não pode estar nela.

O versículo mais famoso do Salmo 39 — “Faze-me saber, Senhor, o meu fim e a medida dos meus dias qual é, para que eu saiba o quão transitório sou” (v.4) — não é pedido de fuga da mortalidade, mas de clareza sobre ela. Davi não pede para não morrer — pede para ver com clareza o quanto é transitório, para que essa clareza oriente a vida de forma mais sábia. É oração de realismo espiritual da mais alta qualidade.

Salmo 39 — Texto Completo

Ao mestre de canto, a Jedutum. Salmo de Davi.

1 Eu disse: Guardarei os meus caminhos para não pecar com a minha língua; guardarei a minha boca com freio enquanto o ímpio estiver diante de mim.
2 Fiquei mudo com silêncio; guardei silêncio ainda do bem; mas a minha dor foi agravada.
3 O meu coração ficou quente dentro de mim; enquanto meditava, o fogo acendeu-se; então falei com a minha língua:
4 Faze-me saber, Senhor, o meu fim e a medida dos meus dias qual é, para que eu saiba o quão transitório sou.
5 Eis que fizeste os meus dias tão curtos como palmos; e a minha vida como nada diante de ti. Certamente que todo homem, por mais que seja estável, não é mais do que vaidade. (Selá)
6 Certamente o homem anda como sombra; certamente se afana em vão; acumula riquezas e não sabe quem as recolherá.
7 E agora, Senhor, o que espero? A minha esperança está em ti.
8 Livra-me de todas as minhas transgressões; não me faças opróbrio do louco.
9 Fiquei mudo, não abri a boca; porque tu o fizeste.
10 Tira de mim a tua chaga; desfaleço do golpe da tua mão.
11 Quando com repreensões castigas o homem por causa da iniquidade, fazes que se consuma como a traça a sua beleza; certamente todo homem não é mais do que vaidade. (Selá)
12 Ouve a minha oração, Senhor, e dá ouvidos ao meu clamor; não te cales diante das minhas lágrimas; pois sou peregrino contigo, e forasteiro, como todos os meus pais.
13 Olha para mim e tem misericórdia de mim antes que eu me vá e não seja mais.

— Salmo 39:1-13 (Almeida Revista e Atualizada)

Contexto — Jedutum e o Músico do Rei

Salmo 39 — Texto Completo, Significado e Oração

O Salmo 39 tem título incomum: “Ao mestre de canto, a Jedutum.” Jedutum (também chamado Etã) era um dos três líderes de coro designados por Davi para o serviço do Templo (1 Cr 16:41-42; 25:1, 3, 6). O Salmo 39 provavelmente foi composto por Davi e entregue a Jedutum para que o adaptasse musicalmente e o ensinasse ao coro. Há outros dois salmos com este título: o 62 e o 77 — ambos também meditações sobre a confiança em Deus em contextos de sofrimento.

O conteúdo do Salmo 39 não especifica episódio histórico, mas o contexto é de sofrimento físico grave (v.10 — “o golpe da tua mão”) combinado com presença de ímpios (v.1 — “enquanto o ímpio estiver diante de mim”) — situação semelhante à do Salmo 38. A combinação de silêncio inicial, meditação interna que acende como fogo e irrupção em oração é o perfil de alguém que tentou suportar sozinho e percebeu que não conseguia. Leia o Salmo 38 como o par mais próximo do Salmo 39 no sofrimento descrito.

Versículos sobre Perdão — Os Mais Poderosos da Bíblia - imagem 4

Estrutura do Salmo 39 — Três Movimentos

O Salmo 39 tem estrutura que acompanha a jornada interior do orante:

Movimento 1 — O Silêncio que Falhou (v.1-3): A resolução de guardar silêncio para não pecar com a língua na presença dos ímpios — e o fracasso desta resolução quando o calor interior se tornou insuportável. O silêncio prometido cedeu ao fogo da meditação.

Movimento 2 — A Meditação sobre a Brevidade (v.4-6): O primeiro fruto da irrupção verbal: não acusação dos inimigos, não clamor de socorro — mas meditação sobre a brevidade da própria vida. “Faze-me saber o meu fim” e a dupla declaração de vaidade (v.5-6).

Movimento 3 — O Clamor e a Esperança (v.7-13): Da meditação ao clamor: “E agora, Senhor, o que espero? A minha esperança está em ti” (v.7) — a virada fundamental. Seguido por pedidos específicos (v.8, 10, 12) e o encerramento com o clamor mais urgente: “antes que eu me vá e não seja mais” (v.13).

Análise Versículo a Versículo

Versículos 1-3 — O Silêncio que Acendeu o Fogo

“Eu disse: Guardarei os meus caminhos para não pecar com a minha língua… Fiquei mudo com silêncio; guardei silêncio ainda do bem; mas a minha dor foi agravada. O meu coração ficou quente dentro de mim; enquanto meditava, o fogo acendeu-se; então falei com a minha língua.”

“Guardarei os meus caminhos para não pecar com a minha língua” — resolução inicial de integridade verbal: não falar mal dos ímpios na sua presença, não deixar que o sofrimento provoque palavras precipitadas. É resolução nobre e espiritualmente sábia — guardar a língua é qualidade do Salmo 15:3 e do Salmo 34:13 (“guarda a tua língua do mal”).

“Guardei silêncio ainda do bem” — detalhe surpreendente: Davi guardou silêncio não apenas do mal (não falar mal dos inimigos) mas também do bem (não falar bem, não louvar, não orar em voz alta). O silêncio foi total — e esta totalidade é o que o agravou. O silêncio que suprime até o bem acaba suprimindo o próprio ser.

“A minha dor foi agravada” — o silêncio não curou a dor — piorou. É observação psicológica aguda: o sofrimento que não encontra expressão não desaparece — se intensifica. A supressão não é cura. “O meu coração ficou quente dentro de mim; enquanto meditava, o fogo acendeu-se” — a meditação no silêncio não produziu paz mas calor crescente — a imagem do fogo que não foi alimentado de combustível externo (palavras) mas que ardeu internamente até se tornar insuportável. “Então falei com a minha língua” — o fogo venceu a resolução de silêncio. Mas o que saiu da língua foi oração, não acusação ou maldição. Leia o Salmo 12 sobre o poder e a corrupção da língua — o contexto onde o Salmo 39 escolhe o silêncio.

Versículos 4-5 — Faze-me Saber o Meu Fim

“Faze-me saber, Senhor, o meu fim e a medida dos meus dias qual é, para que eu saiba o quão transitório sou. Eis que fizeste os meus dias tão curtos como palmos; e a minha vida como nada diante de ti.”

“Faze-me saber, Senhor, o meu fim” (hodiyeni YHWH qitzi) — este pedido é radicalmente diferente da maioria das orações humanas. A maioria pede longa vida, mais tempo, mais anos. Davi pede que Deus lhe mostre o fim — não por morbidez ou por desejo de morte, mas para ganhar a perspectiva que a consciência da mortalidade produz. É o que o Salmo 90:12 pedirá: “ensina-nos a contar os nossos dias para que alcancemos coração sábio.”

“Para que eu saiba o quão transitório sou” (meh chadel ani) — “transitório” (chadel) — aquele que cessa, que para, que tem fim. Davi quer saber que é transitório — não como informação teórica que já possui, mas como realidade sentida que orienta a vida. Há diferença entre saber intelectualmente que se é mortal e viver com a consciência encarnada da própria mortalidade. O pedido do Salmo 39:4 é pelo segundo.

“Os meus dias tão curtos como palmos” (tefachot natata yamay) — um palmo (tefach) é a distância entre o polegar estendido e o dedo mínimo — a medida mais curta usada na Bíblia. Os dias de Davi cabem na distância de um palmo. “Como nada diante de ti” — a imensidão de Deus torna a vida humana infinitesimalmente pequena em comparação. Não é niilismo — é perspectiva correta. Como Jó 14:1-2: “o homem nascido de mulher é de poucos dias… como a flor, brota e murcha.” Leia o Salmo 90 — “os nossos dias são como a erva” — como o desenvolvimento mais completo desta meditação sobre a brevidade.

Versículo 6 — O Homem que Acumula e Não Sabe Para Quem

“Certamente o homem anda como sombra; certamente se afana em vão; acumula riquezas e não sabe quem as recolherá.”

“O homem anda como sombra” (shalach tzelem yithalech ish) — a sombra (tzelem — também traduzido “imagem” em Gênesis 1:26 — “à nossa imagem”) tem dupla ressonância: o ser humano feito “à imagem” de Deus anda como “sombra” — a imagem que não tem substância própria, que depende de quem a projeta. É meditação sobre a dependência ontológica do ser humano em Deus — sem Deus, a “imagem” não é mais do que sombra.

“Certamente se afana em vão; acumula riquezas e não sabe quem as recolherá” — observação que o Eclesiastes 2:18-21 desenvolverá longamente: “Eu odiei todo o meu trabalho com que me afanei debaixo do sol, pois o deixarei ao homem que vier depois de mim. E quem sabe se será sábio ou louco?” A riqueza acumulada com trabalho intenso passa para herdeiro desconhecido — que pode ser sábio ou louco, que pode valorizá-la ou desperdiçá-la. A vaidade do acúmulo sem perspectiva eterna é o tema que o Salmo 39 antecipa e que o Eclesiastes desenvolve. Leia os versículos sobre confiança em Deus como o antídoto à vaidade do v.6.

Versículo 7 — E Agora, Senhor, O Que Espero?

“E agora, Senhor, o que espero? A minha esperança está em ti.”

O versículo 7 é a virada mais importante do Salmo 39 — e um dos versículos mais preciosos do saltério. Depois da meditação sobre a vaidade e a brevidade dos versículos 4-6, uma pergunta surge naturalmente: se a vida é tão breve, se o acúmulo é vão, se o homem anda como sombra — o que sobra? Para que esperar?

“E agora, Senhor, o que espero?” (veattah mah qiviti Adonai) — pergunta existencial fundamental que o sofrimento e a meditação sobre a mortalidade inevitavelmente provocam. O “e agora” (veattah) é partícula de consequência: dado tudo o que foi dito sobre a brevidade e a vaidade, o que resta como fundamento de esperança? A pergunta é honesta — não retórica. Davi genuinamente pergunta.

“A minha esperança está em ti” (tochaltitiva lach) — a resposta chega imediatamente, na mesma linha. Não há pausa para reflexão — a resposta é óbvia para quem chegou ao fundo da meditação sobre a vaidade: se nada nesta vida tem permanência suficiente para ser fundamento de esperança, então a esperança só pode estar em Quem transcende esta vida. “Em ti” — em Deus mesmo, não em bênçãos de Deus, não em resultados de Deus, não em uma vida melhor que Deus possa proporcionar — em Deus mesmo. É a mesma postura do Salmo 73:26 — “a força do meu coração e o meu quinhão é Deus para sempre.” Leia os versículos de esperança fundamentados neste versículo central.

Versículos 8-10 — Livra-me das Transgressões e do Golpe da Tua Mão

“Livra-me de todas as minhas transgressões; não me faças opróbrio do louco. Fiquei mudo, não abri a boca; porque tu o fizeste. Tira de mim a tua chaga; desfaleço do golpe da tua mão.”

“Livra-me de todas as minhas transgressões” — a dimensão penitencial que o Salmo 39 compartilha com o Salmo 38. A esperança está em Deus (v.7) — mas o caminho para essa esperança passa pelo perdão das transgressões. O acúmulo de transgressões é o equivalente espiritual do acúmulo de riquezas do versículo 6: igualmente vão se não houver o perdão que limpa. Leia o Salmo 32:1 — “bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada” — como a resposta ao pedido do Salmo 39:8.

“Fiquei mudo, não abri a boca; porque tu o fizeste” (v.9) — retorno ao tema do silêncio, mas com nova perspectiva: o silêncio dos versículos 1-2 havia sido resolução humana que falhou. Aqui, o silêncio é atribuído a Deus: “porque tu o fizeste.” É teologia da aceitação — reconhecer que o sofrimento foi permitido por Deus e que a resposta correta, eventualmente, é o silêncio de quem confia.

“Tira de mim a tua chaga; desfaleço do golpe da tua mão” (v.10) — retorno do pedido direto: que Deus remova o sofrimento físico que descreveu como “golpe da tua mão.” A linguagem é audaciosa — identificar o sofrimento como “golpe da mão de Deus” é teologia da providência levada a sério: o sofrimento tem causa e a causa última é o governo de Deus. Esta teologia não elimina a responsabilidade humana nem a ação do mal no mundo — mas reconhece que nada acontece fora do governo de Deus.

Versículo 12 — Sou Peregrino Contigo

“Ouve a minha oração, Senhor, e dá ouvidos ao meu clamor; não te cales diante das minhas lágrimas; pois sou peregrino contigo, e forasteiro, como todos os meus pais.”

“Ouve a minha oração… não te cales diante das minhas lágrimas” — triplo pedido de comunicação divina: ouvir, dar ouvidos, não se calar. As lágrimas como linguagem de oração — nem mais nem menos legítimas do que as palavras articuladas. O pedido de que Deus “não se cale” diante das lágrimas é o eco do Salmo 28:1 (“não fiques em silêncio para comigo”) — o medo do silêncio de Deus que todo crente em sofrimento conhece.

“Pois sou peregrino contigo, e forasteiro, como todos os meus pais” — este versículo é um dos mais teologicamente ricos do Salmo 39. “Peregrino” (ger) e “forasteiro” (toshav) são os dois termos para o estrangeiro residente em Israel — aquele que vive numa terra que não é sua por direito nativo. Davi declara que sua condição fundamental é a de peregrino — não na terra dos inimigos, mas “contigo,” com Deus. É afirmação de que a vida nesta terra é fundamentalmente peregrinação — passagem, não residência permanente.

“Como todos os meus pais” — a peregrinação não é anomalia de Davi; é a condição universal de todos os patriarcas. Abraão era “peregrino e forasteiro” em Canaã (Gn 23:4); Isaque e Jacó viveram em tendas; os israelitas foram forasteiros no Egito. A vida do povo de Deus é peregrinação — e o Salmo 39 declara esta realidade não com amargura mas com a serenidade de quem sabe que o destino do peregrino é chegar ao lar. Hebreus 11:13-16 desenvolve esta teologia: “confessaram que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra… pois esperam uma pátria… uma pátria celestial.” Leia o Salmo 23 — “habitarei na casa do Senhor para sempre” — como o destino da peregrinação descrita no Salmo 39.

Versículo 13 — Antes que Eu me Vá e Não Seja Mais

“Olha para mim e tem misericórdia de mim antes que eu me vá e não seja mais.”

O versículo final do Salmo 39 é simultaneamente o mais sombrio e o mais urgente. “Antes que eu me vá e não seja mais” — a morte como desaparecimento, como o “não ser mais” que a vida sempre ameaça. É oração de urgência existencial: o tempo está passando, a vida é breve (como os palmos do v.5), e a misericórdia precisa chegar antes que o peregrino chegue ao fim de sua peregrinação.

“Olha para mim e tem misericórdia de mim” — os dois pedidos finais, mais simples e mais essenciais que qualquer outra coisa do salmo. Que Deus olhe — que Seu rosto se volte (como o Salmo 31:16 havia pedido: “faze brilhar o teu rosto sobre o teu servo”). E que tenha misericórdia — que o chesed se manifeste antes que a oportunidade passe.

O Salmo 39 termina aqui — sem resolução clara, sem declaração de confiança triunfante, sem narrativa de que Deus respondeu. É um dos finais mais abertos do saltério — e nessa abertura reside sua honestidade. O peregrino ainda está a caminho; o fim ainda é incerto; a misericórdia ainda é pedida, não proclamada como recebida. É o Salmo mais próximo do Eclesiastes em sua disposição de permanecer na tensão sem resolvê-la artificialmente. Leia o Salmo 90 — a oração de Moisés sobre a brevidade — como o par veterotestamentário mais próximo do Salmo 39.

A Teologia da Brevidade no Salmo 39

O Salmo 39 é o texto do saltério que mais completamente desenvolve a meditação sobre a brevidade (hebel — vaidade, sopro, vapor) da vida humana — o mesmo tema central do livro do Eclesiastes. Três aspectos desta teologia:

1. A brevidade é fato teológico, não apenas filosófico: Os dias são “curtos como palmos” (v.5) “diante de ti” — a brevidade humana é afirmação em relação a Deus, não apenas observação de calendário. É a imensidão divina que torna a vida humana incompreensivelmente breve. Esta perspectiva relacional impede que a meditação sobre a brevidade se torne niilismo — porque o Deus em relação a Quem somos breves é também o Deus em Quem está a esperança (v.7).

2. A brevidade produz sabedoria, não desespero: “Para que eu saiba o quão transitório sou” (v.4) — o propósito do conhecimento da brevidade é a sabedoria, não o desespero. Quem sabe que é transitório usa o tempo de forma diferente; investe no que é permanente; não desperdiça a peregrinação em acúmulo de sombras (v.6). O Salmo 90:12 expressa o mesmo princípio: “ensina-nos a contar os nossos dias… para que alcancemos coração sábio.”

3. A brevidade redireciona a esperança: “E agora, o que espero? A minha esperança está em ti” (v.7) — a meditação sobre a vaidade de tudo que é temporal não produz desespero mas redirecionamento da esperança. O que é breve não pode ser fundamento de esperança permanente; portanto, a esperança vai para o único que não é breve. É o movimento que o Eclesiastes também faz ao concluir: “teme a Deus e guarda os seus mandamentos” (Ec 12:13) — depois de dez capítulos de “vaidade das vaidades.”

O Salmo 39 e o Eclesiastes — Irmãos Sapienciais

O Salmo 39 e o livro do Eclesiastes são irmãos sapienciais — compartilham o mesmo vocabulário, as mesmas preocupações e a mesma disposição de confrontar a realidade sem eufemismos. Os pontos de contato são numerosos: “vaidade” (hebel) aparece no Salmo 39:5-6 e é a palavra-chave do Eclesiastes; “o homem que acumula e não sabe quem recolherá” (v.6) é o tema central de Eclesiastes 2:18-23; “sombra” (v.6) aparece em Eclesiastes 6:12.

A diferença principal é que o Salmo 39 é oração — meditação dirigida a Deus — enquanto o Eclesiastes é meditação filosófica mais geral. O Salmo 39 transforma o mesmo material do Eclesiastes em diálogo com o Criador. E este diálogo produz o que o Eclesiastes por si só não consegue: a esperança do versículo 7. A meditação sapiencial sem oração fica no “vaidade das vaidades”; a meditação sapiencial com oração chega a “a minha esperança está em ti.” Leia o Salmo 90 como o terceiro texto desta tradição sapiencial sobre a brevidade da vida.

O Salmo 39 na Tradição Cristã — Peregrinação e Destino

O versículo 12 — “sou peregrino contigo, e forasteiro, como todos os meus pais” — teve influência enorme na espiritualidade cristã. A imagem da vida como peregrinação (peregrinatio) foi central para os Padres do deserto, para os monges medievais, para os peregrinos a Santiago e a Roma, para os puritanos ingleses que se chamavam “Pilgrims” (peregrinos).

Agostinho desenvolveu toda a sua teologia das “duas cidades” (A Cidade de Deus) em torno desta imagem: a Cidade Terrestre é o espaço da peregrinação; a Cidade Celestial é o destino. “O nosso coração está inquieto, até que descanse em Ti” — é a experiência do peregrino do Salmo 39 que caminha “contigo” mas ainda não chegou ao lar. Hebreus 11:13-16 identifica esta peregrinação com a esperança da pátria celestial que os patriarcas buscavam. E o Apocalipse 21:3-4 descreve o fim da peregrinação: “a tenda de Deus está com os homens… e enxugará de seus olhos toda lágrima.” O peregrino do Salmo 39 chegou ao lar. Leia o Salmo 23 — “habitarei na casa do Senhor para sempre” — como o destino da peregrinação.

Como Viver o Salmo 39 no Cotidiano

1. Pedir a Perspectiva da Brevidade — Versículo 4

“Faze-me saber, Senhor, o meu fim” — rezar periodicamente este versículo como pedido de perspectiva existencial correta. Não por morbidez, mas pela sabedoria que a consciência encarnada da mortalidade produz: o que é realmente importante? No que vale a pena investir o tempo que é “curto como palmos”? Que escolhas a consciência da brevidade mudaria? Para a Oração da Manhã, pedir a perspectiva da brevidade é convite a começar o dia com prioridades corretas.

2. Usar o Versículo 7 como Âncora Existencial

“E agora, Senhor, o que espero? A minha esperança está em ti” — declarar este versículo nos momentos em que a vaidade do que se acumulou se torna evidente: quando o trabalho não produziu o resultado esperado, quando a saúde que se cuidou cedeu de qualquer forma, quando o relacionamento em que se investiu não correspondeu à expectativa. “A minha esperança está em ti” — não nas circunstâncias, não nos resultados, não no que acumulei. Leia os versículos de esperança.

3. Abraçar a Identidade de Peregrino — Versículo 12

“Sou peregrino contigo” — a identidade de peregrino é libertadora: o peregrino não precisa de tudo que o residente permanente precisa. O peregrino viaja levemente; não acumula mais do que o necessário para a jornada; sabe que está a caminho, não que chegou. Abraçar esta identidade não é abandono das responsabilidades do presente — é colocá-las na perspectiva correta. E o “contigo” é a graça: a peregrinação é feita na companhia de Deus, não em solidão existencial.

4. Reconhecer as Lágrimas como Oração

“Não te cales diante das minhas lágrimas” (v.12) — reconhecer que as lágrimas são forma legítima de oração que Deus recebe. Como o gemido do Salmo 38:9 (“o meu gemido não te é escondido”), as lágrimas do Salmo 39:12 são comunicação real com Deus — não manifestação de fraqueza que precisa ser superada antes de poder orar. Para a Oração da Madrugada, quando as lágrimas chegam antes das palavras, o versículo 12 é o fundamento da confiança de que elas chegam a Deus.

O Salmo 39 na Liturgia Cristã

Na Liturgia das Horas, o Salmo 39 é cantado nas Completas (última oração do dia) — especialmente o versículo 12 (“sou peregrino contigo”) como oração de encerramento da jornada. É o salmo do peregrino que entrega a noite — e a vida — ao Deus em quem está sua esperança.

Na liturgia fúnebre, o Salmo 39 tem presença especial: o versículo 7 (“a minha esperança está em ti”) é declaração de esperança diante da morte; e o versículo 12 (“sou peregrino, como todos os meus pais”) contextualiza a morte não como fim mas como chegada ao destino da peregrinação. O Salmo 39 não resolve o mistério da morte — mas aponta para onde a esperança está fundada no meio do mistério.

Oração Baseada no Salmo 39

Faze-me saber, Senhor, o meu fim —
não para me assustar com a brevidade
mas para que viva com a sabedoria
de quem sabe que é transitório.

Os meus dias são como palmos.
A minha vida, como nada diante de Ti.
O homem acumula e não sabe para quem.
A sombra anda — e chama a si mesmo de realidade.

E agora, Senhor — o que espero?
A minha esperança está em Ti.
Não no que acumulei.
Não na saúde que posso perder.
Não nos anos que me restam.
Em Ti.

Ouve a minha oração.
Não te cales diante das minhas lágrimas.
Pois sou peregrino contigo —
forasteiro, como todos os meus pais.

Olha para mim e tem misericórdia de mim
antes que eu me vá.
E que a peregrinação chegue ao lar.
Amém.

Frases do Salmo 39 para Compartilhar

  • “Faze-me saber, Senhor, o meu fim e a medida dos meus dias qual é, para que eu saiba o quão transitório sou.” — Salmo 39:4
  • “Eis que fizeste os meus dias tão curtos como palmos; e a minha vida como nada diante de ti.” — Salmo 39:5
  • “O homem anda como sombra; certamente se afana em vão; acumula riquezas e não sabe quem as recolherá.” — Salmo 39:6
  • “E agora, Senhor, o que espero? A minha esperança está em ti.” — Salmo 39:7
  • “Ouve a minha oração, Senhor; não te cales diante das minhas lágrimas.” — Salmo 39:12
  • “Pois sou peregrino contigo, e forasteiro, como todos os meus pais.” — Salmo 39:12
  • “A vida é ‘curta como palmos’ — não para desesperar, mas para redrecionar a esperança para o único que não é breve.”
  • “‘E agora, o que espero?’ — a pergunta mais importante que a meditação sobre a vaidade pode gerar. E a resposta mais libertadora: ‘Em Ti.'”
  • Salmo 39 — Texto Completo, Significado e Oração

O Salmo 39 e Outros Conteúdos do Site

  • Salmo 90 — “Os nossos dias são como a erva” — o par mais próximo do Salmo 39 na meditação sobre a brevidade.
  • Salmo 38 — Par do Salmo 39 no sofrimento físico e no clamor ao Deus que não se cala.
  • Salmo 32 — “Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada” — resposta ao pedido de livramento das transgressões do v.8.
  • Salmo 23 — “Habitarei na casa do Senhor para sempre” — destino da peregrinação do v.12.
  • Salmo 12 — Sobre o poder da língua — o contexto em que o Salmo 39 escolhe o silêncio.
  • Versículos de Esperança — “A minha esperança está em ti” — v.7 como fundamento da esperança.
  • Versículos sobre Confiança em Deus — O antídoto à vaidade do v.6.
  • Oração da Madrugada — “Não te cales diante das minhas lágrimas” — quando as lágrimas chegam antes das palavras.
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