Dunas do deserto egípcio, cenário da vida eremítica de Santo Onofre

Oração a Santo Onofre: Texto Completo e História do Eremita

Poucas imagens de santos causam tanta estranheza à primeira vista quanto a de Santo Onofre: um homem idoso, com cabelos e barba compridos até o chão, cobrindo o corpo apenas com folhas — figura que parece saída diretamente do deserto onde, de fato, viveu por cerca de sessenta anos. A oração a Santo Onofre, rezada por muitos fiéis diante de dificuldades diversas, carrega por trás de si uma das histórias mais radicais de renúncia e vida contemplativa de toda a tradição cristã antiga.

Diferente de santos mais recentes e mais bem documentados, praticamente tudo o que se sabe sobre Santo Onofre vem de uma única fonte: o relato de São Pafúncio, monge egípcio que o encontrou no deserto pouco antes de sua morte, e que registrou por escrito a extraordinária história de vida daquele eremita que passara décadas em completo isolamento.

Neste texto você vai encontrar o texto completo da oração a Santo Onofre, a história real desse eremita egípcio do século IV, o significado de sua vida de renúncia radical, e como recorrer a essa devoção com fé equilibrada.

Oração a Santo Onofre — Texto Completo

Esta é uma das versões mais conhecidas da oração a Santo Onofre:

“Meu glorioso Santo Onofre, que pela Divina Providência fostes santificado e hoje estais no círculo dos bem-aventurados, contemplando a face de Deus, eu vos peço, com toda a confiança, que intercedais por mim junto ao Senhor. Vós que renunciastes a todas as coisas do mundo para viver unicamente para Deus no silêncio do deserto, ensinai-me a confiar na Divina Providência mesmo nos momentos de maior necessidade e escassez. Alcançai-me, junto a Deus, a graça de que preciso neste momento: (mencione seu pedido). Que, à vossa semelhança, eu aprenda a depositar toda a minha confiança nas mãos de Deus. Santo Onofre, rogai por nós. Amém.”

A tradição recomenda encerrar com um Pai-Nosso. Muitos fiéis também rezam a novena completa de nove dias, com um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e o Credo ao final de cada dia, antecedendo a festa de Santo Onofre em 12 de junho.

A História de Santo Onofre: O Eremita do Deserto Egípcio

Caverna de eremita, referência à moradia de Santo Onofre no deserto

A oração a Santo Onofre rezada hoje tem origem numa das histórias mais radicais de renúncia de toda a tradição do deserto egípcio dos primeiros séculos do cristianismo.

O monge que se tornou eremita

Segundo o relato de São Pafúncio — a única fonte histórica sobre sua vida —, Onofre era originalmente um monge que vivia num mosteiro próximo a Tebas, no Egito, no final do século IV. Após sentir um chamado interior irresistível para uma vida de solidão ainda mais radical, ele decidiu se afastar completamente de qualquer contato humano, seguindo o exemplo bíblico de São João Batista e do profeta Elias, ambos associados na tradição a longos períodos no deserto.

Essa transição de monge comunitário para eremita solitário reflete uma tensão espiritual real e antiga dentro da própria tradição monástica: enquanto alguns cristãos buscavam a santidade dentro de comunidades organizadas, seguindo regras compartilhadas e vivendo em obediência mútua, outros sentiam chamado ainda mais radical para o isolamento absoluto — modelo que os teólogos chamam de vida “anacorética”, em contraste com a vida “cenobítica” comunitária. Onofre representa, dentro dessa distinção clássica da espiritualidade monástica antiga, um dos exemplos mais extremos e duradouros do caminho anacorético, levando a solidão a um grau raramente igualado por outros eremitas da mesma época histórica.

Sessenta anos no deserto de Tebaida

Onofre passou então cerca de sessenta anos vivendo sozinho no deserto egípcio de Tebaida, região que se tornou, nos primeiros séculos do cristianismo, um dos principais centros da tradição monástica conhecida como “Padres do Deserto” — homens e mulheres que buscavam a santidade através da solidão extrema, do jejum rigoroso e da oração contínua, longe de qualquer distração do mundo habitado.

A região da Tebaida, nomeada em referência à antiga cidade egípcia de Tebas, situava-se no Alto Egito, abrangendo vastas extensões de deserto pontuadas por ocasionais oásis e formações rochosas que ofereciam abrigo natural em cavernas e fendas. Essa geografia específica tornou-se, ao longo do século IV, verdadeiro território de peregrinação espiritual, atraindo centenas — segundo alguns relatos, milhares — de homens e mulheres que abandonavam completamente a vida urbana e familiar em busca dessa forma extrema de vida contemplativa. Onofre, vivendo isolado nesse território por seis décadas inteiras, representa um dos casos mais extremos e mais duradouros de isolamento voluntário registrados por toda essa tradição espiritual do deserto egípcio.

Cabelos longos e folhas: a aparência que impressionou Pafúncio

Quando São Pafúncio finalmente o encontrou, já perto do fim de sua vida, ficou impressionado com sua aparência: um homem idoso, com cabelos e barba brancos que cobriam praticamente todo o corpo, e apenas folhas amarradas na cintura para cobrir as partes íntimas — décadas sem qualquer contato com vestimentas comuns ou instrumentos de higiene pessoal, vivendo unicamente do que o próprio deserto oferecia.

Essa descrição física específica, transmitida fielmente ao longo dos séculos seguintes através da tradição iconográfica, tornou-se a marca visual mais reconhecível de Santo Onofre em qualquer representação artística — seja em ícones orientais, pinturas medievais ou imagens de devoção popular contemporâneas. Diferente de muitos outros santos, cuja aparência física varia consideravelmente entre diferentes tradições artísticas e períodos históricos, a imagem de Onofre permaneceu notavelmente consistente ao longo do tempo, precisamente porque essa descrição extrema e memorável, registrada já no relato original de Pafúncio, funcionava como testemunho visual imediato e inconfundível da radicalidade de sua renúncia a qualquer conforto ou convenção social comum.

A tamareira providencial

Onofre relatou a Pafúncio como Deus havia sustentado sua vida ao longo de tantas décadas de isolamento completo: uma tamareira específica, próxima à gruta onde vivia, fornecia-lhe frutos regularmente, e um anjo, segundo o relato, trazia-lhe alimento nos períodos em que a árvore não produzia — uma providência divina constante e direta, sustentando fisicamente uma vida inteiramente dedicada à contemplação.

Esse elemento específico da narrativa — a providência divina suprindo necessidades básicas de sobrevivência através de meios naturais complementados por intervenção sobrenatural direta — segue um padrão recorrente na tradição hagiográfica dos primeiros eremitas do deserto, ecoando episódios bíblicos anteriores, como o profeta Elias sendo alimentado por corvos junto ao ribeiro de Querite (1 Reis 17:6). Para os primeiros leitores dessas biografias, esse tipo de relato reforçava uma mensagem espiritual central: quem abandona completamente as seguranças materiais comuns em nome de uma entrega radical a Deus não é abandonado por Ele, mas sustentado de forma às vezes extraordinária, precisamente porque colocou toda sua confiança apenas na providência divina, sem qualquer rede de segurança puramente humana disponível.

O Encontro com Pafúncio e a Morte de Santo Onofre

Palmeiras em oásis no deserto, referência à tamareira que alimentou Santo Onofre

O relato do encontro final entre Onofre e Pafúncio é o único registro histórico direto sobre a vida do santo, e vale conhecê-lo com mais detalhe.

Pafúncio, o monge em busca de sua própria vocação

Pafúncio era ele mesmo um monge egípcio que decidira peregrinar pelo deserto por um período, buscando discernir se também era chamado à vida eremítica extrema. Após vinte e um dias de caminhada solitária, exausto e à beira de desfalecer, ele encontrou Onofre, que o acolheu, alimentou e hospedou em sua gruta.

Esse detalhe específico da narrativa — os vinte e um dias de caminhada, número que ecoa outros períodos simbólicos de provação presentes na tradição bíblica e espiritual — situa Pafúncio, no início do relato, como alguém em processo genuíno de discernimento vocacional, não como mero visitante casual do deserto. Sua exaustão física extrema no momento do encontro reforça o contraste dramático da narrativa: um homem jovem e experiente em jornadas espirituais, já no limite de suas próprias forças, sendo acolhido e sustentado por um eremita idoso que havia sobrevivido, sozinho, décadas inteiras naquelas mesmas condições extremas do deserto egípcio.

A revelação sobre a verdadeira missão de Pafúncio

Na noite seguinte ao encontro, Onofre relatou a Pafúncio ter recebido uma revelação divina: a missão daquele monge visitante não era se tornar eremita como ele, mas testemunhar sua morte iminente e, depois, retornar à sociedade para contar a todos a história que havia vivido e testemunhado — preservando, assim, a memória daquela vida extraordinária de santidade que, de outra forma, se perderia completamente no anonimato do deserto.

Esse elemento específico da narrativa — a revelação que redireciona a vocação original de Pafúncio — cumpre função literária e espiritual importante dentro da hagiografia: explica por que existe, afinal, um relato escrito sobre uma vida que, por definição, se passou inteiramente em isolamento e sem testemunhas. Sem essa intervenção divina específica motivando Pafúncio a documentar e divulgar o que testemunhara, toda a extraordinária história de Santo Onofre teria permanecido desconhecida, e sua santidade jamais teria sido reconhecida formalmente pela Igreja ao longo dos séculos seguintes.

A morte de Santo Onofre

Segundo o relato, Onofre morreu logo em seguida, em 12 de junho — data que a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa escolheram, desde então, para celebrar sua festa anual. A tradição afirma que um anjo lhe teria dado a Eucaristia pouco antes de sua morte, e que Pafúncio, cumprindo a missão revelada, enterrou o corpo do eremita numa fenda de rocha próxima, marcando o local com pedras, antes de retornar à civilização para escrever e divulgar a extraordinária biografia daquele que viria a se tornar Santo Onofre.

O detalhe da Eucaristia recebida por intermédio angélico, embora não documentável historicamente, carrega significado teológico relevante dentro da narrativa: mesmo tendo vivido décadas completamente isolado de qualquer comunidade eclesial e de qualquer acesso aos sacramentos regulares, a tradição faz questão de garantir que Onofre não morreu privado da Eucaristia — o sacramento central da vida católica —, através dessa intervenção sobrenatural específica no momento final de sua vida. Esse elemento reforça a compreensão de que, mesmo na solidão mais extrema, a Igreja entende que a graça sacramental permanece acessível àqueles que a buscam com sinceridade, ainda que por meios que escapam à administração ordinária dos sacramentos pela própria hierarquia eclesiástica.

Por que a história de Onofre é tão pouco documentada

Vale reconhecer, com honestidade, que a vida de Santo Onofre depende inteiramente desse único relato de Pafúncio — não existem outras fontes históricas independentes que confirmem os detalhes específicos de sua biografia. Isso é comum entre muitos santos eremitas dos primeiros séculos do cristianismo, cuja vida solitária, por definição, deixava poucos ou nenhum registro documental contemporâneo, dependendo inteiramente de relatos posteriores de quem os visitava ocasionalmente no deserto.

Essa limitação documental não é motivo para descartar a veneração a Santo Onofre, mas convida a uma postura de honestidade intelectual sobre a natureza da fonte: o relato de Pafúncio funciona, na tradição católica, de forma semelhante a outras hagiografias antigas — como tradição espiritual preservada e transmitida com reverência, ainda que sem o mesmo padrão de verificação histórica exigido, por exemplo, para eventos da vida pública de figuras contemporâneas mais documentadas. A Igreja reconhece esse tipo de santidade eremítica com base na continuidade da devoção popular ao longo dos séculos e na conformidade do que se sabe sobre a vida do santo com os valores centrais do Evangelho, mesmo quando os detalhes específicos de sua biografia não podem ser confirmados por múltiplas fontes documentais independentes.

Padroeiro de Quê: Os Diferentes Patronatos de Santo Onofre

Paisagem desértica ampla, símbolo da vida contemplativa e solitária

Ao longo dos séculos, a devoção popular associou a Santo Onofre patronatos específicos, alguns diretamente ligados a sua biografia, outros desenvolvidos posteriormente pela tradição.

Padroeiro dos tecelões

Uma tradição mais antiga e mais diretamente ligada à sua imagem — coberto apenas por seus próprios cabelos e por folhas entrelaçadas — associou Santo Onofre ao ofício dos tecelões, profissionais que trabalham entrelaçando fios, numa conexão simbólica com a própria vestimenta improvisada do santo.

Essa associação entre a aparência específica de um santo e o patronato de determinada profissão é padrão comum na tradição católica de atribuição de padroeiros — muitos ofícios e profissões ao longo da história receberam santos padroeiros justamente por conexões simbólicas semelhantes, seja pela ferramenta usada em vida pelo próprio santo, seja por elementos visuais marcantes de sua iconografia tradicional. No caso de Onofre, a imagem de um homem cujo único “tecido” disponível eram os próprios cabelos entrelaçados com folhas naturais criou, ao longo dos séculos, essa ligação simbólica específica com o trabalho manual de tecelagem, preservada até hoje em algumas comunidades e confrarias profissionais que mantêm devoção específica a ele.

Intercessor contra o alcoolismo

Outra tradição consolidada apresenta Santo Onofre como intercessor para quem enfrenta o vício do alcoolismo — alguns relatos posteriores sugerem que ele mesmo teria enfrentado essa luta antes de sua vida eremítica, embora essa informação específica não apareça no relato original de Pafúncio, sendo antes elemento incorporado pela tradição devocional em momento posterior.

Essa camada adicional da tradição, embora não verificável no relato histórico original, ganhou força e persistência considerável na devoção popular contemporânea, especialmente entre fiéis que buscam apoio espiritual complementar em processos de recuperação de dependência química ou alcoólica. Vale a mesma ressalva de equilíbrio já mencionada anteriormente neste texto: rezar a Santo Onofre pode oferecer sustento espiritual genuíno para quem enfrenta essa luta específica, mas nunca deve substituir o acompanhamento médico, psicológico e de grupos de apoio especializados, que continuam sendo elementos essenciais e insubstituíveis em qualquer processo sério e responsável de recuperação da dependência do álcool ou de outras substâncias.

A associação com prosperidade material — um ponto que merece equilíbrio

Muitas fontes populares contemporâneas apresentam Santo Onofre primariamente como “padroeiro da fortuna”, associado a orações voltadas especificamente para atrair dinheiro e prosperidade material. Vale um ponto de equilíbrio espiritual importante aqui: a vida real de Santo Onofre foi marcada justamente pelo oposto — renúncia total a qualquer bem material, sessenta anos de pobreza extrema no deserto, confiança na providência divina diante da escassez mais radical possível que se pode imaginar. Reduzir sua devoção apenas ao pedido de riqueza material contradiz, em certo sentido bastante direto, o próprio testemunho de vida que sustenta sua santidade reconhecida pela Igreja ao longo dos séculos.

Uma leitura mais fiel à sua biografia

Uma abordagem mais fiel à vida real de Santo Onofre entende sua intercessão como voltada, sobretudo, para o aprendizado da confiança na providência divina — especialmente diante de momentos de escassez, necessidade ou incerteza sobre o futuro —, e não como fórmula garantida de enriquecimento material rápido, expectativa que se distancia bastante do espírito de renúncia radical que caracterizou toda a sua existência.

Essa distinção entre a devoção autêntica, ancorada na biografia real do santo, e versões mais recentes que a distorcem para fins de prosperidade material imediata, não é exclusividade de Santo Onofre — fenômeno semelhante acontece com diversos outros santos populares cuja imagem é, por vezes, apropriada por materiais devocionais de qualidade duvidosa, focados exclusivamente em prometer resultados materiais rápidos e específicos, distanciando-se do contexto espiritual mais profundo que realmente sustenta o reconhecimento católico da santidade daquela pessoa específica. Para o fiel que busca aprofundar genuinamente essa devoção, vale sempre priorizar fontes que apresentem a biografia histórica com fidelidade, evitando materiais que transformem qualquer santo em mero “amuleto” de sorte ou riqueza, esvaziando o verdadeiro significado espiritual de sua vida e de sua intercessão.

Santo Onofre e a Tradição dos Padres do Deserto

Para entender por completo a figura de Santo Onofre, vale situar sua vida dentro do movimento espiritual mais amplo que a tornou possível — a tradição monástica conhecida como “Padres do Deserto”.

Santo Antão, o pioneiro do monaquismo eremítico

Décadas antes de Onofre, Santo Antão do Egito (251-356) já havia se retirado para o deserto egípcio, tornando-se o pioneiro reconhecido de toda essa tradição de vida eremítica cristã. Sua biografia, escrita por Santo Atanásio de Alexandria, tornou-se texto fundamental para toda a espiritualidade monástica posterior, influenciando diretamente a geração de eremitas que viria depois dele, incluindo o próprio Onofre.

A obra de Atanásio sobre Santo Antão circulou amplamente por todo o mundo cristão nos séculos seguintes, sendo lida inclusive por Santo Agostinho, que relata em suas próprias Confissões o impacto profundo que essa biografia teve sobre sua conversão pessoal. Esse encadeamento de influências espirituais — de Antão a diversos eremitas posteriores, incluindo Onofre, e depois a santos ainda mais tardios que leriam essas mesmas biografias — ilustra como a tradição espiritual do deserto egípcio, embora vivida em isolamento físico radical, gerou uma rede duradoura e continuamente reproduzida de influência espiritual ao longo de toda a história posterior da Igreja.

Por que o deserto egípcio especificamente

O deserto egípcio, com sua vastidão inabitável e seu isolamento natural, tornou-se destino privilegiado para cristãos que buscavam, após o fim das grandes perseguições romanas no início do século IV, uma nova forma de testemunho radical de fé — já que o martírio físico havia se tornado mais raro, muitos passaram a buscar um “martírio branco”: a morte simbólica ao mundo através da renúncia total e da vida solitária de oração extrema.

Essa transição histórica é frequentemente destacada por historiadores da espiritualidade cristã como um dos desenvolvimentos mais significativos do quarto século: com o Édito de Milão em 313, que legalizou o cristianismo no Império Romano, e a posterior conversão do próprio imperador Constantino, o risco de perseguição e martírio que havia caracterizado os primeiros séculos da Igreja diminuiu drasticamente. Diante dessa nova realidade histórica, muitos cristãos fervorosos sentiram que a fé arriscava perder parte de sua intensidade original, e buscaram no deserto uma forma alternativa, igualmente radical, de testemunhar sua entrega total a Deus — trocando o risco de morte física pelas mãos de perseguidores pelo desafio, igualmente extremo, de sobreviver espiritual e fisicamente na solidão mais absoluta do deserto egípcio.

O legado duradouro dos Padres do Deserto

Esse movimento espiritual, do qual Santo Onofre foi um dos representantes mais extremos em termos de isolamento e duração de tempo vivido sozinho, influenciaria profundamente toda a tradição monástica ocidental posterior — incluindo a Regra de São Bento, escrita séculos depois, que incorporou e sistematizou muitos dos princípios espirituais desenvolvidos originalmente por esses primeiros eremitas do deserto egípcio, garantindo que sua influência espiritual atravessasse os séculos seguintes até chegar, de formas variadas, à vida religiosa católica praticada até hoje.

Os ensinamentos práticos e as reflexões espirituais desses primeiros Padres do Deserto foram preservados principalmente através de coletâneas conhecidas como “Apotegmas dos Padres” — breves ditos e histórias transmitidos oralmente por gerações antes de serem finalmente registrados por escrito, formando um dos primeiros grandes corpos de literatura espiritual cristã fora do próprio texto bíblico. Muitos desses ensinamentos tratam exatamente dos temas centrais da vida de Onofre: o valor da solidão, a confiança radical na providência divina, e o desprendimento completo de qualquer segurança puramente material como caminho privilegiado de encontro mais profundo com Deus.

Perguntas Frequentes

O que é a oração a Santo Onofre?

É uma oração de intercesão dirigida a Santo Onofre, eremita egípcio do século IV que viveu cerca de sessenta anos sozinho no deserto, pedindo sua ajuda para confiar na providência divina diante de necessidades e dificuldades.

Quem foi Santo Onofre?

Foi um monge egípcio que se tornou eremita, vivendo cerca de sessenta anos sozinho no deserto de Tebaida, coberto apenas por cabelos longos e folhas, sustentado por uma tamareira e, segundo a tradição, pela providência divina direta.

Qual a fonte histórica sobre a vida de Santo Onofre?

Vem inteiramente do relato de São Pafúncio, monge que o encontrou no deserto pouco antes de sua morte, testemunhou seu falecimento e escreveu sua biografia — única fonte histórica existente sobre a vida do eremita.

Quando é a festa de Santo Onofre?

É celebrada em 12 de junho, data tradicionalmente associada à sua morte, tanto pela Igreja Católica quanto pela Igreja Ortodoxa.

Santo Onofre é padroeiro de quê?

É tradicionalmente associado aos tecelões (por sua veste improvisada de cabelos e folhas) e a quem enfrenta o vício do alcoolismo, embora muitas fontes populares também o apresentem, de forma menos fiel à sua biografia real, como ‘padroeiro da fortuna’.

É correto rezar a Santo Onofre pedindo dinheiro?

Vale equilíbrio: sua vida real foi marcada por renuncia total a bens materiais, não pela busca de riqueza. Uma leitura mais fiel entende sua intercesão como voltada à confiança na providência divina diante da escassez, não como fórmula de enriquecimento rápido.

O que foram os Padres do Deserto?

São os primeiros eremitas e monges cristãos que se retiraram para o deserto egípcio a partir do século III e IV, buscando uma vida de oração extrema e renúncia total, dos quais Santo Antão é considerado o pioneiro e Santo Onofre um dos representantes mais radicais.

Como Santo Onofre se alimentava no deserto?

Segundo o relato de Pafúncio, uma tamareira próxima à sua gruta fornecia frutos regularmente, e um anjo trazia-lhe alimento nos períodos em que a árvore não produzia — sinal de providência divina contínua ao longo de décadas de isolamento.

Como foi a morte de Santo Onofre?

Segundo a tradição, um anjo lhe deu a Eucaústia pouco antes de morrer, em 12 de junho, e Pafúncio o enterrou numa fenda de rocha antes de retornar à civilização para escrever sua biografia.

A oração a Santo Onofre substitui esforço prático?

Não. A oração funciona como sustento espiritual de confiança, mas não substitui esforço prático responsavel diante de qualquer necessidade concreta, seja financeira, emocional ou de qualquer outra natureza.

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A Iconografia de Santo Onofre e Sua Disseminação

A figura de Santo Onofre ganhou, ao longo dos séculos, expressão artística marcante em diferentes tradições cristãs, refletindo o fascínio que sua aparência extraordinária e sua história radical sempre exerceram sobre artistas e devotos.

Iconografia oriental e ocidental

Tanto na tradição ortodoxa oriental quanto na tradição católica ocidental, Santo Onofre é representado quase invariavelmente da mesma forma: um homem idoso, com cabelos e barba extremamente longos cobrindo grande parte do corpo, geralmente com uma coroa sobre a cabeça — elemento que a tradição iconográfica acrescentou para simbolizar sua origem nobre antes de abraçar a vida eremítica, embora essa informação específica sobre nobreza não apareça no relato original de Pafúncio, sendo acréscimo posterior da devoção popular ao longo dos séculos seguintes.

Presença em diferentes países e culturas

A devoção a Santo Onofre se espalhou de forma notável para além do Egito, alcançando popularidade especialmente em regiões de forte presença bizantina e, mais tarde, através dos movimentos de peregrinação e das Cruzadas medievais, chegando também à Europa ocidental. No Brasil, a devoção chegou através da colonização portuguesa, mantendo-se viva especialmente em comunidades específicas onde capelas e igrejas dedicadas ao santo preservam sua memória até os dias atuais, incluindo celebrações anuais que reúnem fiéis devotos em torno de sua festa no dia 12 de junho.

Um santo que atravessa fronteiras religiosas

Como mencionado brevemente, algumas tradições religiosas afro-brasileiras estabeleceram, ao longo do processo histórico de sincretismo religioso no Brasil colonial e pós-colonial, associações entre Santo Onofre e divindades específicas de matriz africana. Esse fenômeno de sincretismo, comum a diversos outros santos católicos no contexto brasileiro, reflete processos históricos complexos de encontro cultural e religioso, que vão além do escopo estritamente católico da devoção original a Santo Onofre, mas que ajudam a explicar parte da disseminação e da persistência dessa devoção específica em determinadas regiões e comunidades do país.

Para o fiel católico que deseja aprofundar sua devoção especificamente dentro da tradição da Igreja, vale manter o foco na biografia histórica documentada por Pafúncio e na compreensão teológica católica de sua santidade, reconhecendo ao mesmo tempo, com respeito, que outras tradições religiosas desenvolveram, ao longo da história brasileira, suas próprias formas de interpretar e venerar essa mesma figura, dentro de contextos culturais e religiosos distintos do catolicismo original.

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