Pomba branca com luz, símbolo do Divino Espírito Santo

Oração ao Divino Espírito Santo: Texto e os Sete Dons

“Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor.” Poucas orações são tão antigas e ao mesmo tempo tão universalmente rezadas no catolicismo quanto essa breve súplica ao Divino Espírito Santo — usada antes de decisões importantes, no início de retiros espirituais, antes da leitura da Bíblia, e em praticamente qualquer momento em que o fiel busca clareza, coragem ou discernimento diante da vida.

A oração ao Divino Espírito Santo tem raiz direta no próprio evento de Pentecostes, narrado no Livro dos Atos dos Apóstolos — o momento em que a terceira Pessoa da Santíssima Trindade desceu sobre os apóstolos reunidos, transformando um grupo de homens amedrontados em pregadores corajosos da fé cristã.

Neste texto você vai encontrar o texto completo da oração ao Divino Espírito Santo, o significado dos sete dons tradicionalmente associados a essa devoção, a origem bíblica em Pentecostes, e orientações práticas de quando e como rezar essa oração.

Oração ao Divino Espírito Santo — Texto Completo

Este é o texto mais tradicional e mais rezado da oração ao Divino Espírito Santo, usado há séculos por católicos em todo o mundo:

“Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor. Enviai, Senhor, o vosso Espírito, e tudo será criado, e renovareis a face da terra. Oremos: Ó Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas segundo o mesmo Espírito e gozemos sempre da Sua consolação. Por Cristo, Senhor nosso. Amém.”

Essa versão curta é rezada antes de decisões importantes, no início de retiros e reuniões de oração, e antes da leitura orante da Bíblia. Existe também uma versão mais longa, tradicionalmente associada à novena de Pentecostes, que pede especificamente cada um dos sete dons do Espírito Santo, um por um, ao longo dos nove dias de preparação para a solenidade.

A Origem Bíblica: O Evento de Pentecostes

Vitral de igreja com pomba, representando Pentecostes e a descida do Espírito Santo

A oração ao Divino Espírito Santo tem fundamento direto no evento bíblico de Pentecostes, narrado no segundo capítulo do Livro dos Atos dos Apóstolos — um dos episódios mais decisivos de toda a história da Igreja primitiva.

O evento de Pentecostes

Cinquenta dias após a Ressurreição de Jesus, os apóstolos estavam reunidos em Jerusalém, ainda temerosos e incertos após a Ascensão de seu Mestre. O texto de Atos 2 descreve que, de repente, “veio do céu um som, como de um vento impetuoso” que encheu toda a casa onde estavam, e “línguas repartidas, como que de fogo” pousaram sobre cada um deles. Os apóstolos foram então “cheios do Espírito Santo” e começaram a falar em outras línguas, sendo compreendidos por judeus de diferentes nações que se encontravam na cidade para a festa judaica de Shavuot.

A menção específica a Shavuot não é acidental: essa festa judaica, também chamada Festa das Semanas, celebrava tradicionalmente a entrega da Lei a Moisés no Monte Sinai, cinquenta dias após a saída do Egito. A tradição cristã sempre viu nessa coincidência de datas um paralelo teológico profundo: assim como a Lei antiga foi dada ao povo de Israel em Shavuot, a “nova lei” do Espírito Santo, escrita não em tábuas de pedra mas nos próprios corações dos fiéis, seria inaugurada precisamente nesse mesmo dia festivo, décadas depois, através da efusão do Espírito sobre os apóstolos reunidos em Jerusalém.

De temerosos a corajosos pregadores

A transformação relatada é radical: os mesmos apóstolos que, poucos dias antes, se escondiam por medo após a prisão e morte de Jesus, saem em seguida a Pentecostes pregando publicamente e sem medo diante de multidões, com Pedro proferindo o primeiro grande discurso público da Igreja, resultando na conversão de milhares de pessoas naquele mesmo dia, segundo o relato de Atos 2:41.

Esse contraste dramático entre o “antes” e o “depois” de Pentecostes é frequentemente destacado por comentaristas bíblicos como uma das evidências mais convincentes da realidade histórica do evento: dificilmente um grupo de pessoas comuns, sem qualquer poder político ou militar, teria coragem de sair pregando abertamente sobre um homem crucificado como Messias — desafio direto às autoridades religiosas e políticas da época — sem alguma experiência transformadora extraordinária que explicasse essa súbita mudança de comportamento. A tradição cristã sempre apontou exatamente para essa experiência de Pentecostes como o fator decisivo dessa transformação, capaz de converter homens amedrontados em mártires dispostos a morrer por aquilo que agora professavam com absoluta convicção.

Por que a Igreja considera Pentecostes seu “aniversário”

Por essa razão, muitos teólogos e a própria tradição litúrgica se referem a Pentecostes como o momento de “nascimento” público da Igreja — antes desse evento, os discípulos formavam um grupo disperso e amedrontado; depois dele, tornaram-se comunidade organizada, corajosa e missionária, impulsionada precisamente pela força do Espírito Santo que a oração ao Divino Espírito Santo invoca repetidamente até hoje.

Essa compreensão de Pentecostes como “aniversário da Igreja” tem consequência litúrgica direta: a solenidade é celebrada, no calendário católico, com a mesma cor litúrgica vermelha usada para festas de mártires — simbolizando tanto o fogo do Espírito Santo quanto o sangue derramado pelos primeiros cristãos que testemunhariam corajosamente sua fé, muitos até a morte, impulsionados exatamente por essa mesma experiência que os apóstolos viveram naquele primeiro Pentecostes cristão. A Igreja Católica, ao renovar anualmente essa celebração, não apenas comemora um evento histórico passado, mas reafirma sua própria identidade contínua como comunidade que se compreende, ainda hoje, animada pela mesma presença ativa do Espírito Santo que a constituiu originalmente.

Os Sete Dons do Espírito Santo

Velas acesas, símbolo do fogo do Espírito Santo em Pentecostes

Um dos elementos centrais da devoção ao Divino Espírito Santo é a tradição dos sete dons, com base na profecia de Isaías 11:2-3 sobre o Messias, que a Igreja aplica a todo cristão que vive em estado de graça.

Sabedoria

O dom que permite julgar e ordenar corretamente as próprias ações e as coisas do mundo à luz das verdades divinas — ver a vida com os olhos de Deus, e não apenas com critérios puramente humanos. É considerado o mais elevado entre os sete dons, pois envolve uma participação especial na própria sabedoria eterna de Deus, permitindo que o fiel julgue todas as realidades, mesmo as mais complexas, à luz das causas últimas e do plano divino.

Entendimento

A capacidade de compreender mais profundamente as verdades da fé, indo além do conhecimento superficial ou puramente intelectual para uma percepção mais viva e pessoal do que se crê. Diferente da mera memorização de doutrinas, esse dom permite penetrar o significado real e vivo das verdades reveladas, tornando a fé experiência interior transformadora, não apenas conjunto de proposições aceitas racionalmente sem impacto real na própria vida.

Conselho

O dom que ajuda a discernir corretamente o que fazer em cada situação concreta da vida, especialmente diante de decisões difíceis ou moralmente complexas. Diferente da simples prudência humana, esse dom é descrito pela tradição como uma docilidade especial que permite ao fiel captar, com clareza incomum, a orientação divina mais adequada para cada circunstância específica que se apresenta.

Fortaleza

A força espiritual para perseverar na fé e na prática do bem, mesmo diante de dificuldades, perseguições ou tentações que poderiam levar ao desânimo ou à desistência. Diversos santos e mártires ao longo da história citaram explicitamente esse dom específico como fonte da coragem sobrenatural que sustentou sua fidelidade mesmo diante da morte, entendendo que essa fortaleza não nasce apenas de determinação pessoal, mas de uma força que vem de fora de si mesmo, oferecida gratuitamente pelo Espírito Santo a quem a pede com sinceridade e confiança.

Ciência

A capacidade de discernir corretamente entre o que é essencial e o que é secundário na vida, reconhecendo os limites das coisas puramente terrenas diante do valor supremo da vida eterna. Esse dom ajuda o fiel a julgar corretamente as realidades criadas em sua relação com Deus, evitando tanto o desprezo pelas coisas do mundo quanto o apego excessivo a elas como se fossem fim último da existência humana.

Piedade

Um profundo respeito e amor filial por Deus, que se traduz em relação afetuosa e confiante com o Pai, e em amor fraterno genuíno pelo próximo. Esse dom transforma a prática religiosa de obrigação fria em relacionamento vivo e caloroso, aproximando o fiel de Deus com a mesma confiança espontânea de uma criança em relação a um pai amoroso e presente.

Temor de Deus

Não medo servil ou pavor, mas reverência profunda diante da santidade e da majestade de Deus, motivada pelo amor e não pelo receio de punição. É considerado o primeiro dos dons na ordem de recepção espiritual, servindo como fundamento sobre o qual os demais dons se desenvolvem, gerando no fiel um cuidado consciente de nunca ofender voluntariamente a quem se ama profundamente.

Como esses dons se manifestam na vida prática

A tradição católica ensina que esses sete dons não são talentos abstratos e distantes, mas capacidades espirituais concretas, recebidas plenamente no Batismo e reforçadas de modo especial no sacramento da Crisma, disponíveis para qualquer fiel que viva em estado de graça e busque, através da oração, deixar-se guiar mais ativamente pela ação do Espírito Santo em sua vida cotidiana.

São Tomás de Aquino, um dos maiores teólogos da tradição católica, dedicou reflexão extensa aos sete dons em sua obra “Suma Teológica”, explicando que eles complementam as virtudes teologais e cardeais, tornando a pessoa mais dócil e receptiva à ação direta de Deus, especialmente em situações que ultrapassam a capacidade puramente humana de raciocínio e virtude. Para Aquino, os dons funcionam como uma espécie de “vela” que capta o vento do Espírito Santo — mesmo a pessoa mais virtuosa, sem essa docilidade especial aos dons, teria dificuldade em responder adequadamente às situações mais complexas e inesperadas da vida espiritual e moral.

Quem é o Espírito Santo na Teologia Católica

Vitral colorido de igreja, arte sacra representando a luz divina

Antes de aprofundar a prática devocional, vale entender quem exatamente é invocado nessa oração — a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, tão real e tão Deus quanto o Pai e o Filho.

A terceira Pessoa da Trindade

O Espírito Santo não é uma “força” ou “energia” impessoal, como às vezes é popularmente descrito — a doutrina católica afirma que Ele é Pessoa divina plena, distinta do Pai e do Filho, mas da mesma substância e igual dignidade, completando a Santíssima Trindade professada no Credo.

Essa afirmação teológica específica — que o Espírito Santo é Pessoa, não simples atributo ou manifestação impessoal de Deus — foi objeto de intenso debate nos primeiros séculos do cristianismo, culminando na definição formal feita pelo Concílio de Constantinopla em 381 d.C., que ampliou o Credo de Niceia justamente para afirmar explicitamente a divindade plena do Espírito Santo, em resposta a correntes teológicas da época que o consideravam criatura inferior ou simples força divina despersonalizada. Essa definição doutrinária, hoje professada por todo católico ao rezar o Credo Niceno-Constantinopolitano na Missa, garante que a oração ao Divino Espírito Santo seja dirigida, com toda propriedade teológica, a uma Pessoa divina real e plena — não a uma abstração filosófica ou força cósmica impessoal, como algumas correntes espirituais contemporâneas por vezes sugerem ao usar linguagem semelhante fora do contexto católico específico.

Diferentes títulos para o Espírito Santo

A tradição católica atribui ao Espírito Santo diversos títulos que aparecem também nas orações a Ele dirigidas: “Paráclito” (do grego, “aquele que é chamado para ajudar” ou “advogado”), “Consolador”, “Dom de Deus Altíssimo”, e “Senhor que dá a vida” — expressão que aparece explicitamente no Credo Niceno-Constantinopolitano.

Cada um desses títulos capta uma dimensão específica da ação do Espírito Santo na vida do fiel e da Igreja. “Paráclito” enfatiza seu papel de defensor e ajudador constante, especialmente nos momentos de dificuldade ou perseguição. “Consolador” destaca sua presença ativa nos momentos de tristeza, dúvida ou sofrimento. “Dom de Deus Altíssimo” ressalta que Ele não é conquistado pelo esforço humano, mas oferecido gratuitamente por Deus como presente. E “Senhor que dá a vida” reconhece seu papel na própria criação e sustentação de toda vida, física e espiritual. Essa riqueza de títulos, longe de fragmentar a compreensão de quem é o Espírito Santo, ajuda o fiel a se aproximar dessa Pessoa divina através de diferentes aspectos de sua ação, cada um relevante conforme o momento específico e a necessidade concreta de quem reza.

A ação do Espírito Santo ao longo da história da salvação

Embora Pentecostes seja o momento mais conhecido de manifestação do Espírito Santo, a tradição católica reconhece sua ação em toda a história bíblica — desde o “Espírito de Deus” que se movia sobre as águas na Criação (Gênesis 1:2), passando pela concepção de Jesus “pelo poder do Espírito Santo” na Anunciação, até sua ação contínua na vida da Igreja e de cada fiel individual ao longo dos séculos seguintes.

No Antigo Testamento, o Espírito de Deus também é descrito atuando sobre profetas específicos, capacitando-os para sua missão — como no caso de Isaías, cuja profecia sobre os sete dons fundamenta diretamente a tradição devocional que examinamos neste texto. Nos Evangelhos, o próprio Jesus é descrito sendo conduzido pelo Espírito ao deserto antes de iniciar seu ministério público (Mateus 4:1), e prometendo explicitamente aos apóstolos, antes de sua Paixão, que enviaria o “Paráclito” para permanecer com eles para sempre (João 14:16). Essa continuidade bíblica ampla — do Antigo Testamento aos Evangelhos, culminando em Pentecostes — é o que sustenta teologicamente a compreensão católica do Espírito Santo como presença ativa e constante ao longo de toda a história da salvação, não apenas um evento isolado ocorrido uma única vez no passado distante.

Quando e Como Rezar ao Divino Espírito Santo

A oração ao Divino Espírito Santo se aplica a diversos momentos específicos da vida espiritual e prática cotidiana dos fiéis.

Antes de decisões importantes

É um dos usos mais comuns dessa oração — pedir a luz do Espírito Santo antes de tomar decisões significativas: escolhas profissionais, decisões familiares, discernimento vocacional, ou qualquer momento em que a clareza pareça difícil de alcançar apenas com o próprio raciocínio.

Muitas comunidades religiosas e instituições católicas mantêm o costume tradicional de invocar o Divino Espírito Santo formalmente antes de reuniões importantes, eleições internas ou assembleias que exigem discernimento coletivo — prática conhecida em latim como “Veni Sancte Spiritus” ou, em contextos mais formais, através da Missa votiva do Espírito Santo, celebrada especificamente antes de concílios, sínodos ou conclaves papais ao longo da história da Igreja. Essa mesma lógica se aplica, em escala menor, à vida pessoal de qualquer fiel: reservar um momento de oração consciente ao Espírito Santo antes de uma decisão importante não é apenas gesto devocional, mas reconhecimento de que a sabedoria puramente humana, por si só, tem limites reais diante da complexidade de certas escolhas de vida.

Antes da leitura orante da Bíblia

Muitos católicos rezam ao Divino Espírito Santo antes de ler as Escrituras, pedindo que Ele ilumine a compreensão do texto e ajude a aplicar seu significado à vida concreta de quem lê, seguindo a tradição da lectio divina — leitura orante da Bíblia praticada há séculos na espiritualidade católica.

A prática da lectio divina, desenvolvida especialmente na tradição monástica beneditina desde os primeiros séculos da vida religiosa cristã, estrutura-se tradicionalmente em quatro momentos: leitura atenta do texto bíblico, meditação sobre seu significado, oração pessoal em resposta ao que foi lido, e contemplação silenciosa diante de Deus. Invocar o Espírito Santo antes de iniciar esse processo reconhece que a compreensão espiritual mais profunda das Escrituras não depende apenas de conhecimento acadêmico sobre línguas bíblicas ou contexto histórico — embora esses elementos sejam também valiosos —, mas de uma abertura interior à ação iluminadora do próprio Espírito que inspirou originalmente os textos sagrados, permitindo que a Palavra de Deus toque o coração de quem lê de forma pessoal e transformadora.

A Novena de Pentecostes

Seguindo o próprio modelo bíblico — os apóstolos permaneceram em oração por nove dias entre a Ascensão e Pentecostes —, muitos fiéis rezam anualmente a Novena do Divino Espírito Santo, nos nove dias que antecedem a solenidade de Pentecostes, pedindo cada um dos sete dons ao longo desse período específico de preparação espiritual.

A Novena de Pentecostes é considerada, por muitos historiadores da liturgia, a novena mais antiga da tradição católica — na verdade, o próprio modelo bíblico dos apóstolos orando por nove dias entre a Ascensão e Pentecostes é a origem histórica direta da própria palavra “novena” e da prática devocional de rezar por nove dias consecutivos, hoje aplicada a inúmeras outras devoções e santos ao longo do calendário católico. Muitas paróquias organizam celebrações especiais durante esses nove dias, culminando na grande festa de Pentecostes, quando é comum que as igrejas sejam decoradas com a cor vermelha litúrgica, simbolizando o fogo do Espírito Santo, e que hinos específicos celebrem a descida do Espírito sobre a Igreja renovada.

No sacramento da Crisma

A oração ao Divino Espírito Santo também acompanha diretamente a preparação para o sacramento da Confirmação (ou Crisma), momento em que a Igreja entende que os dons do Espírito Santo, já recebidos de forma inicial no Batismo, são fortalecidos e selados de modo definitivo na vida do fiel.

Durante o período de catequese preparatória para a Crisma, é comum que candidatos ao sacramento estudem detalhadamente cada um dos sete dons e reflitam sobre como cada um deles pode se manifestar concretamente em sua própria vida pessoal. O rito da Crisma inclui explicitamente a invocação do Espírito Santo pelo bispo, com a imposição de mãos sobre os candidatos e a unção com o Crisma — óleo perfumado consagrado especificamente para esse sacramento —, enquanto o bispo pronuncia a fórmula sacramental “recebe o sinal do dom do Espírito Santo”. Muitos fiéis relatam que a preparação espiritual através da oração ao Divino Espírito Santo, ao longo dos meses ou anos que antecedem a Crisma, ajuda a viver esse sacramento não como mero rito social de passagem, mas como experiência espiritual genuína de fortalecimento na fé.

Em momentos de confusão ou dificuldade de discernimento

Diante de situações confusas, decisões moralmente complexas, ou simplesmente momentos em que a mente parece incapaz de encontrar clareza, recorrer à oração ao Divino Espírito Santo é prática antiga e amplamente recomendada por diretores espirituais ao longo de toda a história da Igreja.

Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, desenvolveu todo um sistema de “discernimento de espíritos” em seus Exercícios Espirituais, baseado fundamentalmente na docilidade à ação do Espírito Santo para distinguir entre inspirações que vêm de Deus e inclinações que vêm de outras fontes menos confiáveis — sejam desejos puramente egoístas, sejam tentações mais sutis disfarçadas de boas intenções. Esse método inaciano de discernimento, ainda amplamente praticado em retiros espirituais católicos ao redor do mundo, começa invariavelmente com oração explícita ao Espírito Santo, pedindo a mesma luz e clareza que a oração tradicional “Vinde, Espírito Santo” invoca há séculos, reconhecendo que o discernimento espiritual maduro não é exercício puramente racional, mas processo que exige abertura ativa e humilde à ação divina.

Perguntas Frequentes

O que é a oração ao Divino Espírito Santo?

É uma oração de invocação dirigida à terceira Pessoa da Santíssima Trindade, pedindo sua luz, seus dons e sua ação na vida do fiel. O texto mais tradicional é: ‘Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor.’

Qual a origem da oração ao Divino Espírito Santo?

Tem origem no evento de Pentecostes, narrado em Atos 2, quando o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos reunidos em Jerusalém, cinquenta dias após a Ressurreição de Jesus, transformando-os em pregadores corajosos da fé cristã.

Quais são os sete dons do Espírito Santo?

São sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus — capacidades espirituais baseadas na profecia de Isaías 11:2-3, recebidas no Batismo e fortalecidas na Crisma.

O Espírito Santo é uma força impessoal?

Não. A doutrina católica afirma que Ele é Pessoa divina plena, da mesma substância e igual dignidade que o Pai e o Filho, completando a Santíssima Trindade professada no Credo.

O que significa ‘Paráclito’?

Vem do grego e significa ‘aquele que é chamado para ajudar’ ou ‘advogado’ — um dos títulos tradicionais atribuídos ao Espírito Santo, ao lado de ‘Consolador’ e ‘Dom de Deus Altíssimo’.

Quando devo rezar ao Divino Espírito Santo?

Muitos fiéis rezam ao Divino Espírito Santo antes de decisões importantes, antes da leitura orante da Bíblia, durante a Novena de Pentecostes, e na preparação para o sacramento da Crisma.

O que é a Novena de Pentecostes?

É a tradição de rezar por nove dias antes da solenidade de Pentecostes, seguindo o modelo bíblico dos apóstolos que permaneceram em oração entre a Ascensão e a descida do Espírito Santo.

O que é o sacramento da Crisma?

É o sacramento em que os dons do Espírito Santo, já recebidos de forma inicial no Batismo, são fortalecidos e selados de modo definitivo na vida do fiel, geralmente acompanhado de preparo específico com orações ao Espírito Santo.

O que significa o dom do ‘temor de Deus’?

Não é medo servil ou pavor, mas reverência profunda diante da santidade e majestade de Deus, motivada pelo amor e não pelo receio de punição.

O Espírito Santo agiu apenas em Pentecostes?

A tradição católica reconhece sua ação em toda a história bíblica, desde a Criação, passando pela concepção de Jesus na Anunciação, até sua ação contínua na vida da Igreja e de cada fiel ao longo dos séculos.

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O Culto do Divino Espírito Santo: Tradição Portuguesa e Brasileira

A devoção ao Divino Espírito Santo ganhou também expressão institucional e comunitária ao longo da história, especialmente através do chamado “Culto do Divino Espírito Santo”, tradição de origem portuguesa com raízes profundas na cultura açoriana e sua diáspora.

Origem medieval do culto: Rainha Santa Isabel

O Culto do Divino Espírito Santo remonta ao início do século XIV em Portugal, tradicionalmente associado à Rainha Santa Isabel de Portugal, que teria introduzido a primeira celebração formal do “Império do Divino Espírito Santo” na região de Alenquer, possivelmente sob influência de espiritualistas franciscanos que fundaram ali o primeiro convento franciscano do país.

Rainha Santa Isabel, canonizada pela própria devoção e vida de caridade que exerceu ao longo de seu reinado, é lembrada também por outras devoções e obras assistenciais, mas sua ligação específica com o culto ao Divino Espírito Santo tornou-se, ao longo dos séculos seguintes, elemento fundamental na disseminação dessa tradição por todo o território português e, posteriormente, por suas colônias ultramarinas, incluindo o próprio Brasil.

A Festa do Divino e as Bodas do Espírito Santo

Dessa tradição nasceu uma festividade popular específica, hoje conhecida amplamente como “Festa do Divino” ou “Festa do Espírito Santo”, celebrada com grande fervor em regiões de forte colonização açoriana, tanto em Portugal quanto no Brasil — especialmente em estados como Santa Catarina e São Paulo, onde imigrantes açorianos se estabeleceram em número significativo ao longo dos séculos XVIII e XIX. A festividade envolve coroação simbólica de um “imperador” ou “imperatriz” do Divino, distribuição de alimentos à comunidade e celebrações que combinam elementos estritamente religiosos com forte dimensão de solidariedade social e comunitária.

Uma tradição que atravessou o Atlântico

A chegada dessa tradição ao Brasil, através da colonização açoriana, criou bolsões de devoção particularmente intensa ao Divino Espírito Santo em determinadas regiões do país, onde a festa se tornou um dos eventos religiosos e culturais mais importantes do calendário local, muitas vezes com celebrações que duram vários dias e envolvem toda a comunidade numa combinação única de fé, tradição e identidade cultural compartilhada há gerações inteiras de famílias descendentes dos primeiros colonizadores açorianos.

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