Novena de São Celestino V — 9 Dias de Oração ao Papa que Renunciou
Há um papa do século XIII que é único na história: o único papa que renunciou voluntariamente ao papado por humildade e por convicção de que não estava à altura do cargo — e que Dante, em seguida, colocou no Inferno por isso. A polêmica em torno de São Celestino V revela a profundidade do paradoxo da sua figura: para uns, foi a renúncia mais corajosa da história papal; para outros, foi o “grande recuso” que abriu as portas ao pontificado de Bonifácio VIII. O Papa Francisco, ao colocar o pálio sobre o túmulo de Celestino V em 2014 logo após a sua eleição, fez um gesto que o mundo entendeu como homenagem ao único papa que, como Francisco, havia sucedido a um papa renunciante.
São Celestino V foi, antes de ser papa, um dos maiores ascetas e reformadores monásticos da Itália medieval: Pietro da Morrone fundou a Ordem dos Celestinos e viveu durante décadas como eremita nos Apeninos, numa santidade que toda a Itália reconhecia. Quando o Conclave de 1294 — bloqueado há dois anos por rivalidades entre as famílias romanas — o elegeu papa com oitenta e quatro anos, Celestino aceitou com relutância e governou durante cinco meses antes de renunciar em dezembro de 1294.
Canonizado por Clemente V em 1313. A sua festa é celebrada em 19 de maio.
Quem Foi São Celestino V

Pietro Angelerio nasceu por volta de 1209 em Isernia, no Molise, filho de família camponesa numerosa. Entrou para os Beneditinos mas depois retirou-se para a vida eremítica nos Apeninos — especialmente no Monte Morrone, perto de Sulmona, que deu o seu nome mais conhecido. A sua fama de santidade atraiu discípulos, e o grupo que se formou em torno dele tornou-se a Ordem dos Celestinos — aprovada pelo Papa Gregório X em 1274.
Em 1292, o Papa Nicolau IV morreu e o Conclave entrou num bloqueio que durou dois anos: as famílias Colonna e Orsini não conseguiam chegar a acordo sobre o candidato. Em julho de 1294, Pietro da Morrone — com oitenta e quatro anos, sem experiência política, vivendo numa cela nos Apeninos — foi eleito papa por aclamação. Resistiu, fugiu, foi encontrado, aceitou. Tomou o nome de Celestino V.
O pontificado durou cinco meses e foi um desastre administrativo: Celestino não entendia a cúria romana, era facilmente manipulado pelos que o rodeavam, e a sua incapacidade de governar a Igreja universal era óbvia para todos. Em dezembro de 1294, com o conselho de Benedetto Gaetani (que se tornaria Bonifácio VIII), Celestino renunciou — o primeiro papa a fazê-lo em circunstâncias normais. Morreu em cativeiro em Ferentino em 19 de maio de 1296 — aprisionado por Bonifácio VIII que temia que fosse usado como papa alternativo. Canonizado em 1313. Festa em 19 de maio.
A Renúncia: Coragem ou Cobardia?
A renúncia de Celestino V dividiu os contemporâneos e divide os historiadores: Dante colocou-o no Inferno (Inf. III, 59-60) como aquele “que fez o grande recuso”; os seus seguidores Celestinos e os franciscanos espirituais veneraram-no como o único papa que havia tido humildade suficiente para reconhecer os seus próprios limites. O Papa Francisco, ao mencionar explicitamente Celestino V várias vezes ao longo do seu pontificado e ao colocar o pálio sobre o seu túmulo em 2014, reabilitou definitivamente a renúncia como acto de fé — não de cobardia.
A perspectiva espiritual mais madura sobre a renúncia de Celestino é provavelmente esta: o maior acto de humildade que um papa pode fazer é reconhecer que não é a pessoa certa para o cargo e ceder o lugar a quem o seja. Esta humildade — que coloca o bem da Igreja acima do prestígio pessoal — é a forma mais radical de serviço.
Como Rezar Esta Novena

- De 10 a 18 de maio — nos nove dias antes da festa de 19 de maio
- Para aprender a humildade que reconhece os próprios limites
- Para os eremitas e contemplativos
- Para os papas, especialmente Francisco
- Para os que enfrentam decisões difíceis de renúncia ou de entrega
- Para a Itália meridional e o Molise
Oração de Abertura (Todos os Dias)
Glorioso São Celestino V, papa que renunciastes ao maior cargo da Igreja porque soubestes que não erades a pessoa certa para ele, intercedei por mim durante estes nove dias de novena. Vós que vivestes décadas em santa pobreza nos Apeninos antes de serdes papa e que vos retirastes do papado com a mesma humildade com que havíeis vivido nos montes, intercedei para que eu aprenda a colocar o bem dos outros acima do prestígio pessoal. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Primeiro Dia — O Eremita dos Apeninos: A Santidade Antes dos Títulos
Meditação: Pietro da Morrone viveu durante décadas como eremita nos Apeninos — numa santidade que toda a Itália reconhecia sem precisar de títulos ou de cargos. Esta santidade pré-papal — que não precisou do papado para ser real e reconhecida — é a prova de que o que fazia de Pietro um santo não era o cargo mas a vida. O papado não criou a santidade de Celestino: revelou os seus limites. E os limites do cargo não apagaram a santidade da vida.
São Celestino V, eremita que toda a Itália reconhecia como santo antes de seres papa, intercedei para que eu construa a santidade que não depende do cargo. Que a qualidade da minha vida interior seja independente do reconhecimento exterior que recebo. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Segundo Dia — A Eleição com Oitenta e Quatro Anos: A Vocação Inesperada
Meditação: Ser eleito papa com oitenta e quatro anos — após décadas de vida eremítica, sem nenhuma experiência de governo da cúria romana — é o tipo de vocação inesperada que a história raramente produz. A providência de Deus, ao usar um eremita octogenário para romper um bloqueio de dois anos no conclave, não estava a escolher o melhor administrador: estava a escolher o homem mais santo disponível, confiando que a santidade seria mais necessária do que a competência administrativa.
São Celestino V, eleito papa com oitenta e quatro anos em circunstâncias que nunca esperavas, intercedei para que eu aceite as vocações inesperadas que Deus traz — mesmo quando cheguei tarde, mesmo quando me sinto inadequado. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Terceiro Dia — Os Cinco Meses: O Serviço que Reconhece os Limites
Meditação: Os cinco meses de pontificado de Celestino V foram de uma incapacidade administrativa que todos reconheciam — incluindo o próprio Celestino. Esta honestidade — a do homem que reconhece em si mesmo a incapacidade que os outros vêem mas que raramente admitem — é uma das formas mais raras e mais necessárias de humildade. O problema da incapacidade não é tê-la: é não a reconhecer.
São Celestino V, que reconhecestes honestamente a vossa incapacidade de governar a Igreja, intercedei para que eu aprenda a reconhecer os meus próprios limites com a mesma honestidade. Que eu não insista em posições para as quais não estou preparado por medo de perder prestígio. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Quarto Dia — A Renúncia: A Humildade mais Difícil
Meditação: Renunciar ao papado em 1294 — quando nenhum papa havia renunciado em circunstâncias normais antes — foi o acto de humildade mais radical que Celestino podia fazer. Não porque o papado não importasse: precisamente porque importava. A Church precisava de um pastor capaz, e Celestino sabia que não era esse pastor. Colocar o bem da Igreja acima do prestígio pessoal é a forma mais pura de serviço que existe.
São Celestino V, que renunciastes ao papado porque o bem da Igreja importava mais do que o vosso prestígio, intercedei para que eu aprenda esta humildade radical: ceder o lugar quando outra pessoa serve melhor do que eu. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Quinto Dia — Dante e o “Grande Recuso”: A Polêmica que Dura
Meditação: Dante colocou Celestino no Inferno pelo “grande recuso” — a renúncia que abriu o caminho a Bonifácio VIII, que Dante odiava. Esta interpretação — que vê a renúncia de Celestino como covardia política que produziu consequências desastrosas — é honesta sobre as consequências históricas mas injusta sobre as motivações. A humildade genuína não garante boas consequências políticas: garante fidelidade à consciência. E a consciência de Celestino dizia-lhe que não era capaz.
São Celestino V, que Dante condenou mas a Igreja canonizou, intercedei para que eu aprenda que a fidelidade à consciência não garante reconhecimento imediato. Que eu faça o que a consciência exige mesmo quando a história pode interpretá-lo mal. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Sexto Dia — O Papa Francisco e Celestino: A Herança Viva
Meditação: O Papa Francisco colocou o pálio sobre o túmulo de Celestino V em 2014, logo após a sua eleição — num gesto que o mundo leu como homenagem ao único papa que havia precedido um outro papa renunciante. Esta continuidade simbólica — entre o eremita do século XIII e o jesuíta do século XXI — é a afirmação de que a renúncia papal pode ser um acto de fé tanto quanto o serviço papal pode ser um acto de fé.
São Celestino V, honrado pelo Papa Francisco em 2014, intercedei pelo Papa Francisco e por todos os que governam a Igreja com a humildade que tu mostraste. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Sétimo Dia — A Ordem dos Celestinos: O Legado Monástico
Meditação: A Ordem dos Celestinos — fundada por Pietro da Morrone e aprovada em 1274 — foi o legado monástico mais duradouro da sua vida. Esta Ordem, que combinava a vida eremítica com a vida comunitária beneditina, sobreviveu durante séculos e ainda hoje tem algumas casas activas. O fundador que se tornou papa e renunciou ao papado deixou uma Ordem que continuou o seu projecto original: a vida contemplativa nos montes de Itália.
São Celestino V, fundador dos Celestinos, intercedei pelas comunidades monásticas e eremíticas de hoje. Pelos que escolhem a vida contemplativa como o serviço mais essencial que podem prestar à Igreja e ao mundo. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oitavo Dia — O Cativeiro: A Humilhação após a Renúncia
Meditação: Depois de renunciar, Celestino tentou regressar à sua cela nos Apeninos — mas Bonifácio VIII mandou prendê-lo, temendo que fosse usado como alternativa ao seu pontificado. Celestino passou os últimos meses de vida em cativeiro no castelo de Fumone em Ferentino. A humilhação após a renúncia — que seria injusta em qualquer circunstância — foi para Celestino a confirmação de que o exílio é a escola definitiva da humildade.
São Celestino V, que morrestes em cativeiro após a renúncia, intercedei pelos que são punidos por terem feito o que era certo. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Nono Dia — Consagração Final
Meditação: São Celestino V viveu cerca de oitenta e seis anos — dos quais a maior parte foram de vida eremítica nos Apeninos, cinco meses foram de papado, e os últimos foram de cativeiro e de morte. Uma vida de santidade real que o cargo mais alto da Igreja não conseguiu apagar, e que a renúncia a esse cargo tornou, paradoxalmente, ainda mais eloquente. A santidade que renunciou ao poder é mais impressionante do que a santidade que nunca o teve.
São Celestino V, ao terminar esta novena de nove dias, eu me comprometo a examinar honestamente onde, na minha vida, o prestígio pessoal está a impedir-me de fazer o que o bem dos outros exige. Intercedei pelas intenções desta novena. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oração de Encerramento (Todos os Dias)
Glorioso São Celestino V, papa que renunciastes ao maior cargo da Igreja por humildade e que morrestes em cativeiro pela fidelidade à consciência, recebei as orações desta novena e intercedei por mim junto ao Senhor Jesus. Obtende para mim a graça de reconhecer honestamente os meus limites, de colocar o bem dos outros acima do meu prestígio, e de aceitar as humilhações que a fidelidade à consciência às vezes produz. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
As 10 Perguntas Mais Frequentes sobre São Celestino V e Esta Novena
1. Quem foi São Celestino V?
São Celestino V (c. 1209-1296), nascido Pietro da Morrone, foi um eremita beneditino e fundador da Ordem dos Celestinos que foi eleito papa em 1294 com oitenta e quatro anos. Governou durante cinco meses antes de renunciar — o primeiro papa a fazê-lo em circunstâncias normais. Canonizado por Clemente V em 1313. Festa em 19 de maio.
2. Quando é a festa de São Celestino V?
A festa de São Celestino V é celebrada em 19 de maio, data da sua morte em 1296. A novena começa em 10 de maio.
3. Por que Celestino V renunciou ao papado?
Celestino renunciou porque reconheceu honestamente que não tinha capacidade de governar a Igreja universal. Vinha de décadas de vida eremítica sem experiência administrativa, não entendia a cúria romana, e era facilmente manipulado pelos que o rodeavam. Renunciou em dezembro de 1294 com o conselho de Benedetto Gaetani, que se tornaria Bonifácio VIII.
4. O que Dante disse sobre Celestino V?
Dante colocou Celestino V no Inferno (Inf. III, 59-60) como aquele “que fez o grande recuso” — a renúncia que abriu o caminho a Bonifácio VIII, que Dante odiava. Esta interpretação vê a renúncia como cobardia política com consequências desastrosas. A Igreja, canonizando Celestino, fez uma avaliação diferente: a humildade que reconhece os limites é virtude, não cobardia.
5. Como o Papa Francisco honrou São Celestino V?
O Papa Francisco colocou o pálio sobre o túmulo de Celestino V em L’Aquila em agosto de 2014, poucos meses após a sua eleição — num gesto amplamente interpretado como homenagem ao único papa que havia precedido um papa renunciante (Bento XVI havia renunciado em fevereiro de 2013). Francisco mencionou Celestino V várias vezes como modelo de humildade papal.
6. O que foi a Ordem dos Celestinos?

A Ordem dos Celestinos foi fundada por Pietro da Morrone e aprovada pelo Papa Gregório X em 1274. Combinava a vida eremítica com a vida comunitária beneditina. Sobreviveu durante séculos e ainda tem algumas casas activas. Foi o legado monástico mais duradouro da vida de Celestino V.
7. Como morreu São Celestino V?
Celestino V morreu em cativeiro no castelo de Fumone em Ferentino em 19 de maio de 1296. Após a renúncia, tentou regressar à sua cela nos Apeninos, mas o Papa Bonifácio VIII mandou prendê-lo, temendo que fosse usado como papa alternativo pelos seus adversários.
8. Quem elegeu Celestino V papa?
O Conclave de 1292-1294 — bloqueado por dois anos pelas rivalidades entre as famílias Colonna e Orsini — elegeu Pietro da Morrone por aclamação em julho de 1294. O bloqueio de dois anos tornava urgente qualquer solução, e a fama de santidade do eremita octogenário foi o factor que desbloqueou o impasse.
9. É possível um papa renunciar?
Sim. O Código de Direito Canónico (can. 332 §2) prevê expressamente a renúncia do Romano Pontífice, exigindo apenas que seja feita livremente e que seja devidamente manifestada. Celestino V foi o primeiro a fazê-lo em 1294; Bento XVI foi o segundo em 2013, após 719 anos. Ambos os casos são juridicamente válidos e teologicamente legítimos.
10. Como rezar a Novena de São Celestino V para obter maiores frutos espirituais?
Para obter mais frutos: examinar honestamente onde o prestígio pessoal impede de fazer o bem dos outros; fazer durante os nove dias um gesto de renúncia voluntária a algo valioso — um título, uma posição, um reconhecimento — em honra de Celestino que renunciou ao papado; rezar especificamente pelo Papa Francisco e pelos seus colaboradores; e terminar cada dia com a pergunta “o que hoje coloquei acima do bem dos outros por medo de perder prestígio?”
Outras Devoções Relacionadas
A devoção a São Celestino V aprofunda-se com outros conteúdos do site. A Novena de São Gregório VII complementa — outro grande papa medieval que morreu no exílio pela fidelidade à consciência. A Novena de São Pio V aprofunda — outro papa canonizado que governou com coragem e fidelidade. O Salmo 131 — “Senhor, o meu coração não é orgulhoso, nem os meus olhos altivos… acalmei e sosseguei a minha alma” — é o salmo de Celestino: a alma que não se exalta pelos títulos nem se perturba quando os perde.





