Novena de São Inácio de Loyola — 9 Dias de Oração ao Fundador dos Jesuítas
Há uma conversão que a história do século XVI nunca esqueceu — a de um soldado basco que, enquanto se recuperava de uma bala de canhão na perna, leu vidas de santos e pensou: “E se eu fizesse o que São Francisco fez? E se eu fizesse o que Santo Domingos fez?” Desta pergunta simples — feita por um homem em convalescença, com pouco mais para ler do que os livros que estavam na casa dos Loyola — nasceu uma das congregações religiosas mais influentes da história da Igreja: a Companhia de Jesus.
São Inácio de Loyola foi o soldado que trocou a espada pela pena, o capitão que aprendeu a governar almas com a mesma disciplina com que havia governado soldados, o homem que escreveu os “Exercícios Espirituais” — um dos textos mais influentes da história espiritual do Ocidente. A sua contribuição não foi apenas a Companhia de Jesus: foi um método, uma pedagogia espiritual, uma forma de discernir e de decidir que ainda hoje alimenta dezenas de milhões de almas em todo o mundo.
São Inácio é o patrono dos retiros espirituais, dos soldados, dos educadores jesuítas e de toda a espiritualidade ignaciana. A sua festa em 31 de julho é celebrada pela Companhia de Jesus em todo o mundo com a solenidade que corresponde ao fundador — e com a alegria que corresponde a alguém que mostrou ao mundo que a maior batalha não se ganha com armas mas com discernimento.
Quem Foi São Inácio de Loyola
Íñigo López de Loyola nasceu em 1491 no Castelo de Loyola, no País Basco, Espanha, o mais novo de treze filhos de uma família nobre. Cresceu numa corte nobre, foi pagem do rei Fernando de Aragão, e tornou-se soldado. Era ambicioso, vaidoso, dado a aventuras amorosas — um homem do seu tempo e do seu estamento.
Em 1521, durante o cerco de Pamplona, uma bala de canhão partiu-lhe a perna direita e feriu a esquerda. Durante a longa convalescença no Castelo de Loyola, não havia romances de cavalaria na casa — apenas uma Vida de Cristo e um livro de hagiografias. Leu os dois. E enquanto lia as vidas dos santos, algo mudou: sentia uma alegria duradoura ao pensar em imitar São Francisco e Santo Domingos — e uma alegria passageira ao pensar nas aventuras mundanas que havia planeado.
Esta descoberta — a diferença entre consolação duradoura e consolação passageira como critério de discernimento — foi o núcleo dos “Exercícios Espirituais” e de toda a espiritualidade ignaciana. Depois da convalescença, foi a Manresa onde passou quase um ano em oração e penitência intensa. Em Manresa escreveu os primeiros esboços dos Exercícios.
Estudou em Barcelona, Alcalá, Salamanca e Paris. Em Paris reuniu ao seu redor um grupo de sete companheiros — incluindo Francisco Xavier — com quem fez votos em Montmartre em 1534. Em 1540, o Papa Paulo III aprovou a Companhia de Jesus. Em 1541, Inácio foi eleito primeiro Geral da Companhia. Governou a Companhia de Roma durante quinze anos, escrevendo as Constituições e a enorme correspondência que a dirigia em todo o mundo. Morreu em 31 de julho de 1556. Canonizado em 1622. A sua festa é celebrada em 31 de julho.
Como Rezar Esta Novena
Faça o sinal da cruz e recite a oração de abertura
Leia a meditação do dia
Apresente a sua intenção específica
Recite a oração do dia
Reze o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Glória ao Pai
Encerre com a oração de encerramento
Oração de Abertura (Todos os Dias)
Glorioso São Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus e mestre do discernimento espiritual, intercedei por mim nesta novena. Vós que convertestes na convalescença e que transformastes a ferida em missão, intercedei para que eu também descubra nos momentos de fraqueza a vocação que Deus esconde nas circunstâncias mais improváveis. Amém.
Primeiro Dia — A Bala de Canhão de Pamplona
Meditação: A bala de canhão que feriu Inácio em Pamplona foi, paradoxalmente, o instrumento da sua conversão. Sem aquela bala, sem aquela convalescença forçada, sem aqueles livros de santos que não eram os romances que queria ler — não haveria Inácio de Loyola, não haveria Companhia de Jesus, não haveria Exercícios Espirituais. Deus usou uma ferida para abrir uma porta. O que nos para involuntariamente pode ser exactamente o que precisamos para começar de verdade.
São Inácio, convertido por uma bala e uma convalescença, intercedei para que eu aprenda a ver as minhas “balas de canhão” como instrumentos de Deus. Que as doenças, os acidentes, as paragens forçadas da minha vida sejam oportunidades de escuta que o ritmo normal não permite. E que eu leia os “livros” que Deus coloca à minha disposição nas forças involuntárias. Amém.
Segundo Dia — As Consolações e as Desolações
Meditação: O núcleo da espiritualidade ignaciana é o discernimento de espíritos: aprender a distinguir o que vem de Deus do que vem de outras fontes, usando como critério a qualidade da consolação. A “consolação duradoura” — a paz que persiste, a alegria que não esvazia — vem de Deus. A “consolação passageira” — o entusiasmo que depressa se esvai — vem de outras fontes. Esta pedagogia do discernimento através dos afectos — que Inácio descobriu na convalescença — é uma das contribuições mais práticas da tradição espiritual cristã.
São Inácio, mestre do discernimento de espíritos, intercedei para que eu aprenda a distinguir a consolação que vem de Deus da que vem do ego ou do mundo. Que eu preste atenção aos movimentos interiores da alegria e da paz duradouras como sinais da vontade de Deus. E que nas decisões importantes eu use o discernimento ignaciano como instrumento. Amém.
Terceiro Dia — Manresa: A Escola da Oração
Meditação: Inácio passou quase um ano em Manresa — numa pequena cidade catalã — em oração intensa, penitências severas, crises espirituais profundas e iluminações místicas extraordinárias. Os “Exercícios Espirituais” nasceram de Manresa: não de uma intuição académica mas de uma experiência vivida, de uma escola de oração que Inácio frequentou antes de a transmitir. Este princípio — dar apenas o que se experimentou — é a garantia da autenticidade dos Exercícios.
São Inácio, formado em Manresa pela experiência directa de Deus, intercedei para que eu também tenha o meu “Manresa” — o tempo e o lugar de oração intensa que forma e transforma. Que eu não transmita o que não experientei. E que a prática dos Exercícios Espirituais seja na minha vida o que foram para vós: uma escola de encontro real com Deus. Amém.
Quarto Dia — “Para a Maior Glória de Deus”
Meditação: O lema da Companhia de Jesus — “Ad Majorem Dei Gloriam” (AMDG), para a maior glória de Deus — não é slogan vazio. É o critério de todas as decisões ignacianas: o que glorifica mais Deus? Esta pergunta — que Inácio aplicava a tudo, das grandes decisões apostólicas às escolhas mais quotidianas — é a forma mais radical de teocentrismão prático. Não “o que me agrada mais?” nem “o que é mais fácil?” mas “o que glorifica mais Deus?”
São Inácio, que vivia pelo AMDG — para a maior glória de Deus, intercedei para que eu também aprenda a usar este critério. Que nas decisões importantes eu pergunte: “O que glorifica mais Deus?” E que esta pergunta reoriente gradualmente todas as minhas escolhas — das pequenas às grandes. Amém.
Quinto Dia — Os Exercícios Espirituais
Meditação: Os “Exercícios Espirituais” de Inácio — o livro mais influente da espiritualidade cristã depois da Bíblia segundo muitos especialistas — não são um tratado teológico. São um manual de oração: um conjunto de meditações, contemplações e discernimentos organizados em quatro “semanas” para conduzir a alma da conversão até a oferta de si mesma a Deus. Milhões de pessoas fizeram os Exercícios nos últimos cinco séculos — e continuam a fazê-los. A pedagogia de Inácio mantém-se actual.
São Inácio, autor dos Exercícios Espirituais, intercedei para que eu possa um dia fazer os Exercícios com um director espiritual qualificado. E intercedei para que os elementos da espiritualidade ignaciana — o discernimento, a oração com os sentidos, a eleição — se tornem ferramentas práticas da minha vida espiritual. Amém.
Sexto Dia — Francisco Xavier e os Companheiros
Meditação: Em Paris, Inácio reuniu à sua volta um grupo de sete companheiros — incluindo Francisco Xavier, o maior missionário da história moderna. Este círculo inicial — que fez votos juntos em Montmartre em 1534 — foi o núcleo da Companhia de Jesus. A capacidade de Inácio de atrair e formar companheiros de missão — de criar não apenas discípulos mas irmãos — foi uma das suas maiores dons. O fundador que sabia rodearse é mais eficaz do que o que trabalha sozinho.
São Inácio, que soubeste reunir companheiros de missão em Paris, intercedei para que eu também encontre — e seja — um companheiro de missão para os que Deus me envia. Que eu não trabalhe apenas sozinho mas saiba criar comunidades de missão. E intercedei pela Companhia de Jesus — que continue a servir a Igreja com o ardor com que Francisco Xavier serviu o Oriente. Amém.
Sétimo Dia — “Contemplativo na Acção”
Meditação: O ideal ignaciano do “contemplativo na acção” — encontrar Deus em todas as coisas, especialmente no trabalho apostólico activo — é a síntese mais original da espiritualidade da Companhia. Não a contemplação que foge da acção nem a acção que esquece a contemplação: a contemplação que se encontra dentro da acção. Este ideal — que Inácio realizou de forma extraordinária, governando a Companhia em crescimento explosivo enquanto mantinha uma vida mística intensa — ainda hoje desafia os cristãos activos a não separar o que Deus uniu.
São Inácio, contemplativo na acção, intercedei para que eu aprenda a encontrar Deus em todas as coisas. Que o trabalho seja oração. Que as relações sejam encontro com Deus no próximo. E que eu nunca use a acção como desculpa para não contemplar nem a contemplação como desculpa para não agir. Amém.
Oitavo Dia — A Obediência ao Papa
Meditação: Um dos votos específicos dos jesuítas — que distingue a Companhia de outras ordens — é o voto especial de obediência ao Papa para as missões: estar disponível para ir onde o Papa enviar, sem condição de território ou de tipo de missão. Esta obediência — que Inácio chamava de obediência “de cadáver” no grau mais alto — não é passividade mas disponibilidade radical: colocar o próprio discernimento ao serviço do discernimento da Igreja. A autonomia do ego completamente subordinada à missão.
São Inácio, que propuseste a obediência radical ao Papa como forma de liberdade apostólica, intercedei para que eu aprenda a obediência que liberta. Que eu entenda que subordinar o meu julgamento ao da Igreja não é perda de identidade mas forma de missão. E que eu sirva onde sou enviado com a disponibilidade que vós ensinastes. Amém.
Nono Dia — Consagração Final
Meditação: Chegamos ao último dia. São Inácio de Loyola morreu em 31 de julho de 1556 em Roma — governando uma Companhia que em dezasseis anos havia crescido de sete companheiros para mais de mil membros em todo o mundo. Morreu sem solenes rituais de despedida — tão simplesmente que os companheiros não perceberam que estava a morrer até já ser tarde. A morte de Inácio foi como a sua vida: sem espectáculo, em plena missão, no silêncio que o “maior glória de Deus” pede.
São Inácio de Loyola, ao terminar esta novena, eu me comprometo a aprender o discernimento ignaciano — a pergunta “o que glorifica mais a Deus?” como critério das minhas decisões. Intercedei pelas intenções desta novena. E que a Companhia de Jesus que fundaste continue a servir a Igreja com o mesmo ardor com que Francisco Xavier serviu o Oriente e com que vós governastes de Roma o mundo inteiro. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oração de Encerramento (Todos os Dias)
Glorioso São Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus e mestre dos Exercícios Espirituais, recebei as orações desta novena. Intercedei por mim e pelas minhas intenções junto ao Senhor Jesus. Que o vosso lema — Ad Majorem Dei Gloriam — seja também o critério da minha vida. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Quando Rezar Esta Novena
De 22 a 30 de julho — nos nove dias antes da festa de 31 de julho
Como preparação para fazer os Exercícios Espirituais
Para aprender o discernimento ignaciano
Pelos Jesuítas e obras da Companhia de Jesus
Em momentos de grande decisão vocacional ou apostólica
Outras Devoções Relacionadas
A devoção a São Inácio se aprofunda com outros conteúdos do site. A Novena de São Francisco Xavier complementa — o mais famoso companheiro de Inácio e o maior missionário da Companhia. A Novena de Santa Teresa de Ávila aprofunda — contemporânea de Inácio, outra grande reformadora da vida espiritual do século XVI. O Salmo 139 — “Senhor, Tu me sondas e me conheces… para onde fugir do Teu Espírito?” — é o salmo do discernimento ignaciano que busca Deus em todas as coisas. E o Salmo 27 — “uma coisa pedi ao Senhor: contemplar a formosura do Senhor” — exprime o contemplativo na acção que Inácio foi e ensinou a ser.