Toda quarta-feira de cinzas, milhões de católicos vão à igreja receber uma cruz de cinza na testa e ouvem a mesma frase que acompanha o gesto há séculos: “Lembra-te que és pó e ao pó voltarás.” É uma frase dura, sem meias palavras, e é exatamente esse tipo de honestidade que marca todo o tempo que se abre a partir dali. A Quaresma não é um período de tristeza performática nem uma dieta espiritual de quarenta dias que a gente cumpre por obrigação e esquece assim que a Páscoa chega. É, na verdade, um dos convites mais sérios e mais generosos que a Igreja faz ao longo do ano: o convite para parar, olhar de frente para a própria vida, e se preparar de verdade para receber a maior notícia que existe — a de que Cristo ressuscitou e a morte não tem a palavra final.
Se você chegou até aqui porque ouviu falar da Quaresma mas nunca entendeu direito o que ela significa, ou porque já a vive há anos mas sente que virou rotina automática — sem nenhum julgamento nisso, é o que acontece com qualquer prática repetida — este texto foi escrito para os dois casos. Vamos por partes: o que é, de onde vem, por que dura exatamente quarenta dias, o que a Igreja pede concretamente durante esse tempo, e como viver isso de um jeito que realmente transforme alguma coisa, e não apenas marque uma data no calendário.
O Que é a Quaresma, em Termos Simples

A Quaresma é o período de quarenta dias que antecede a Páscoa no calendário litúrgico católico, começando na Quarta-feira de Cinzas e terminando na Quinta-feira Santa, momento em que se inicia o Tríduo Pascal. É um tempo de preparação espiritual intensa, marcado por três práticas centrais que a própria tradição bíblica e litúrgica sempre associou: oração, jejum e esmola (ou caridade). Essas três práticas não são escolhas aleatórias — elas respondem, respectivamente, à relação com Deus, à relação consigo mesmo, e à relação com o próximo. É por isso que a Quaresma não é apenas “abrir mão de doce” — embora esse costume popular tenha uma lógica espiritual por trás, que vamos explicar mais adiante.
A palavra “quaresma” vem do latim “quadragesima”, que significa “quadragésimo” — o quadragésimo dia antes da Páscoa. Essa contagem de quarenta dias não é aleatória: ela ecoa diretamente vários “quarenta dias” e “quarenta anos” que aparecem ao longo de toda a Bíblia, sempre associados a períodos de provação, purificação e preparação antes de um encontro decisivo com Deus.
Por Que Exatamente Quarenta Dias? A Origem Bíblica do Número
O número quarenta atravessa a Escritura com uma insistência que não é coincidência. Noé passou quarenta dias e quarenta noites dentro da arca enquanto a chuva purificava a terra (Gênesis 7:12). O povo de Israel caminhou quarenta anos pelo deserto antes de entrar na Terra Prometida — um tempo de formação, de provação e de aprender a confiar em Deus (Números 14:33-34). Moisés passou quarenta dias no Monte Sinai antes de receber os Dez Mandamentos (Êxodo 24:18). O profeta Elias caminhou quarenta dias e quarenta noites até o Monte Horeb depois de fugir de Jezabel, período em que foi sustentado apenas pela força de um alimento que um anjo lhe deu (1 Reis 19:8).
Mas a referência mais direta e mais decisiva para a Quaresma cristã está no Evangelho: logo depois do Seu batismo no rio Jordão, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, onde jejuou quarenta dias e quarenta noites, sendo tentado pelo diabo (Mateus 4:1-11; Marcos 1:12-13; Lucas 4:1-13). Esse episódio é o fundamento mais direto da prática quaresmal: a Igreja convida cada cristão a acompanhar Jesus nesse deserto, vivendo também quarenta dias de jejum, oração e resistência à tentação, antes de celebrar a vitória definitiva da Ressurreição.
Esse padrão bíblico do número quarenta como tempo de purificação e preparação para um encontro maior com Deus é o que dá à Quaresma seu sentido mais profundo: não é um período arbitrário de sacrifício, é a repetição consciente de uma estrutura espiritual que a própria Bíblia já havia estabelecido repetidamente como caminho de transformação.
A Quarta-Feira de Cinzas: Como Tudo Começa

A Quaresma começa sempre numa quarta-feira — a Quarta-feira de Cinzas — quando os fiéis recebem na testa uma cruz feita com cinzas, geralmente provenientes da queima dos ramos bentos do Domingo de Ramos do ano anterior. O gesto é acompanhado de uma de duas frases: “Lembra-te que és pó e ao pó voltarás” (Gênesis 3:19) ou “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Marcos 1:15).
As cinzas, na tradição bíblica, sempre foram sinal de penitência e humildade diante de Deus — lembre-se de Jó, que se cobriu de cinzas ao reconhecer sua pequenez diante da grandeza divina (Jó 42:6), ou dos habitantes de Nínive, que se vestiram de saco e se cobriram de cinzas ao ouvir a pregação de Jonas e se converterem (Jonas 3:5-6). Receber as cinzas não é, portanto, um gesto de tristeza mórbida — é um reconhecimento honesto de que somos limitados, mortais, e de que precisamos de conversão real, não apenas de boas intenções vagas.
A Quarta-feira de Cinzas é dia de jejum e abstinência obrigatórios para os católicos entre 18 e 59 anos (jejum) e acima de 14 anos (abstinência de carne), junto com a Sexta-feira Santa — as duas únicas datas do ano em que essa obrigação específica se aplica de forma universal na Igreja Latina.
As Três Práticas Centrais: Oração, Jejum e Esmola
O Evangelho de Mateus, no capítulo 6, é lido justamente na Quarta-feira de Cinzas, e nele Jesus fala das três práticas que estruturam toda a espiritualidade quaresmal: a esmola (Mt 6:1-4), a oração (Mt 6:5-15) e o jejum (Mt 6:16-18). Em cada uma delas, Jesus faz a mesma advertência: não faça isso para ser visto pelos homens, mas em segredo, diante do Pai que vê o que é oculto.
Oração: Aprofundar a Relação com Deus
A Quaresma convida a uma intensificação real da vida de oração — não necessariamente mais tempo de oração, mas oração mais honesta e mais atenta. Muitas paróquias oferecem, durante esse período, retiros, momentos de adoração eucarística prolongada, celebrações penitenciais e a prática da Via-Sacra, especialmente às sextas-feiras. É também tempo tradicionalmente associado a um exame de consciência mais profundo, muitas vezes preparando o fiel para uma confissão sacramental antes da Páscoa — o que a Igreja chama de “preceito pascal”, a obrigação mínima de confessar-se e comungar pelo menos uma vez por ano, preferencialmente durante o Tempo Pascal.
Um dos recursos mais ricos e menos conhecidos da Quaresma é a Liturgia das Horas — o Ofício Divino que a Igreja reza diariamente e que ganha, neste período, textos e salmos especialmente escolhidos para conduzir o fiel por essa jornada de conversão. Mesmo quem não tem o hábito de rezar o Ofício integral pode se beneficiar de ler as antífonas e orações coletas propostas para cada dia da Quaresma, disponíveis nos missais e em aplicativos católicos de oração.
Outra prática antiga e ainda muito viva, especialmente em países de tradição ibérica e latino-americana, são as Missões Quaresmais — pregações intensivas realizadas por religiosos ou padres visitantes, geralmente concentradas numa semana, com múltiplos encontros diários voltados à conversão e à reconciliação. Muitas paróquias também retomam, neste tempo, a prática de recitar o terço em grupo antes das missas dominicais, e organizam retiros de um dia inteiro, geralmente aos sábados, unindo momentos de silêncio, palestras e confissão.
Vale mencionar ainda a tradição das “estações quaresmais” romanas — a antiquíssima prática, ainda viva em Roma, de visitar uma igreja diferente a cada dia da Quaresma, cada uma associada a uma leitura específica do dia. Embora poucos possam replicar essa peregrinação física, a lógica espiritual por trás dela — dar um lugar concreto e visitável a cada etapa da caminhada quaresmal — pode inspirar qualquer paróquia a organizar pequenos itinerários de oração ao longo dos quarenta dias.
Jejum: Disciplinar o Corpo para Libertar o Espírito
O jejum quaresmal, na sua forma canônica atual, é relativamente moderado: a Igreja pede jejum estrito (uma refeição completa e duas mais leves, sem repetir a refeição principal) na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, e abstinência de carne vermelha em todas as sextas-feiras da Quaresma. Mas a tradição espiritual sempre convidou a algo mais amplo: renunciar voluntariamente a algo que se gosta — doces, redes sociais, entretenimento, bebida alcoólica — como forma concreta de treinar a vontade e lembrar, a cada momento de renúncia, o propósito espiritual mais profundo daquele sacrifício pequeno.
É importante entender que o jejum não tem valor mágico em si mesmo — não é um “pagamento” que se faz a Deus. O valor espiritual do jejum está em como ele nos ensina a depender menos das satisfações imediatas e mais da própria relação com Deus, esvaziando espaço para que outras coisas ocupem o lugar que o hábito abandonado costumava ocupar.
A tradição patrística — os primeiros grandes escritores cristãos, como Santo Agostinho e São João Crisóstomo — insistia que o jejum sem caridade é vazio. São João Crisóstomo escreveu, num dos seus sermões quaresmais mais conhecidos, que de nada adianta jejuar do alimento se ao mesmo tempo continuamos “devorando” o próximo com fofocas, julgamentos ou indiferença. Essa advertência antiga continua atualíssima: é fácil transformar o jejum numa espécie de desafio pessoal de força de vontade — quase um projeto de autoaperfeiçoamento popular, como tantos hoje em dia — esvaziando-o do sentido espiritual que deveria ter.
Também vale diferenciar o jejum eclesial (as regras concretas de abstinência e jejum estrito que a Igreja pede em datas específicas) do jejum espiritual mais amplo que cada pessoa é livre para escolher durante toda a Quaresma: reduzir o tempo de telas, renunciar a reclamar, evitar o consumo excessivo, diminuir o volume de compras não essenciais. Muitas famílias católicas adotam, nas últimas décadas, o costume de reduzir o consumismo especificamente durante a Quaresma como forma de jejum contemporâneo — uma extensão natural do espírito antigo da prática para os desafios da vida atual.
Do ponto de vista simplesmente humano, há também um valor formativo real no jejum: a capacidade de dizer não a um impulso imediato fortalece a vontade para outras áreas da vida, dentro e fora da esfera espiritual. Não é coincidência que tradições de sabedoria tão diferentes — da espiritualidade cristã à psicologia comportamental contemporânea — reconheçam o valor de práticas regulares de renúncia voluntária como forma de fortalecer a capacidade de autogoverno.
Esmola: Abrir as Mãos para o Próximo
A terceira prática, muitas vezes a mais esquecida das três, é a esmola — que não significa apenas dar dinheiro a mendigos, mas qualquer forma concreta de partilha com quem tem menos. Muitas dioceses brasileiras organizam durante a Quaresma a Campanha da Fraternidade, promovida pela CNBB desde 1964, que escolhe um tema social específico a cada ano para mobilizar reflexão e ação concreta das comunidades católicas em torno de uma causa de justiça social.
A lógica espiritual aqui é direta: de que adianta jejuar e orar intensamente se isso não se traduz em mais generosidade concreta com quem sofre ao nosso redor? As três práticas — oração, jejum, esmola — só fazem sentido pleno quando vividas juntas, cada uma sustentando e dando profundidade às outras duas.
A palavra “esmola” vem do grego “eleemosyne”, relacionada a “eleos” — misericórdia. Isso já entrega o sentido mais profundo da prática: não se trata de uma transação fria de caridade obrigatória, mas de um gesto que nasce do reconhecimento de que tudo o que temos é, em última análise, dom de Deus, e que somos chamados a repartir esse dom com quem tem menos.
Além da Campanha da Fraternidade, muitas paróquias organizam durante a Quaresma campanhas específicas de arrecadação de alimentos, agasalhos e recursos para instituições de caridade locais, como asilos, hospitais e abrigos. Algumas famílias adotam a prática de guardar, num cofrinho específico, o valor equivalente ao que gastariam com algo supérfluo do qual abriram mão durante a Quaresma, doando o total acumulado ao final do período — uma forma concreta de unir o jejum e a esmola numa só prática contínua.
Vale lembrar também que a esmola não precisa ser apenas financeira. Doar tempo — visitando um idoso solitário, oferecendo-se para cuidar dos filhos de alguém sobrecarregado, ajudando fisicamente numa mudança ou reforma — é tão legítimo quanto a doação de dinheiro, e muitas vezes exige um sacrifício pessoal ainda maior, porque envolve doar aquilo que não podemos recuperar: o próprio tempo de vida.
As Cores e os Símbolos Litúrgicos da Quaresma
Durante a Quaresma, a cor litúrgica usada pelos sacerdotes e nos paramentos da igreja é o roxo (ou violeta) — cor que simboliza penitência, luto e preparação, a mesma usada no Advento. Há uma exceção: o quarto domingo da Quaresma, chamado Domingo Laetare (“Alegrai-vos”, em latim, pela primeira palavra da antífona de entrada daquela missa), permite o uso do rosa como sinal de que, mesmo em meio à penitência, já se antevê a alegria da Páscoa que se aproxima.
Durante todo o período quaresmal, a Igreja também suprime o canto do Aleluia nas missas — palavra de louvor que só retornará solenemente na Vigília Pascal — e reduz a decoração floral e os ornamentos mais festivos das igrejas, reforçando visualmente o clima de sobriedade e recolhimento.
As Etapas Internas da Quaresma: Do Deserto ao Calvário
A Quaresma não é um bloco uniforme de quarenta dias idênticos — ela tem uma progressão interna, marcada pelos evangelhos lidos em cada domingo, que conduzem o fiel numa espécie de itinerário espiritual crescente:
- Primeiro Domingo: As tentações de Jesus no deserto — o convite a reconhecer as próprias tentações e fragilidades
- Segundo Domingo: A Transfiguração de Jesus no Monte Tabor — um vislumbre da glória que sustenta a caminhada
- Terceiro, Quarto e Quinto Domingos (Ciclo A): A Samaritana, o Cego de Nascença, e a Ressurreição de Lázaro — os grandes relatos de conversão e de vida nova, tradicionalmente usados na preparação dos catecúmenos que serão batizados na Vigília Pascal
- Domingo de Ramos: A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, seguida imediatamente da leitura da Paixão completa — a virada dramática que anuncia a Semana Santa
Vale se deter um pouco mais nos três domingos centrais do Ciclo A — usados também como referência espiritual mesmo nos anos em que a liturgia segue outro ciclo de leituras — porque eles formam uma das sequências mais ricas de todo o ano litúrgico. No encontro com a Samaritana (João 4), Jesus revela que é a água viva que sacia a sede mais profunda do coração humano — e a mulher, ao reconhecê-lo, corre para contar aos outros, tornando-se uma das primeiras missionárias do Evangelho. No relato do Cego de Nascença (João 9), a cura física é apenas o início: o verdadeiro milagre é a jornada de fé do homem, que passa de reconhecer Jesus como “um homem chamado Jesus” a confessar “Eu creio, Senhor”, enquanto os que enxergavam fisicamente permanecem cegos espiritualmente. E na ressurreição de Lázaro (João 11), a Igreja apresenta o último e mais poderoso sinal antes da própria Paixão: Jesus é a ressurreição e a vida, mesmo diante da morte mais definitiva que existe.
Estes três relatos não são escolhidos ao acaso: historicamente, eram usados para instruir os catecúmenos — pessoas que se preparavam para o Batismo na Vigília Pascal — sobre os grandes temas do Batismo: a água que sacia (Samaritana), a luz que ilumina (Cego de Nascença) e a vida nova que vence a morte (Lázaro). Mesmo quem já é batizado há anos pode reviver essas leituras como um convite a redescobrir, a cada Quaresma, o que aconteceu no próprio Batismo.
A Semana Santa: O Ápice da Quaresma
A última semana da Quaresma, chamada Semana Santa, começa no Domingo de Ramos e é o momento de maior intensidade litúrgica de todo o ano. Nela se concentram a Quinta-feira Santa (instituição da Eucaristia e do sacerdócio), a Sexta-feira Santa (Paixão e Morte de Jesus) e o Sábado Santo (dia de silêncio e expectativa, culminando na Vigília Pascal na noite de sábado, que já é tecnicamente o início da própria Páscoa). Esses três dias finais formam o chamado Tríduo Pascal, que embora nasça dentro do calendário da Quaresma, é considerado litúrgica e teologicamente um tempo à parte — o coração de todo o ano litúrgico.
A Quinta-feira Santa tem uma particularidade litúrgica pouco conhecida: pela manhã, em muitas dioceses, celebra-se a Missa Crismal, na qual o bispo consagra os óleos sagrados que serão usados durante todo o ano seguinte (o Crisma, o Óleo dos Catecúmenos e o Óleo dos Enfermos), e os padres da diocese renovam publicamente as promessas sacerdotais feitas na ordenação. Já à noite, celebra-se a Missa da Ceia do Senhor, que inclui o rito do lava-pés — em que o padre lava os pés de fiéis escolhidos, reproduzindo o gesto de Jesus aos apóstolos (João 13) — e termina com a transladação do Santíssimo Sacramento para um altar lateral, onde os fiéis são convidados a adorar em silêncio, relembrando a vigília de Jesus no Getsêmani.
Na Sexta-feira Santa não se celebra Missa em nenhuma igreja do mundo — é o único dia do ano em que isso acontece. Em vez disso, celebra-se a Ação Litúrgica da Paixão do Senhor, que inclui a leitura completa da Paixão segundo João, a Oração Universal solene (com intenções específicas por toda a Igreja e pelo mundo), a adoção da Cruz, e a Comunhão com hóstias consagradas na noite anterior. O Sábado Santo, por sua vez, é dia de silêncio absoluto na liturgia — nenhuma celebração acontece durante o dia, em respeito ao corpo de Cristo que repousa no sepulcro — até a noite, quando se inicia a Vigília Pascal, a mais longa e mais rica celebração do ano litúrgico inteiro, que marca a virada definitiva da Quaresma para a Páscoa.
Como Viver a Quaresma de um Jeito que Realmente Transforme
Um dos maiores riscos da Quaresma é ela se tornar apenas uma lista de proibições cumpridas por hábito, sem nenhuma reflexão real por trás. Algumas sugestões práticas para evitar isso:
- Escolha uma renúncia concreta (alimento, hábito, tempo de tela) e, sempre que sentir vontade dela, transforme esse momento numa oração breve e específica
- Reserve, ao menos uma vez por semana, um tempo mais longo de oração silenciosa ou de leitura bíblica pausada
- Participe da Via-Sacra nas sextas-feiras, mesmo que nunca tenha feito isso antes
- Planeje a confissão sacramental com antecedência, em vez de deixar para a última semana antes da Páscoa
- Escolha uma forma concreta de esmola ou caridade — doação regular, trabalho voluntário, atenção especial a alguém que você sabe que está precisando
- Evite performar a Quaresma nas redes sociais; lembre-se da própria advertência de Jesus sobre fazer essas práticas em segredo
Quaresma Não é Tristeza — É Preparação para a Alegria
Vale terminar com um ponto que às vezes se perde: a Quaresma não existe para produzir tristeza pela tristeza. Ela existe porque a alegria da Páscoa é tão grande, tão real, tão definitiva, que merece ser precedida por um tempo sério de preparação — da mesma forma que qualquer coisa verdadeiramente importante na vida (um casamento, o nascimento de um filho, uma grande conquista) costuma ser precedida por um período de expectativa consciente, não de indiferença. Quem vive bem a Quaresma não chega à Páscoa cansado — chega mais pronto para a alegria que a Ressurreição realmente é.
Há uma imagem usada por vários santos ao longo da história que ajuda a entender essa lógica: a Quaresma é como o silencio antes de uma grande sinfonia, não o fim do concerto. Quem já assistiu a uma apresentação musical de verdade sabe que o momento em que a orquestra afina os instrumentos e a plateia se aquieta não é um tempo perdido — é parte essencial da experiência, o momento em que a expectativa se concentra antes da música realmente começar. Sem esse silêncio preparatório, a música perderia parte do seu impacto.
Da mesma forma, quem atravessa a Quaresma apenas cumprindo obrigações, sem se permitir sentir de verdade o peso da própria fragilidade e a necessidade real de conversão, corre o risco de chegar à Páscoa sem perceber a profundidade daquilo que está sendo celebrado. Por outro lado, quem se permite atravessar esse tempo com honestidade — reconhecendo os próprios erros, renunciando de verdade a algo que pesa, abrindo as mãos para quem precisa — chega ao Domingo de Páscoa com uma capacidade de alegria muito mais profunda do que a simples troca de uma estação do ano litúrgico por outra. A Quaresma, no fundo, é um convite à esperança: reconhecer que somos pó, sim, mas pó que Deus amou o suficiente para se fazer carne, sofrer, morrer e ressuscitar por ele.
As 12 Perguntas Mais Frequentes sobre a Quaresma
1. O que significa a palavra Quaresma?
Vem do latim “quadragesima”, que significa “quadragésimo” (quarenta), referindo-se aos quarenta dias que antecedem a Páscoa no calendário litúrgico católico.
2. Quando começa e termina a Quaresma?
Começa na Quarta-feira de Cinzas e termina na Quinta-feira Santa, momento em que se inicia o Tríduo Pascal. A data muda todo ano, dependendo da data da Páscoa, que por sua vez segue o calendário lunar.
3. Por que a Quaresma dura quarenta dias?
Em referência direta aos quarenta dias que Jesus passou jejuando no deserto antes de iniciar Seu ministério público (Mateus 4:1-11), que por sua vez ecoam outros períodos bíblicos de quarenta dias ou quarenta anos associados a purificação e preparação.
4. Os domingos contam nos quarenta dias da Quaresma?
Tecnicamente não. Se contarmos da Quarta-feira de Cinzas até o Sábado Santo, excluindo os domingos (que são sempre celebrações da Ressurreição, mesmo durante a Quaresma), chegamos exatamente a quarenta dias de penitência.
5. Quais são as regras de jejum e abstinência na Quaresma?
Jejum estrito (uma refeição completa por dia) é obrigatório na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa para católicos entre 18 e 59 anos. Abstinência de carne vermelha é obrigatória nessas mesmas datas e em todas as sextas-feiras da Quaresma, para maiores de 14 anos.
6. Por que a cor litúrgica da Quaresma é roxa?
O roxo simboliza penitência, luto e preparação espiritual, sendo a mesma cor usada no Advento — outro tempo de preparação no calendário litúrgico.
7. O que é o Domingo Laetare?
É o quarto domingo da Quaresma, no qual é permitido o uso da cor rosa nos paramentos litúrgicos, como um sinal antecipado de alegria em meio ao tempo penitencial, lembrando que a Páscoa já está próxima.

8. Por que não se canta o Aleluia durante a Quaresma?
Como sinal de sobriedade e recolhimento espiritual, a Igreja suprime o canto de louvor do Aleluia durante toda a Quaresma, retomando-o solenemente apenas na Vigília Pascal, quando a alegria da Ressurreição é proclamada.
9. O que é a Campanha da Fraternidade?
É uma iniciativa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizada desde 1964, que escolhe um tema social específico a cada ano para mobilizar reflexão e ação concreta das comunidades católicas brasileiras durante a Quaresma.
10. É obrigatório se confessar durante a Quaresma?
Não é obrigatório especificamente durante a Quaresma, mas a Igreja pede que todo católico se confesse e comungue ao menos uma vez por ano (o “preceito pascal”), e a Quaresma é o período tradicionalmente mais indicado para essa preparação, culminando na comunhão pascal.
11. Crianças precisam seguir as regras de jejum e abstinência?
A obrigação de abstinência de carne começa aos 14 anos, e o jejum estrito é obrigatório entre 18 e 59 anos. Crianças menores não têm essa obrigação canônica, mas muitas famílias optam por incluí-las de forma adaptada, como gesto pedagógico.
12. Como explicar a Quaresma para crianças de um jeito simples?
Uma boa forma é explicar que é um tempo especial em que a família toda se prepara junto para a festa mais importante do ano (a Páscoa), fazendo pequenos gestos de carinho extra com os outros, orando um pouco mais, e abrindo mão de algo pequeno que gostam, como treino para aprender a compartilhar e a esperar coisas boas com paciência.
Aprofunde Sua Vivência da Quaresma
Para acompanhar a Paixão de Cristo passo a passo, veja o guia completo da Via-Sacra com as 14 estações. Para entender os três dias mais sagrados do ano, que encerram a Quaresma, veja o guia do Tríduo Pascal. O Salmo 51, o grande salmo penitencial de Davi, é uma das leituras mais associadas à espiritualidade quaresmal.




