Há uma palavra que o Salmo 147 repete três vezes para descrever o ato de louvar a Deus: bom, agradável, digno de louvor. O louvor não é apenas dever religioso — é algo que faz bem, que é esteticamente belo, que corresponde à realidade de quem Deus é. Louvar a Deus é o ato mais natural do ser humano — mais natural do que respirar, porque respirar se faz instintivamente, e louvar exige consciência.
O Salmo 147 é o segundo dos cinco “Aleluias finais” do Saltério (Salmos 146–150). E enquanto o Salmo 146 era o mais ético — focado no cuidado de Deus pelos marginalizados — o Salmo 147 é o mais cosmológico e o mais pastoral. Ele celebra Deus como o que conta as estrelas e as chama pelos nomes, mas também como o que cura os de coração quebrantado e cobre os filhotes de corvo quando gritam. É o Deus do universo que se importa com o menor detalhe de cada criatura.
Na tradição judaica (Septuaginta e Vulgata), o Salmo 147 é na verdade dois salmos — dividido em 147A (versículos 1-11) e 147B (versículos 12-20). A maioria das Bíblias modernas os trata como um só. Juntos, formam o hino mais completo da providência de Deus — sobre Israel, sobre a criação, e sobre a Palavra que Deus envia e que nunca volta vazia.
Salmo 147 — Texto Completo
1 Aleluia! Como é bom cantar louvores ao nosso Deus!
Como é agradável e digno de louvor!
2 O Senhor reedifica Jerusalém
e congrega os dispersos de Israel.
3 Ele sara os de coração quebrantado
e curativa as suas feridas.
4 Ele conta o número das estrelas
e a todas dá nome.
5 Grande é o nosso Senhor e mui poderoso;
o seu entendimento é insondável.
6 O Senhor sustenta os mansos
e abate os ímpios até ao chão.
7 Cantai ao Senhor com ação de graças;
cantai louvores ao nosso Deus com harpa;
8 ele que cobre o céu de nuvens,
que prepara a chuva para a terra,
que faz crescer a erva nos montes;
9 que dá aos animais o seu alimento
e aos filhotes dos corvos quando gritam.
10 Não se deleita no vigor do cavalo,
nem se agrada das coxas do homem.
11 O Senhor se agrada dos que o temem,
dos que esperam na sua misericórdia.
12 Louva ao Senhor, ó Jerusalém;
louva ao teu Deus, ó Sião;
13 porque ele reforçou os ferrolhos das tuas portas
e abençoou os teus filhos dentro de ti.
14 Ele estabelece a paz nas tuas fronteiras
e te farta com a melhor farinha.
15 Ele envia a sua palavra à terra;
a sua palavra corre mui velozmente.
16 Ele dá a neve como lã
e espalha a geada como cinza;
17 ele lança o seu gelo como fragmentos;
quem pode suportar o seu frio?
18 Envia a sua palavra e os derrete;
faz soprar o seu vento, e as águas correm.
19 Manifesta a sua palavra a Jacó,
os seus estatutos e juízos a Israel.
20 Não fez assim a nenhuma outra nação;
nem lhes manifestou os seus juízos.
Aleluia!
— Salmo 147:1-20 (Almeida Revista e Atualizada)
O Deus das Estrelas que Cura Corações Partidos
O Salmo 147 contém uma das justaposições mais extraordinárias de toda a Bíblia — talvez de toda a literatura religiosa da humanidade. Em dois versículos consecutivos (4 e 3), o salmo afirma que o mesmo Deus que conta as estrelas e as chama pelos nomes é o mesmo que sara os de coração quebrantado e cura as suas feridas.
A distância entre essas duas realidades é vertiginosa. O universo observável tem cerca de 200 bilhões de trilhões de estrelas — um número além da capacidade humana de compreender. Deus conta todas elas e tem um nome para cada uma. E esse mesmo Deus se inclina para o coração humano partido pela perda, pela traição, pelo fracasso — e o sara.
A teologia implícita é radical: a grandeza de Deus não é inversamente proporcional ao seu cuidado com o pequeno. O Deus maior é o que tem mais capacidade de cuidar, não menos. A infinidade do poder divino não está em contraste com o cuidado pelos corações partidos — está em proporção direta com ele.
Estrutura do Salmo 147
Versículos 1–6 — A Dupla Grandeza: O louvor é bom (v.1), Deus reedifica Jerusalém e cura corações (v.2-3), conta as estrelas (v.4), é poderoso e insondável (v.5), sustenta os mansos (v.6).
Versículos 7–11 — A Providência Natural: Nuvens, chuva, erva, alimento para os animais e para os filhotes dos corvos. E a afirmação surpreendente: Deus não se deleita na força militar — se agrada dos que temem e esperam nele.
Versículos 12–14 — A Bênção sobre Jerusalém: Paz nas fronteiras, fartura de alimento, filhos abençoados.
Versículos 15–20 — A Palavra de Deus na Criação e na Revelação: A Palavra que governa o tempo (neve, geada, gelo, vento), que derrete e faz correr as águas — e que foi revelada a Israel de forma única entre todas as nações.
Análise Versículo a Versículo
Versículos 1–3 — Louvor Bom, Cidade Reedificada, Coração Curado
“Como é bom cantar louvores ao nosso Deus! Como é agradável e digno de louvor! O Senhor reedifica Jerusalém e congrega os dispersos de Israel. Ele sara os de coração quebrantado e curativa as suas feridas.”
“Como é bom cantar louvores” — o louvor é descrito com três qualidades: tov (bom), naim (agradável) e navah (que convém, que é digno, que é próprio). Esta tríade estabelece que o louvor a Deus não é apenas correto eticamente — é belo esteticamente e apropriado ontologicamente. Corresponde à realidade de quem Deus é e de quem somos diante dele.
“O Senhor reedifica Jerusalém e congrega os dispersos de Israel” — o contexto histórico do salmo provavelmente é o pós-exílio, quando Jerusalém foi reconstruída após a destruição babilônica. O Deus que permite o exílio é o mesmo que reúne os dispersos. A diáspora não é o estado final — a reunião é.
“Ele sara os de coração quebrantado” — shavar lev em hebraico, literalmente “de coração partido ao meio.” O mesmo Deus que congrega a nação dispersa também congrega o coração fragmentado pela dor. A cura é tanto nacional quanto pessoal, tanto histórica quanto íntima.
Versículos 4–6 — Estrelas, Poder Insondável e Cuidado com os Mansos
“Ele conta o número das estrelas e a todas dá nome… Grande é o nosso Senhor e mui poderoso… O Senhor sustenta os mansos e abate os ímpios até ao chão.”
A astronomia moderna estima 200 septilhões de estrelas no universo observável. O Salmo 147 afirma que Deus as conta e as nomeia — não como exercício contábil, mas como expressão de que cada uma está sob seu conhecimento e cuidado. O mesmo ato de nomear que Deus deu a Adão sobre os animais (Gênesis 2:19-20) Deus exerce sobre as estrelas: o nome é expressão de relação, de conhecimento, de responsabilidade.
“O seu entendimento é insondável” (litve’unato ein mispar — literalmente “para o seu entendimento não há número”) — assim como as estrelas são incontáveis para o ser humano, o entendimento de Deus não tem número, não tem limite, não pode ser esgotado pela investigação humana.
“Sustenta os mansos e abate os ímpios” — a mesma inversão do Magnificat, das Bem-Aventuranças, do Salmo 146. O poder que conta estrelas não usa esse poder para esmagar os pequenos — usa-o para sustentá-los.
Versículos 8–11 — A Providência sobre Animais e a Surpresa sobre o Poder
“Que dá aos animais o seu alimento e aos filhotes dos corvos quando gritam… Não se deleita no vigor do cavalo, nem se agrada das coxas do homem. O Senhor se agrada dos que o temem.”
A imagem dos filhotes dos corvos que gritam é uma das mais ternamente específicas de todo o Saltério. O corvo era considerado animal impuro na lei levítica (Levítico 11:15) — e ainda assim Deus ouve seus filhotes quando gritam de fome. Nenhuma criatura está abaixo do cuidado divino, nem mesmo as que os sistemas religiosos humanos excluíam.
Os versículos 10-11 contêm uma afirmação teológica que subverte toda a lógica de poder: Deus não se agrada do cavalo (símbolo da força militar) nem das coxas do homem (símbolo da força atlética). O que agrada a Deus não é poder — é temor reverente e esperança em sua misericórdia. Esta é a teologia da fraqueza que atravessa toda a Bíblia: o que Deus valoriza é diferente do que os sistemas humanos valorizam.
Versículos 15–20 — A Palavra que Governa o Clima e Revela a Deus
“Ele envia a sua palavra à terra; a sua palavra corre mui velozmente… Manifesta a sua palavra a Jacó, os seus estatutos e juízos a Israel. Não fez assim a nenhuma outra nação.”
Os versículos 15-18 descrevem a Palavra de Deus governando os fenômenos meteorológicos — neve, geada, gelo, vento, degelo. A “palavra” de Deus não é apenas linguagem — é poder executivo. Quando Deus envia sua palavra, as coisas acontecem. O mesmo Deus que disse “haja luz” e a luz existiu (Gênesis 1:3) continua enviando palavras que se tornam neve, frio, vento e degelo.
E então, nos versículos 19-20, a Palavra de Deus recebe sua dimensão mais preciosa: é a revelação dada a Israel — os estatutos, os juízos, a Torá. Entre todas as nações, Israel recebeu algo único: Deus se revelou em palavras que podem ser lidas, estudadas, obedecidas, transmitidas. “Não fez assim a nenhuma outra nação” — a particularidade da revelação bíblica é afirmada explicitamente.
Para o cristão, esta Palavra que governa o clima e se revela a Israel encontra sua expressão definitiva em João 1:1: “No princípio era o Verbo.” O mesmo Logos que criou o universo é o que se revelou a Israel e finalmente se encarnou em Cristo.
A Teologia do Salmo 147
1. A grandeza de Deus e seu cuidado com os pequenos são proporcionais, não inversamente proporcionais: Quanto maior Deus é, mais capaz de cuidar do menor detalhe. O Deus que conta 200 septilhões de estrelas é o mesmo que ouve os filhotes dos corvos e sara corações partidos. A infinidade do poder não diminui — amplifica — o cuidado com o particular.
2. Deus se agrada do que os sistemas de poder humanos descartam: Não do cavalo (força militar) nem das coxas do homem (força atlética) — mas dos que temem e esperam na misericórdia. Esta preferência divina é estruturalmente anti-imperialista: o Deus do universo não mede as criaturas pela mesma régua com que os impérios medem os exércitos.
3. A Palavra de Deus age na criação e na história: A mesma Palavra que envia neve e derrete gelo é a que revelou os estatutos a Israel. A continuidade entre criação e revelação é afirmada — não são dois Deuses, não são dois tipos de ação. É o mesmo Deus agindo em dois âmbitos da mesma realidade que criou.
4. O louvor corresponde à realidade: “Como é bom… agradável… digno de louvor” — o louvor não é performance religiosa, é ajustamento à realidade. Diante de um Deus como esse, a resposta correta, bela e própria é o louvor.
O Salmo 147 no Novo Testamento e na Tradição Cristã
João 1:1-14 é o comentário neotestamentário mais profundo ao Salmo 147:15-20. A Palavra que governa o tempo meteorológico, que conta as estrelas, que cura os corações partidos — essa Palavra “se fez carne e habitou entre nós.” A encarnação é o cumprimento do que o Salmo 147 descreve: a Palavra enviada à terra que não apenas corre velozmente, mas vem para ficar.
Santo Agostinho comentou o versículo 4 — as estrelas nomeadas — com sua própria experiência de conversão: “Eu era uma estrela que não sabia seu nome. E Deus sabia. Ele me contou antes que eu me soubesse contar. Isso é o que significa ser conhecido por Deus.”
São Francisco de Assis rezava o Salmo 147 como meditação sobre a providência universal de Deus — o mesmo Deus que alimenta os filhotes dos corvos alimentava os irmãos menores e todos os seres vivos. O “Cântico das Criaturas” de Francisco é uma expansão do espírito do Salmo 147.
Como Viver o Salmo 147 no Cotidiano
1. Como Cura do Coração Partido — Versículo 3
Quando o luto, a traição ou o fracasso partiram o coração — o versículo 3 é a promessa direta: “ele sara os de coração quebrantado e curativa as suas feridas.” Não “talvez sara” nem “pode sarar com tempo” — “sara.” Presente do indicativo. O Salmo 34 complementa: “o Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado.”
2. Como Meditação sobre a Providência — Versículos 8–9
Observar a natureza — a chuva, as ervas, os animais — como manifestação do cuidado de Deus. O salmo propõe uma espiritualidade da atenção: o mesmo Deus que ouve os filhotes dos corvos ouve você. O Salmo 23 aprofunda: “o Senhor é o meu pastor, nada me faltará.”
3. Como Fundamento da Confiança Contra o Poder — Versículos 10–11
“Não se deleita no vigor do cavalo” — quando os poderosos parecem invencíveis e os fracos parecem sem chance, o versículo 10-11 reorienta: a régua de Deus é diferente. Ele se agrada dos que esperam nele, não dos que acumulam poder. Os versículos de confiança em Deus sustentam essa perspectiva.
4. Como Meditação sobre a Palavra de Deus — Versículos 15–19
A Palavra que governa o clima também governa a história e se revelou na Escritura. Antes de ler a Bíblia, orar o versículo 15: “Ele envia a sua palavra à terra; a sua palavra corre mui velozmente.” Pedir que a mesma velocidade e poder da Palavra que desfaz o gelo também desfaça o que está endurecido no próprio coração. Os versículos de esperança complementam essa meditação.
O Salmo 147 na Liturgia Cristã
Na Liturgia das Horas, o Salmo 147 é dividido em duas partes e aparece nas Laudes (oração da manhã) de várias semanas do saltério. Começar o dia celebrando o Deus que conta estrelas e cura corações é uma postura de maravilhamento e confiança que orienta tudo o que segue.
Na tradição judaica, o Salmo 147 é parte do Pesukei DeZimra matinal — junto com os Salmos 145, 146, 148, 149 e 150, forma o coração do serviço matinal diário. Os versículos 19-20 (“manifesta a sua palavra a Jacó… não fez assim a nenhuma outra nação”) são especialmente apreciados como afirmação da singularidade da revelação bíblica.
Oração Baseada no Salmo 147
Como é bom cantar louvores a Ti, Senhor.
Como é agradável e digno.
Não porque sinto disposição para isso agora —
mas porque é a coisa mais verdadeira que posso fazer.
Tu que contas as estrelas e as chamas pelo nome —
conta-me também.
Chama-me pelo meu nome.
Que eu não seja número perdido
no universo que criaste.
Tu que saras os de coração quebrantado —
sara o meu.
As feridas que carrego,
as que nem sei mais que estão lá —
curativas com a mesma certeza
com que preparas a chuva para a terra.
Não Te deleitas no vigor do cavalo.
Obrigado por isso.
Porque eu não tenho vigor de cavalo.
Mas tenho esperança na Tua misericórdia.
E isso é o suficiente para Te agradar.
Envia a Tua palavra à minha vida.
Que ela corra velozmente.
Que derreta o que está congelado.
Que faça correr as águas.
Aleluia.
Frases do Salmo 147 para Compartilhar
“Como é bom cantar louvores ao nosso Deus! Como é agradável e digno de louvor!” — Salmo 147:1
“Ele sara os de coração quebrantado e curativa as suas feridas.” — Salmo 147:3
“Ele conta o número das estrelas e a todas dá nome.” — Salmo 147:4
“Não se deleita no vigor do cavalo… O Senhor se agrada dos que o temem.” — Salmo 147:10-11
“Ele envia a sua palavra à terra; a sua palavra corre mui velozmente.” — Salmo 147:15
“O Deus que conta 200 septilhões de estrelas também conta as suas lágrimas. São o mesmo Deus.”
“Deus não se agrada do poder — se agrada da esperança. É a melhor notícia para os que não têm poder.”
O Salmo 147 e Outros Conteúdos do Site
Salmo 146 — “Louvai ao Senhor, ó Minha Alma” — o Aleluia anterior, par natural do Salmo 147.
Salmo 34 — “O Senhor está Perto dos de Coração Quebrantado” — complemento do versículo 3.
Salmo 23 — “O Senhor é o Meu Pastor” — a providência particular descrita nos versículos 8-9.
Salmo 8 — “Que é o Homem?” — o maravilhamento diante da criação que o Salmo 147 celebra.
Salmo 103 — “Bendize o Senhor, ó Minha Alma” — as bênçãos concretas de Deus, par do Salmo 147.
Versículos de Esperança — para os que esperam na misericórdia de Deus como o versículo 11 descreve.
Contains information related to marketing campaigns of the user. These are shared with Google AdWords / Google Ads when the Google Ads and Google Analytics accounts are linked together.
90 days
__utma
ID used to identify users and sessions
2 years after last activity
__utmt
Used to monitor number of Google Analytics server requests
10 minutes
__utmb
Used to distinguish new sessions and visits. This cookie is set when the GA.js javascript library is loaded and there is no existing __utmb cookie. The cookie is updated every time data is sent to the Google Analytics server.
30 minutes after last activity
__utmc
Used only with old Urchin versions of Google Analytics and not with GA.js. Was used to distinguish between new sessions and visits at the end of a session.
End of session (browser)
__utmz
Contains information about the traffic source or campaign that directed user to the website. The cookie is set when the GA.js javascript is loaded and updated when data is sent to the Google Anaytics server
6 months after last activity
__utmv
Contains custom information set by the web developer via the _setCustomVar method in Google Analytics. This cookie is updated every time new data is sent to the Google Analytics server.
2 years after last activity
__utmx
Used to determine whether a user is included in an A / B or Multivariate test.
18 months
_ga
ID used to identify users
2 years
_gali
Used by Google Analytics to determine which links on a page are being clicked
30 seconds
_ga_
ID used to identify users
2 years
_gid
ID used to identify users for 24 hours after last activity
24 hours
_gat
Used to monitor number of Google Analytics server requests when using Google Tag Manager