Salmo 135 — Texto Completo, Significado e Oração “Louvai o Nome do Senhor”
Há salmos que nascem de uma experiência específica — uma vitória, um lamento, uma crise pessoal. E há salmos que nascem de uma contemplação mais ampla: a história inteira de um povo com seu Deus, condensada em louvor. O Salmo 135 pertence a essa segunda categoria. É um grande panorama — da criação à história, dos céus às profundezas, das nações a Israel — tudo enquadrado por uma única convocação que abre e fecha o poema: Aleluia. Louvai o nome do Senhor.
É um salmo de síntese. Quem o compôs conhecia profundamente o Saltério e o Pentateuco — e os teceu juntos numa nova canção que é, ao mesmo tempo, original e profundamente enraizada na tradição. Há ecos do Salmo 115 na seção sobre os ídolos, do Salmo 136 no louvor pelas obras de Deus na história, do Cântico de Moisés (Deuteronômio 32) na teologia da eleição. O Salmo 135 é a bela consequência de uma tradição que se conhece a si mesma e sabe se celebrar.
Sua posição no Saltério é também significativa: depois dos quinze Cânticos das Subidas (Salmos 120–134) — a grande coleção de peregrinação a Jerusalém — o Salmo 135 inaugura o trecho final do Saltério, que é dominado pelo louvor. Os últimos salmos do livro (135–150) são, em sua maioria, canções de louvor crescente que culminam no Aleluia final do Salmo 150. O Salmo 135 é a abertura desse grande finale.
Salmo 135 — Texto Completo

1 Aleluia! Louvai o nome do Senhor;
louvai-o, servos do Senhor,
2 vós que estais na casa do Senhor,
nos átrios da casa do nosso Deus.
3 Louvai ao Senhor, porque o Senhor é bom;
cantai louvores ao seu nome, porque é agradável.
4 Pois o Senhor escolheu Jacó para si,
Israel como sua propriedade peculiar.
5 Pois eu sei que o Senhor é grande,
e que o nosso Senhor está acima de todos os deuses.
6 O Senhor faz tudo o que quer,
nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos.
7 Ele faz subir as nuvens das extremidades da terra;
faz os relâmpagos para a chuva
e tira o vento dos seus tesouros.
8 Ele feriu os primogênitos do Egito,
tanto dos homens como dos animais.
9 Enviou sinais e maravilhas no meio de ti, ó Egito,
contra o faraó e contra todos os seus servos.
10 Ele feriu muitas nações
e matou reis poderosos:
11 Seom, rei dos amorreus,
e Ogue, rei de Basã,
e todos os reinos de Canaã,
12 e deu a sua terra como herança,
herança para Israel, seu povo.
13 Senhor, o teu nome subsiste para sempre;
Senhor, a tua memória dura de geração em geração.
14 Pois o Senhor julgará o seu povo
e se compadecerá dos seus servos.
15 Os ídolos das nações são prata e ouro,
obra de mãos de homens.
16 Têm boca, mas não falam;
têm olhos, mas não veem;
17 têm ouvidos, mas não ouvem;
nem há fôlego em suas bocas.
18 Semelhantes a eles são os que os fazem,
e todos os que neles confiam.
19 Casa de Israel, bendizei ao Senhor;
casa de Arão, bendizei ao Senhor;
20 casa de Levi, bendizei ao Senhor;
vós que temeis ao Senhor, bendizei ao Senhor.
21 Bendito seja o Senhor desde Sião,
ele que habita em Jerusalém.
Aleluia!— Salmo 135:1-21 (Almeida Revista e Atualizada)
Um Grande Panorama de Louvor
O Salmo 135 funciona como uma galeria de arte espiritual. Cada seção apresenta um “quadro” diferente de Deus — e a contemplação de todos eles juntos produz uma visão completa da grandeza divina que nenhum quadro isolado conseguiria capturar.
O primeiro quadro é a convocação: os servos do Senhor reunidos nos átrios do Templo, chamados ao louvor. O segundo é a eleição: Israel como propriedade peculiar de Deus, testemunho da graça soberana. O terceiro é o poder na criação: nuvens, relâmpagos, vento — o Senhor governa as forças naturais que os povos vizinhos atribuíam a outros deuses. O quarto é a obra na história: o Êxodo e a conquista de Canaã, sinais e maravilhas que mostraram a todos que o Senhor é o Senhor. O quinto é a vaidade dos ídolos: o contraste entre o Deus vivo e os fetiches de prata e ouro que não falam, não veem, não ouvem. E o sexto é a doxologia final: todas as classes de Israel convocadas a benzer ao Senhor desde Sião.
O resultado é um salmo que é simultaneamente simples e profundo — acessível a qualquer fiel, mas denso o suficiente para sustentar anos de meditação.
Estrutura do Salmo 135

Versículos 1–3 — Convocação ao louvor: O duplo Aleluia que enquadra o salmo, a convocação dos servos do Templo, e os motivos iniciais: Deus é bom e agradável.
Versículo 4 — A eleição de Israel: A razão particular do louvor de Israel — a escolha soberana de Deus que fez de Jacó sua propriedade peculiar.
Versículos 5–7 — O poder de Deus na criação: A soberania sobre todos os deuses, confirmada pelo controle das forças naturais — nuvens, relâmpagos, vento.
Versículos 8–12 — As obras de Deus na história: O Êxodo (v.8-9) e a conquista de Canaã (v.10-12) como evidências históricas da grandeza de Deus.
Versículos 13–14 — A permanência do nome e da misericórdia: O nome de Deus é eterno; sua memória atravessa gerações; ele julgará seu povo e se compadecerá dos servos.
Versículos 15–18 — A vaidade dos ídolos: O contraste definitivo entre o Deus vivo e os ídolos mudos, cegos e surdos — e o destino dos que os fazem e confiam neles.
Versículos 19–21 — Doxologia final: Quatro classes de Israel convocadas a benzer ao Senhor, encerrando com a bênção desde Sião e o Aleluia final.
Análise Versículo a Versículo
Versículos 1–3 — “Louvai o Nome do Senhor”
“Aleluia! Louvai o nome do Senhor; louvai-o, servos do Senhor… Louvai ao Senhor, porque o Senhor é bom; cantai louvores ao seu nome, porque é agradável.”
O salmo abre com a exclamação que percorre os últimos salmos do Saltério: Hallelujah — “louvai a Yah”, abreviação de YHWH. É a palavra de louvor mais conhecida de toda a tradição bíblica, e que atravessou intacta para todas as línguas cristãs.
“Louvai o nome do Senhor” — como já vimos no Salmo 134, o “nome” em hebraico bíblico não é apenas uma designação verbal — é a expressão da essência, do caráter e da presença de Deus. Louvar o nome é louvar o próprio Deus em sua totalidade revelada.
Os destinatários são os “servos do Senhor” nos átrios do Templo — os ministros litúrgicos, levitas e sacerdotes, que servem no santuário. Mas a convocação rapidamente se alarga: nos versículos 19-20, toda a “casa de Israel”, a “casa de Arão”, a “casa de Levi” e “os que temem ao Senhor” são incluídos. O louvor começa nos ministros e se expande para abranger toda a comunidade.
Os motivos dados para o louvor nos versículos 2-3 são duplos: Deus é tov (bom — bondade objetiva) e seu nome é naim (agradável, suave — como no Salmo 133: “como é bom e suave”). A bondade de Deus não é apenas moralmente correta — é esteticamente bela, digna de ser cantada por sua qualidade intrínseca.
Versículo 4 — A Eleição de Israel
“Pois o Senhor escolheu Jacó para si, Israel como sua propriedade peculiar.”
A palavra hebraica para “propriedade peculiar” é segullah (סְגֻלָּה) — um tesouro pessoal especial, algo guardado próximo por ser de valor extraordinário. O termo aparece em Deuteronômio 7:6 (onde Deus chama Israel de seu povo “de propriedade especial”) e em Êxodo 19:5 (“sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos”).
Esta eleição não foi baseada em mérito ou em número — Deuteronômio 7:7 é explícito: “O Senhor não se afeiçoou a vós nem vos escolheu por serdes em maior número que todos os povos, pois éreis o menor de todos os povos.” A eleição é puro amor soberano, graça inmerecida, a escolha de Deus que não depende das qualidades do escolhido.
Para o Novo Testamento, essa segullah é estendida à Igreja. Pedro usa o mesmo conceito em 1 Pedro 2:9: “vós, porém, sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus.” O que Israel foi pela aliança do Sinai, a Igreja é pela aliança do sangue de Cristo.
Versículos 5–7 — O Senhor Acima de Todos os Deuses
“Pois eu sei que o Senhor é grande, e que o nosso Senhor está acima de todos os deuses. O Senhor faz tudo o que quer, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos.”
A confissão do versículo 5 — “eu sei que o Senhor é grande” — é pessoal e experiencial. Não é apenas doutrina herdada; é convicção própria, fruto da observação e da experiência da fidelidade divina. E essa grandeza é comparativa: “acima de todos os deuses” (al kol-elohim). Não é que os outros deuses existam e competam com YHWH — é que qualquer reivindicação de divindade feita por outros seres ou forças é completamente eclipsada pela grandeza do Deus de Israel.
O versículo 6 é uma das afirmações mais absolutas de soberania divina do Saltério: “O Senhor faz tudo o que quer, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos.” A quádrupla enumeração — céus, terra, mares, abismos — cobre toda a cosmologia hebraica. Não há esfera da realidade excluída da ação soberana de Deus. Ele não é um deus local, territorial ou especializado — é o Senhor de tudo.
O versículo 7 ilustra essa soberania com fenômenos meteorológicos que os cananeus atribuíam a Baal: nuvens, relâmpagos, chuva e vento. Em Canaã, Baal era o “deus da tempestade”, supostamente responsável pela fertilidade que a chuva trazia. O Salmo 135 afirma sem hesitação: são os tesouros do Senhor, não de Baal. É YHWH quem faz subir as nuvens e tira o vento de seus tesouros. O confronto teológico com o paganismo é direto e explícito.
Versículos 8–12 — As Obras de Deus na História
“Ele feriu os primogênitos do Egito… Enviou sinais e maravilhas… Ele feriu muitas nações e matou reis poderosos…”
Esta seção é uma passagem rápida pelos eventos fundantes da história de Israel: as pragas do Egito (v.8-9), a travessia do deserto e a derrota de Seom e Ogue (v.11), e a conquista de Canaã com a distribuição da terra (v.12). São os eventos que o Credo de Israel sempre recitava — o Êxodo como obra fundante da identidade nacional.
A “décima praga” — a morte dos primogênitos do Egito — é mencionada como paradigma de todas as obras de Deus na história: intervenções decisivas, que mudam o curso dos eventos, que libertam os oprimidos e julgam os opressores. Para o cristão, a Páscoa de Cristo é o Êxodo definitivo — a libertação suprema que todas as libertações anteriores prefiguravam.
Os reis “Seom, rei dos amorreus, e Ogue, rei de Basã” (v.11) são figuras que aparecem repetidamente no Saltério (cf. Salmo 136:19-20) como exemplos dos adversários poderosos que YHWH derrotou. Eram reis que representavam potências militares consideradas invencíveis — e foram derrotados não pela força de Israel, mas pela soberania de Deus.
Versículos 13–14 — O Nome Eterno e a Misericórdia
“Senhor, o teu nome subsiste para sempre; Senhor, a tua memória dura de geração em geração. Pois o Senhor julgará o seu povo e se compadecerá dos seus servos.”
O versículo 13 é uma aclamação de eternidade: o nome de Deus não é apenas grande — é permanente. Le’olam (לְעֹלָם) — para sempre, para a eternidade. Enquanto os ídolos são feitos por mãos humanas e têm a fragilidade do material (podem ser fundidos, quebrados, destruídos), o nome do Senhor dura para sempre.
A “memória” de Deus (zikrekha — seu memorial, seu registro) de geração em geração remete à instrução de Êxodo 3:15, onde Deus revela seu nome a Moisés e diz: “Este é o meu nome para sempre; este o meu memorial de geração em geração.” O Salmo 135 está citando essa revelação original — o Deus que se revelou a Moisés na sarça ardente é o mesmo que os adoradores no Templo louvam séculos depois.
O versículo 14 contém uma promessa bidirecional: Deus julgará seu povo (proteção contra os inimigos externos) e se compadecerá dos seus servos (misericórdia interna). O julgamento e a misericórdia não são opostos — são dois aspectos do mesmo amor fiel de Deus pelo seu povo.
Versículos 15–18 — A Vaidade dos Ídolos
“Os ídolos das nações são prata e ouro, obra de mãos de homens. Têm boca, mas não falam; têm olhos, mas não veem… Semelhantes a eles são os que os fazem, e todos os que neles confiam.”
Esta é a seção mais famosa e mais citada do Salmo 135 — e uma das críticas mais penetrantes à idolatria de toda a Bíblia. O argumento é simples mas demolidor: os ídolos são feitos pelo ser humano. Uma coisa feita pela criatura não pode ser superior à criatura que a fez. O artesão que esculpe um ídolo é mais do que o ídolo — tem vida, voz, visão, audição. O ídolo não tem nada disso.
A ironia do texto hebraico é afiada: “têm boca, mas não falam” — e o que é uma boca que não fala? Uma abertura sem propósito. “Têm olhos, mas não veem” — e o que são olhos que não veem? Pedaços de pedra incrustados. Cada atributo listado é imediatamente anulado pela negação que o segue. O ídolo é definido pelo que não consegue fazer — é a acumulação do impossível.
A conclusão do versículo 18 é teologicamente profunda: “semelhantes a eles são os que os fazem, e todos os que neles confiam.” O idólatra torna-se como seu ídolo. Esta é a lógica da transformação espiritual: nos tornamos semelhantes ao que adoramos. Se adoramos o vivo, nos tornamos mais vivos. Se adoramos o morto, nos tornamos mais mortos. Se confio num ídolo surdo, minhinha capacidade de ouvir Deus vai sendo atrofiada.
A aplicação contemporânea é evidente. Os ídolos da modernidade não são estátuas de ouro — são sistemas de poder, ideologias, riqueza, sucesso, reconhecimento social. O que o salmo diz sobre eles é o mesmo: são obra de mãos de homens, não têm vida própria, e quem confia exclusivamente neles vai se tornando como eles — incapaz de ouvir, ver ou falar a linguagem de Deus.
Versículos 19–21 — A Doxologia Final
“Casa de Israel, bendizei ao Senhor; casa de Arão, bendizei ao Senhor; casa de Levi, bendizei ao Senhor; vós que temeis ao Senhor, bendizei ao Senhor. Bendito seja o Senhor desde Sião, ele que habita em Jerusalém. Aleluia!”
O encerramento do Salmo 135 é uma doxologia em quatro movimentos — quatro grupos sendo convocados ao louvor. “Casa de Israel” (o povo em geral), “casa de Arão” (os sacerdotes), “casa de Levi” (os levitas que servem no Templo), e “vós que temeis ao Senhor” (os prosélitos, os gentios que se converteram ao Deus de Israel). A progressão é do particular ao universal: de Israel aos que, de qualquer nação, temem o Senhor.
A bênção final — “Bendito seja o Senhor desde Sião, ele que habita em Jerusalém” — é a contrapartida da convocação inicial. O salmo começou com os servos nos átrios do Templo sendo convocados ao louvor; termina com o louvor reverberando de volta sobre o Senhor que habita em Sião. É um círculo de bênção: os adoradores benzem a Deus, e Deus, que habita em Sião, é o centro de onde toda bênção emana.
E então o Aleluia final. O salmo que começou com Aleluia termina com Aleluia. A moldura é o louvor — e o que está dentro dela é a razão do louvor: Deus age na criação, na história, na eleição de Israel, e em contraste com os ídolos que não agem. O Aleluia é a resposta correta a tudo isso.
A Teologia do Salmo 135
1. O louvor tem motivos concretos: O Salmo 135 não convoca ao louvor genérico — lista motivos específicos. Deus é bom (v.3). Ele escolheu Israel (v.4). Ele é soberano sobre toda a criação (v.5-7). Ele agiu na história (v.8-12). Seu nome é eterno (v.13). Esses motivos não são retórica vazia — são afirmações teológicas que sustentam o louvor com conteúdo real. O louvor cristão maduro também conhece seus motivos — não é apenas emoção, mas resposta a realidades reveladas.
2. A soberania de Deus é total e sem exceção: “O Senhor faz tudo o que quer, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos.” Não há esfera da realidade excluída. Não há domínio onde outros poderes sejam superiores a Deus. Esta afirmação desafia qualquer dualismo — a ideia de que Deus e o mal são forças equivalentes em combate eterno. O Saltério é monoteísta radical: há um Deus, e Ele faz o que quer.
3. Idolatria é autodestruição: “Semelhantes a eles são os que os fazem.” A crítica dos ídolos não é apenas teológica — é antropológica. O que você adora te forma. A escolha do objeto de adoração é a escolha do tipo de pessoa que você vai se tornando. Esta é a razão pela qual o primeiro mandamento (não terás outros deuses) é o fundamento de todos os outros — porque é o mandamento que determina quem você será.
4. O louvor é comunitário e inclusivo: A convocação final abrange Israel, os sacerdotes, os levitas e “os que temem ao Senhor” — categoria que inclui gentios convertidos. O louvor ao Deus de Israel nunca foi exclusivo — sempre teve a abertura para quem, de qualquer nação, escolhesse temer o Senhor. O Salmo 135 antecipa a visão universal do Novo Testamento: adoradores “de toda tribo, língua, povo e nação” (Ap 5:9).
O Salmo 135 no Novo Testamento e na Tradição Cristã
O Salmo 135 não é citado literalmente no Novo Testamento, mas seu vocabulário e seus temas estão profundamente absorvidos. A crítica aos ídolos dos versículos 15-18 é ecoada por Paulo em 1 Coríntios 12:2 (“quando éreis gentios, vos deixáveis arrastar aos ídolos mudos”). A categoria segullah (propriedade peculiar) é usada por Pedro (1 Pedro 2:9) para descrever a Igreja. E a soberania absoluta de Deus do versículo 6 ressoa em Efésios 1:11 (“aquele que opera todas as coisas conforme o propósito da sua vontade”).
Orígenes de Alexandria comentou o Salmo 135 como uma “suma teológica em forma de louvor” — observando que os três grandes atributos de Deus afirmados no salmo (bondade, soberania e fidelidade histórica) correspondem à estrutura trinitária da revelação cristã: o Pai criador, o Filho redentor (as obras históricas), e o Espírito que habita em Sião.
Santo Agostinho viu na seção sobre os ídolos (v.15-18) a crítica mais precisa à cultura romana pagã que ele havia abandonado: “Eu mesmo fiz meus ídolos com minhas mãos. Os amores desordenados, os prazeres, a glória que busquei — eram ídolos de prata e ouro: brilhantes, mas mudos. Não me podiam responder. Não me podiam ouvir. E eu me tornava como eles.”
Como Viver o Salmo 135 no Cotidiano
1. Como Abertura de Oração — Versículos 1–3
Antes de qualquer pedido, antes de qualquer lamentação, antes de qualquer necessidade — os versículos 1-3 orientam o coração: “Deus é bom. Seu nome é agradável. Louvai.” Esta postura de louvor prévio transforma toda a oração subsequente. Combine com a Oração da Manhã para iniciar cada dia com essa orientação de louvor.
2. Como Meditação sobre a Eleição — Versículo 4
Contemplar que Deus te escolheu como sua segullah — seu tesouro pessoal — não por mérito, mas por amor soberano. Esta meditação cura o complexo de inferioridade espiritual (“não sou bom o suficiente para Deus me amar”) e o complexo de superioridade religiosa (“Deus me escolheu porque sou melhor”). Você é escolhido por graça. Os versículos sobre o amor de Deus aprofundam essa meditação.
3. Como Exame de Consciência sobre Idolatria — Versículos 15–18
Perguntar honestamente: o que ocupa o lugar central na minha vida além de Deus? Trabalho, dinheiro, opinião alheia, saúde, sucesso? O Salmo 135 não pede que essas coisas sejam destruídas — pede que não ocupem o lugar de Deus. O Salmo 115 aprofunda essa reflexão com a mesma crítica à idolatria.
4. Como Celebração das Obras de Deus na Própria História — Versículos 8–12
Assim como o salmo recorda o Êxodo e a conquista, fazer um “Êxodo pessoal” — listar as obras de Deus na própria história: as libertações, as proteções, os momentos em que Deus agiu de forma inesperada e decisiva. O Salmo 103 é o par natural para essa celebração da fidelidade histórica de Deus.
O Salmo 135 na Liturgia Cristã
Na Liturgia das Horas, o Salmo 135 aparece nas Laudes (oração da manhã) de algumas semanas do saltério. Começar o dia com a convocação ao louvor e a contemplação da soberania de Deus sobre toda a criação é um ato de orientação teológica — o dia não começa com a agenda do orante, mas com o reconhecimento de quem está no centro de tudo.
Na tradição judaica, o Salmo 135 faz parte do Hallel Hagadol — o Grande Hallel — cantado em festividades maiores. Sua posição após os Cânticos das Subidas e antes do Salmo 136 o coloca no coração da liturgia festiva de Israel.
Na tradição litúrgica cristã das Vigílias Pascais, o Salmo 135 é frequentemente cantado como meditação sobre as obras de Deus na história da salvação — o Êxodo que o salmo celebra é relido como prefiguração do Êxodo definitivo de Cristo, que libertou a humanidade da escravidão do pecado e da morte.
Oração Baseada no Salmo 135
Senhor,
o Teu nome é bom.
O Teu nome é agradável.
Antes de qualquer pedido,
antes de qualquer necessidade,
quero começar aqui — no louvor.
Tu és grande acima de tudo
que esta cultura chama de grande.
Acima dos poderes econômicos,
das ideologias que prometem salvar,
dos sistemas que se apresentam como inevitáveis.
Tu fazes o que queres
nos céus e na terra
e em todos os abismos.
E me escolheste —
não porque sou maior,
nem porque sou melhor,
mas porque és amor soberano
que escolhe sem merecer.
Sou Tua segullah.
Teu tesouro pessoal.
Isso me basta.
Livra-me dos meus ídolos —
os brilhantes e mudos,
os que têm boca mas não respondem,
os que têm aparência mas nenhuma vida real.
Que eu não me torne semelhante ao que não fala.
Que eu seja semelhante a Ti,
que falas, que ouves, que vês, que ages.
Aleluia.
Louvado seja o Teu nome — para sempre.
Amém.
Frases do Salmo 135 para Compartilhar
- “Louvai o nome do Senhor; louvai-o, servos do Senhor.” — Salmo 135:1
- “O Senhor faz tudo o que quer, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos.” — Salmo 135:6
- “O Senhor escolheu Jacó para si, Israel como sua propriedade peculiar.” — Salmo 135:4
- “Semelhantes a eles são os que os fazem, e todos os que neles confiam.” — Salmo 135:18
- “Senhor, o Teu nome subsiste para sempre; a Tua memória dura de geração em geração.” — Salmo 135:13
- “Nos tornamos semelhantes ao que adoramos. Escolha bem o seu Deus.”
- “Os ídolos têm boca mas não falam, olhos mas não veem. O Senhor vê, ouve e responde.”
- “Aleluia — a palavra que começa e termina o salmo. E que deve enquadrar cada dia.”
O Salmo 135 e Outros Conteúdos do Site
- Salmo 115 — “Não a Nós, Senhor, Mas ao Teu Nome” — a crítica dos ídolos em paralelo com o Salmo 135.
- Salmo 103 — “Bendize o Senhor, ó Minha Alma” — celebração das obras de Deus na história pessoal.
- Salmo 134 — o Cântico das Subidas anterior, que antecede o Salmo 135 no Saltério.
- Salmo 150 — o grande Aleluia final do Saltério, para o qual o Salmo 135 aponta.
- Salmo 100 — “Júbilo ao Senhor” — louvor exuberante que partilha o espírito do Salmo 135.
- Versículos sobre o Amor de Deus — a bondade de Deus celebrada no versículo 3 do Salmo 135.




