Poucas santas do catolicismo popular carregam história tão fascinante — e tão controversa — quanto Santa Filomena. Descoberta como esqueleto em 1802, nas catacumbas de Priscila, em Roma, com símbolos que sugeriam martírio, ela se tornaria, ao longo do século XIX, uma das devoções mais populares de toda a Europa católica, impulsionada especialmente pelo testemunho de São João Maria Vianney, o Cura d’Ars.
Mas a história de Santa Filomena também é marcada por reviravoltas: em 1961, a Santa Sé retirou sua festa do calendário litúrgico, diante de dúvidas históricas sobre a identificação exata do túmulo. Vale conhecer essa história completa, com honestidade sobre o que se sabe e o que permanece incerto.
Neste texto você vai encontrar o texto completo da oração a Santa Filomena, a história de sua descoberta e da devoção do Cura d’Ars, a controvérsia sobre sua identidade histórica, e como recorrer a essa devoção com fé equilibrada.
Oração a Santa Filomena para Alcançar uma Graça
Esta é uma das versões mais rezadas da oração a Santa Filomena, para alcançar uma graça específica:
“Ó gloriosa Santa Filomena, virgem e mártir, que preferistes sofrer torturas terríveis e a própria morte a trair vossa fé e vossa consagração a Jesus Cristo, alcançai para mim, junto a Deus, a graça de permanecer sempre fiel em minha própria fé, mesmo diante das dificuldades da vida. Vós que sois chamada ‘a taumaturga do século XIX’ pelos inúmeros milagres atribuídos à vossa intercessão, peço-vos que intercedais por mim nesta necessidade específica: (mencione seu pedido). Alcançai-me também a graça da perseverança na fé e da confiança total na providência de Deus. Santa Filomena, rogai por nós. Amém.”
Muitos devotos também rezam uma novena de treze dias em sua honra, seguindo a tradição consolidada especialmente por São João Maria Vianney, o Cura d’Ars, no século XIX.
A Descoberta do Túmulo e a Tradição sobre sua Vida

A devoção a Santa Filomena tem origem numa descoberta arqueológica específica, ocorrida no início do século XIX em Roma.
A descoberta nas catacumbas de Priscila
Em 24 ou 25 de maio de 1802, escavações nas catacumbas de Priscila, em Roma, revelaram um túmulo contendo os restos de uma jovem, junto com objetos simbólicos específicos: uma âncora, uma palma (tradicionalmente associada ao martírio), uma flecha, e um vaso de vidro com resíduo interpretado como sangue seco — elementos que os arqueólogos da época associaram a um martírio cristão dos primeiros séculos.
As catacumbas de Priscila, localizadas na Via Salária, em Roma, constituem um dos maiores e mais importantes complexos catacumbários da capital italiana, utilizado para sepultamentos cristãos entre os séculos II e IV, período de intensa perseguição ao cristianismo no Império Romano. A escavação que revelou o túmulo específico associado a Santa Filomena fazia parte de um esforço mais amplo de exploração arqueológica dessas catacumbas, que continuariam sendo estudadas e escavadas ao longo de todo o século XIX, revelando gradualmente a extensão e a riqueza histórica desse importante local de sepultamento cristão primitivo, que abriga também os restos de diversos outros mártires e fiéis dos primeiros séculos da Igreja.
A inscrição e o nome “Filomena”
Junto ao túmulo, uma inscrição em placas de terracota trazia palavras fragmentadas que, reconstituídas, formavam a frase “Paz seja contigo, Filomena” — nome que passou a identificar a jovem mártir cuja identidade específica, além desse nome, permanecia praticamente desconhecida.
As placas originais estavam fragmentadas e fora de ordem quando descobertas, exigindo reconstituição cuidadosa por parte dos arqueólogos responsáveis pela escavação — processo que, décadas depois, seria justamente um dos pontos centrais da controvérsia histórica sobre a autenticidade da associação entre essas placas específicas e o corpo encontrado no mesmo local. O próprio nome “Filomena”, de origem grega, significa aproximadamente “amiga da luz” ou “amada”, interpretação que reforçaria, segundo a tradição devocional posterior, o próprio significado espiritual atribuído a essa jovem mártir como alguém que preferiu a luz da fé cristã às trevas da idolatria pagã de sua época, mesmo diante do custo extremo dessa escolha pessoal.
A tradição sobre sua vida, transmitida por revelação
A narrativa mais difundida sobre a vida de Filomena não vem de documentos históricos contemporâneos ao seu suposto martírio, mas de relatos posteriores, incluindo revelações privadas atribuídas a uma religiosa napolitana no início do século XIX: segundo essa tradição, ela teria sido uma jovem princesa grega do século IV, que, após se recusar a casar com o imperador romano Diocleciano por ter consagrado sua virgindade a Cristo, foi submetida a diversas torturas antes de ser finalmente decapitada.
Essa narrativa específica, transmitida através da religiosa conhecida como Irmã Maria Luísa de Jesus, que afirmava ter recebido a história diretamente da própria santa em experiências místicas pessoais, tornou-se a versão mais amplamente difundida e mais repetida ao longo dos séculos seguintes, apesar de sua origem depender inteiramente de revelação privada, não de documentação histórica contemporânea aos eventos narrados. Vale reconhecer com honestidade essa mesma limitação de fontes que caracteriza diversas outras narrativas hagiográficas de santos dos primeiros séculos do cristianismo, cuja memória foi preservada principalmente através de tradição oral e devocional, muito antes de qualquer padrão moderno de verificação histórica documental ter sido desenvolvido.
A translação das relíquias para Mugnano
Em 1805, o padre Francisco de Lucia, atendido em sua própria cura atribuída à intercessão da jovem mártir, obteve permissão para transladar as relíquias para a igreja de Mugnano del Cardinale, pequena cidade próxima a Nápoles, onde permanecem até os dias de hoje, atraindo peregrinos de diferentes países.
Segundo o relato tradicional sobre esse episódio, o padre Francisco de Lucia visitou Roma gravemente enfermo, e ao conhecer a descoberta recente daquele túmulo específico nas catacumbas de Priscila, teria feito voto de transladar as relíquias para sua própria paróquia, em Mugnano, caso obtivesse a cura desejada. Recuperando-se de forma que considerou milagrosa, ele cumpriu sua promessa, obtendo do Papa Pio VII a autorização necessária para a translação das relíquias — processo que envolveu longa viagem por terra desde Roma até a região próxima de Nápoles, onde a chegada das relíquias foi recebida com grande fervor popular pela comunidade local, dando início imediato ao culto que se espalharia rapidamente pela região nas décadas seguintes.
A Devoção do Cura d’Ars e a Expansão no Século XIX

Foi através de um dos santos mais venerados da França que a devoção a Santa Filomena se espalhou amplamente por toda a Europa católica do século XIX.
São João Maria Vianney e a “princesinha do Paraíso”
São João Maria Vianney, o Cura d’Ars — pároco de uma pequena vila francesa que se tornaria destino de peregrinação de milhares de fiéis buscando sua orientação espiritual — nutriu devoção intensa e pessoal por Santa Filomena, referindo-se a ela como “a princesinha do Paraíso” e construindo um santuário específico em sua honra na própria paróquia de Ars.
Vianney, reconhecido pela Igreja como padroeiro dos párocos e conhecido por sua extraordinária dedicação ao confessionário — passando, em determinados períodos, mais de dezesseis horas diárias ouvindo confissões de fiéis vindos de toda a França —, encontrou em Santa Filomena uma devoção pessoal profunda que ele associava diretamente à graça e à proteção espiritual que sentia necessitar para sustentar seu próprio e exigente ministério pastoral. A capela dedicada a ela em Ars tornou-se, ao longo dos anos seguintes, parte importante do próprio itinerário de peregrinação que milhares de fiéis realizavam ao visitar aquela pequena vila francesa em busca de aconselhamento espiritual do santo pároco, unindo assim, na experiência concreta desses peregrinos, a devoção ao próprio Cura d’Ars e a devoção que ele mesmo cultivava por essa jovem mártir.
Milagres atribuídos à intercessão de Filomena
O Cura d’Ars atribuía diversos milagres e favores recebidos à intercessão específica de Santa Filomena, embora com sua característica humildade insistisse que era ela, e não ele mesmo, quem realizava esses prodígios. Um dos milagres mais divulgados associados a essa devoção foi a cura de Paulina Jaricot, fundadora da Obra da Propagação da Fé, que teria sido curada de doença cardíaca grave após visitar o santuário de Mugnano.
A cura de Paulina Jaricot, ocorrida em 1835 durante uma peregrinação pessoal ao santuário italiano, tornou-se um dos casos mais documentados e mais amplamente divulgados de toda a tradição de milagres associados a Santa Filomena, contribuindo significativamente para consolidar sua fama internacional muito além da região específica onde suas relíquias estavam preservadas. Jaricot, já reconhecida por sua obra missionária de grande alcance dentro da Igreja Católica de sua época, relatou publicamente essa cura considerada inexplicável pelos médicos que a acompanhavam, e seu testemunho específico ajudou a atrair ainda mais atenção internacional para essa devoção que já crescia rapidamente através da influência do próprio Cura d’Ars na França.
Reconhecimento papal ao longo do século XIX
Diversos papas do século XIX reconheceram formalmente e incentivaram essa devoção crescente: o Papa Gregório XVI autorizou sua veneração pública e a proclamou padroeira do Rosário Vivo, e o Papa Pio IX — que atribuiu à intercessão de Filomena sua própria cura de uma enfermidade quando ainda era arcebispo — nomeou-a padroeira das Filhas de Maria em 1849.
Antes desses reconhecimentos, o Papa Leão XII já havia concedido permissão para a construção de altares e igrejas em sua honra, respondendo à crescente demanda popular por essa devoção específica que se espalhava rapidamente pela Itália e outras regiões católicas europeias. Esse padrão de reconhecimento papal sucessivo e crescente ao longo de praticamente todo o século XIX — de Leão XII a Pio IX, passando por Gregório XVI — ilustra como a devoção a Santa Filomena não foi fenômeno popular isolado ou marginal, mas contou com validação formal repetida e consistente por parte da própria hierarquia máxima da Igreja Católica daquele período histórico específico, antes das dúvidas históricas mais sérias emergirem décadas depois.
A Controvérsia Histórica: O Que Se Sabe e o Que Foi Suprimido em 1961

Vale conhecer, com a mesma honestidade histórica que caracteriza qualquer devoção séria, a controvérsia que envolveu Santa Filomena ao longo do século XX.
Dúvidas sobre a identificação do túmulo
Estudos arqueológicos posteriores à descoberta inicial revelaram que o túmulo específico onde as relíquias foram encontradas havia sido reutilizado ao longo dos séculos para abrigar diferentes corpos — prática funerária comum na Roma antiga —, levantando dúvidas sérias sobre se os símbolos encontrados (âncora, palma, flecha) realmente pertenciam à mesma pessoa identificada pela inscrição “Filomena”, ou se essa associação seria fruto de reconstituição equivocada dos fragmentos descobertos.
Pesquisadores especializados em paleoarqueologia cristã, incluindo o jesuíta Giuseppe Bonavenia e o arqueólogo Giovanni Battista de Rossi, dedicaram estudos específicos a essa controvérsia ainda no século XIX, num livro intitulado “Controversia sul Celeberrimo Epitaffio di Santa Filomena”, debatendo detalhadamente a autenticidade e a correta reconstituição da inscrição original encontrada fragmentada no túmulo. Essas investigações acadêmicas, conduzidas com rigor científico já naquela época, revelaram a complexidade real de tentar reconstituir com precisão absoluta a identidade de uma pessoa enterrada há quase dois milênios, a partir de fragmentos de inscrições e símbolos que, isoladamente, poderiam ter interpretações alternativas às inicialmente propostas pelos primeiros estudiosos que examinaram a descoberta de 1802.
A supressão do calendário litúrgico em 1961
Diante dessas incertezas históricas, a Sagrada Congregação dos Ritos determinou, em 14 de fevereiro de 1961, a retirada da festa de Santa Filomena (celebrada em 10 de agosto) de todos os calendários litúrgicos — decisão que afetou diversas outras devoções de historicidade também questionada, no mesmo contexto de revisão mais ampla do calendário de santos que ocorreria após o Concílio Vaticano II.
Esse processo de revisão do calendário litúrgico refletia esforço mais amplo da Igreja em consolidar, com maior rigor histórico e crítico, quais festas específicas mereciam permanecer no calendário oficial de celebrações obrigatórias em toda a Igreja universal, distinguindo entre devoções com base histórica mais sólida e devoções cuja tradição, embora piedosamente cultivada por gerações, carecia de fundamento documental suficientemente confiável para justificar celebração litúrgica formal e obrigatória. Esse mesmo processo revisório afetaria, ao longo das décadas seguintes, diversas outras figuras devocionais populares, sempre distinguindo cuidadosamente entre a questão da celebração litúrgica oficial e a questão distinta da legitimidade da devoção popular, que a Igreja geralmente preserva mesmo quando revisa o status litúrgico formal de uma determinada festa específica.
O que essa supressão significou (e o que não significou)
É importante compreender com precisão o alcance dessa decisão: tratou-se de supressão especificamente litúrgica — a missa própria e o ofício específico de Santa Filomena deixaram de ser celebrados oficialmente —, não de uma declaração de que ela nunca existiu ou de proibição de sua veneração popular. Consultada décadas depois, a Santa Sé esclareceu, através de resposta a um bispo indiano, que “a disposição de 1961 nunca teve a intenção de prejudicar ou eliminar o culto ou devoção popular a Santa Filomena”, confirmando que o culto popular poderia continuar.
Um esclarecimento adicional oferecido em 1974 pelo Padre Luís Espósito, então reitor do próprio Santuário de Santa Filomena em Mugnano, confirmou essa mesma interpretação: ele havia solicitado formalmente uma interpretação autêntica dessa disposição de 1961, recebendo como resposta que fora retirado apenas o culto litúrgico oficial, mantendo-se sem qualquer alteração o culto popular à santa. Vale notar também que Santa Filomena nunca havia sido incluída no Calendário Geral Romano de uso universal obrigatório — sua celebração sempre fora autorizada apenas para lugares específicos, desde 1837, o que torna a supressão de 1961 uma medida de alcance mais limitado do que muitas vezes é popularmente compreendida.
Uma devoção viva apesar da controvérsia
Mesmo após 1961, a devoção a Santa Filomena permaneceu viva entre muitos fiéis, incluindo Santo Padre Pio de Pietrelcina, que a chamava de “princesinha do Paraíso” desde a infância e defendia sua existência com convicção. O primeiro santuário dedicado a ela na América Latina foi inaugurado em Sorocaba, São Paulo, refletindo que essa devoção, apesar da controvérsia histórica, continua encontrando fiéis dispostos a cultivá-la com fé.
Padre Pio chegou a responder, segundo relatos preservados por seus biógrafos, a quem questionasse a existência histórica de Santa Filomena com afirmações enfáticas de que tais dúvidas seriam “fruto do demônio”, reforçando repetidamente: “Pode ser que não se chamasse Filomena, mas ela existiu, e é uma grande santa”. Essa defesa apaixonada por parte de um dos santos mais venerados do século XX certamente contribuiu para manter viva a devoção mesmo diante da controvérsia acadêmica sobre detalhes específicos de sua identificação histórica. No Brasil, além do santuário pioneiro de Sorocaba, diversas outras paróquias e comunidades mantêm devoção específica a Santa Filomena, muitas vezes através de grupos de oração organizados especificamente para rezar sua novena e partilhar testemunhos de graças recebidas ao longo dos anos.
Como Rezar a Santa Filomena Hoje
Apesar da controvérsia histórica sobre sua identidade exata, a devoção a Santa Filomena mantém práticas específicas consolidadas ao longo de mais de dois séculos de tradição popular.
A Novena Milagrosa de treze dias
Muitos devotos rezam a chamada “Novena Milagrosa” de Santa Filomena, estendida por treze dias — não os tradicionais nove —, seguindo formato consolidado especialmente através da devoção do Cura d’Ars, pedindo uma graça específica ao final desse período de oração constante.
A escolha específica do número treze, em vez dos nove dias mais comuns em outras novenas católicas, remonta à tradição particular associada a essa devoção, embora as razões históricas exatas para essa duração diferenciada não sejam completamente documentadas. Durante os treze dias da novena, muitos devotos rezam diariamente tanto a oração específica a Santa Filomena quanto orações complementares, como um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória ao Pai, unindo a súplica específica pela graça desejada a esse conjunto mais amplo de orações tradicionais católicas. Muitas paróquias e santuários dedicados a essa devoção organizam celebrações comunitárias específicas durante esse período de treze dias, culminando frequentemente em Missa solene no último dia, quando os fiéis participantes costumam compartilhar publicamente testemunhos de graças recebidas em novenas anteriores, reforçando a confiança coletiva na intercessão dessa jovem mártir.
Quando recorrer a essa devoção
Santa Filomena é tradicionalmente invocada diante de “causas impossíveis” ou situações que parecem sem solução, refletindo a extensa tradição de milagres atribuídos a ela ao longo do século XIX, quando ficou conhecida como “a grande milagrosa” por incontáveis relatos de curas e graças concedidas.
Relatos preservados do próprio santuário de Mugnano, catalogados ao longo de décadas por diferentes reitores responsáveis pelo local, incluem testemunhos de curas físicas consideradas inexplicáveis pela medicina da época, conversões inesperadas de pessoas afastadas da fé, e resolução de situações familiares ou financeiras que os próprios devotos descreviam como sem qualquer saída aparente antes de recorrerem à intercessão específica dessa jovem mártir. Esse padrão de invocação diante de situações extremas e aparentemente sem solução aproxima Santa Filomena, em termos de função devocional, de outras santas e santos igualmente associados a “causas impossíveis” dentro da tradição católica, cada um com sua própria história específica de origem, mas compartilhando esse mesmo papel de última esperança espiritual diante de circunstâncias que parecem ter esgotado todas as demais possibilidades humanas de solução.
Fé equilibrada diante da incerteza histórica
Como em qualquer devoção cuja historicidade específica permanece objeto de debate acadêmico, vale o mesmo princípio de maturidade espiritual: é possível nutrir devoção sincera a Santa Filomena, unindo-se à extensa tradição de fiéis que buscaram sua intercessão ao longo de mais de dois séculos, sem que isso exija aceitar cada detalhe específico da narrativa tradicional sobre sua vida como fato histórico comprovado com absoluta certeza documental. O núcleo espiritual da devoção — confiança na intercessão de uma jovem mártir cristã, mesmo que sua identidade exata permaneça incerta — pode ser vivido com sinceridade dentro desses limites de conhecimento histórico reconhecidamente parciais.
Muitos devotos unem essa devoção específica à própria devoção a São Cristóvão, outro santo cuja historicidade específica também foi objeto de revisão pela Igreja em décadas recentes, sem que isso tenha eliminado a devoção popular a nenhum dos dois. Essa combinação de casos semelhantes ilustra um padrão mais amplo dentro da tradição católica: devoções populares antigas podem conviver, com maturidade espiritual, com incertezas históricas legítimas sobre detalhes específicos de sua origem, desde que o núcleo de fé que sustenta cada devoção permaneça coerente com a doutrina católica mais ampla sobre intercessão dos santos.
Perguntas Frequentes
O que é a oração a Santa Filomena?
É uma oração de intercessão dirigida a uma jovem mártir cristã, cujo túmulo foi descoberto em 1802 nas catacumbas de Priscila, em Roma. Ficou conhecida como “a grande milagrosa do século XIX” por inúmeros milagres atribuídos à sua intercessão, especialmente através da devoção difundida pelo Cura d’Ars na França.
Como Santa Filomena foi descoberta?
Em 24 ou 25 de maio de 1802, escavações nas catacumbas de Priscila revelaram um túmulo com uma âncora, uma palma, uma flecha e um vaso com resíduo interpretado como sangue — símbolos associados a martírio cristão — junto a uma inscrição com o nome Filomena, reconstituída a partir de fragmentos de placas de terracota encontradas no local.
Quem foi São João Maria Vianney, o Cura d’Ars?
Foi o pároco de Ars, na França, que nutriu devoção intensa por ela, chamando-a de “princesinha do Paraíso” e construindo um santuário em sua honra, contribuindo decisivamente para espalhar essa devoção por toda a Europa católica do século XIX. É também padroeiro dos párocos, reconhecido por sua extraordinária dedicação ao ministério da confissão.
Por que Santa Filomena foi retirada do calendário litúrgico?
Em 1961, a Sagrada Congregação dos Ritos retirou sua festa litúrgica do calendário oficial, diante de dúvidas históricas sobre se os símbolos encontrados no túmulo realmente pertenciam à mesma pessoa identificada pela inscrição com seu nome, já que o túmulo específico havia sido reutilizado ao longo dos séculos para abrigar diferentes corpos.
A supressão de 1961 significa que a Igreja nega que ela existiu?
Não. Foi supressão especificamente litúrgica — a missa e o ofício próprios deixaram de ser celebrados oficialmente —, mas a Santa Sé esclareceu posteriormente que a decisão nunca teve intenção de eliminar o culto popular, que pode continuar sendo praticado livremente pelos fiéis que desejarem manter essa devoção específica.
Padre Pio tinha devoção a Santa Filomena?
Sim. Foi devoto de Santa Filomena desde criança, chamando-a de “princesinha do Paraíso”, e defendia sua existência com convicção mesmo diante de questões levantadas sobre sua historicidade específica, chegando a afirmar que tais dúvidas seriam “fruto do demônio” quando questionado sobre o assunto.
Qual a tradição sobre a vida de Santa Filomena?
Uma tradição baseada em relatos posteriores descreve-a como jovem princesa grega do século IV que, após se recusar a casar com o imperador Diocleciano por ter consagrado sua virgindade a Cristo, foi submetida a torturas antes de ser decapitada, preferindo o martírio a trair sua fé cristã e sua consagração pessoal.
O que é a Novena Milagrosa de Santa Filomena?
Muitos devotos rezam uma novena estendida por treze dias, formato consolidado especialmente através da devoção do Cura d’Ars, pedindo uma graça específica ao final desse período de oração constante.
Onde estão as relíquias de Santa Filomena hoje?
Estão na igreja de Mugnano del Cardinale, pequena cidade próxima a Nápoles, na Itália, transladadas para lá em 1805 pelo padre Francisco de Lucia.
Quando devo rezar a Santa Filomena?
É tradicionalmente invocada diante de ‘causas impossíveis’ ou situações que parecem sem solução, refletindo a extensa tradição de milagres atribuídos a ela ao longo do século XIX.


