Quem visita hoje o convento dominicano de Lima onde São Martinho de Porres viveu ainda encontra, entre os relatos mais repetidos pelos frades, uma imagem que resume quase tudo sobre ele: um homem varrendo o chão com dedicação silenciosa, enquanto ratos comiam ao lado sem que ele os expulsasse, dizendo que “eles também precisam viver”. Esta cena, aparentemente banal, é o retrato mais fiel de um santo que passou a vida fazendo os trabalhos mais desprezados do convento — e que hoje é venerado em toda a América Latina como o patrono da justiça racial, dos trabalhadores manuais e de todos que a sociedade coloca em último lugar.
Martinho nasceu em Lima em 1579, filho ilegítimo de um nobre espanhol e de uma ex-escrava negra libertada — uma origem que, no Peru colonial rigidamente hierarquizado por raça, praticamente o condenava à margem social por toda a vida. E foi precisamente dessa margem que ele construiu uma das santidades mais consistentes e mais praticamente úteis que a América colonial produziu: curou doentes com conhecimentos de fitoterapia que aprendeu como aprendiz de barbeiro-cirurgião, fundou orfanatos, alimentou os pobres da cidade diariamente, e insistiu, contra a resistência de vários membros da própria ordem, em ser aceito como irmão leigo dominicano numa época em que as leis coloniais restringiam severamente o acesso de mestiços à vida religiosa plena.
Canonizado pelo Papa João XXIII em 1962. Padroeiro da justiça social, dos barbeiros, dos trabalhadores de saúde pública e da harmonia racial. Sua festa é celebrada em 3 de novembro.
Quem Foi São Martinho de Porres

Martinho de Porres nasceu em 9 de dezembro de 1579, em Lima, filho de Juan de Porres, um cavaleiro espanhol, e de Ana Velázquez, mulher liberta de ascendência africana e provavelmente também indígena. O pai, inicialmente, recusou-se a reconhecer o filho — Martinho e a irmã foram registrados como “de pai desconhecido” — e só assumiu a paternidade anos mais tarde, ainda assim de forma limitada e intermitente.
Esta origem “ilegítima” e mestiça colocava Martinho numa posição legalmente restrita na sociedade colonial: as leis peruanas da época proibiam que pessoas de ascendência africana ou indígena se tornassem membros plenos de ordens religiosas. Aos doze anos, foi colocado como aprendiz de um barbeiro-cirurgião — uma profissão que, na época, incluía não apenas cortar cabelo, mas também sangrias, aplicação de ervas medicinais e cuidados médicos básicos. Foi nesse aprendizado que Martinho desenvolveu o conhecimento prático de medicina e fitoterapia que usaria pelo resto da vida para tratar gratuitamente os pobres de Lima.
Aos quinze anos, pediu para entrar no Convento do Santo Rosário, dos dominicanos, em Lima — mas, devido às restrições raciais das leis coloniais, só pôde ser aceito como “donado”, uma espécie de servo voluntário que realizava os trabalhos mais humildes do convento em troca de poder viver ali e participar parcialmente da vida religiosa. Martinho aceitou esta posição sem reclamar, dedicando-se com absoluta seriedade às tarefas de limpeza, cozinha e enfermaria.
Sua dedicação, humildade e os fenômenos extraordinários que começaram a ser relatados — curas, bilocação, comunicação aparente com animais — impressionaram progressivamente a comunidade dominicana. Em 1603, após pressão de alguns superiores que reconheciam a santidade evidente do jovem apesar das restrições legais, Martinho foi finalmente admitido como irmão leigo cooperador — um avanço significativo, embora ainda distante da plena incorporação como frade que as leis raciais coloniais impediam.
A partir daí, Martinho tornou-se o responsável pela enfermaria do convento, tratando não apenas os frades doentes, mas abrindo as portas para os pobres da cidade — escravizados, indígenas, mendigos — que ninguém mais atendia. Fundou um orfanato e uma escola para crianças pobres, organizava distribuição diária de alimentos, e chegou a criar, no próprio convento, um abrigo para animais doentes e abandonados, algo praticamente sem precedentes na espiritualidade da época.
Morreu em 3 de novembro de 1639, aos sessenta anos, e o funeral atraiu multidões de todas as classes sociais de Lima — nobres, mestiços, indígenas e escravizados juntos, um retrato simbólico de como sua vida havia, de fato, atravessado as barreiras raciais que a sociedade ao redor dele insistia em manter. Canonizado por João XXIII em 1962. Festa em 3 de novembro.
A Barreira Racial que Ele Enfrentou de Frente
É importante não suavizar este ponto: Martinho não conseguiu se tornar frade dominicano pleno simplesmente porque quis — foi impedido, durante anos, por leis coloniais explicitamente racistas que reservavam a vida religiosa plena a pessoas de “sangue limpo” europeu. A sua aceitação inicial apenas como “donado” — um status quase de servidão dentro do convento — é um retrato incômodo, mas historicamente honesto, de como o racismo estrutural também atravessava as instituições religiosas do período colonial.
O que torna a história de Martinho ainda mais notável é que ele nunca respondeu a essa injustiça com amargura documentada. Serviu com uma dedicação tão consistente que, décadas depois, os próprios superiores da ordem — inclusive os que inicialmente haviam resistido à sua presença — reconheceram nele uma santidade impossível de ignorar. Isso não legitima a injustiça original; mostra, sim, a força de uma vocação que insistiu em florescer apesar dela.
Como Rezar Esta Novena

- De 25 de outubro a 2 de novembro — nos nove dias antes da festa de 3 de novembro
- Pela justiça racial e contra toda forma de discriminação
- Para os trabalhadores manuais e os que exercem funções pouco valorizadas
- Para os profissionais de saúde, especialmente enfermeiros
- Pelos que enfrentam origem familiar ou social marcada por preconceito
- Pelos animais abandonados e por quem cuida deles
Oração de Abertura (Todos os Dias)
Glorioso São Martinho de Porres, que enfrentaste as barreiras raciais do Peru colonial com humildade e perseverança até seres reconhecido como um dos maiores santos da América, interceda por mim durante estes nove dias de novena. Você que serviu os trabalhos mais humildes do convento com a mesma dedicação de um grande apostolado, interceda para que eu encontre dignidade em qualquer tarefa que a vida me confie, por mais simples que pareça. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Primeiro Dia — A Origem “Ilegítima”: A Dignidade que Não Depende de Papéis
Meditação: Martinho foi registrado como “de pai desconhecido” e enfrentou, por décadas, as consequências legais e sociais de uma origem que a época considerava vergonhosa. Ele nunca escondeu ou negou essa origem — construiu a própria santidade a partir dela, não apesar dela. Isso ensina algo direto: nenhum documento, nenhuma classificação social, define o valor real de uma pessoa diante de Deus.
São Martinho de Porres, que construíste a santidade a partir de uma origem que a sociedade desprezava, interceda pelos que carregam estigmas de nascimento, origem familiar ou condição social que não escolheram. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Segundo Dia — O Aprendizado de Barbeiro-Cirurgião: O Conhecimento Prático a Serviço do Bem
Meditação: Aos doze anos, Martinho aprendeu ofícios médicos práticos que usaria a vida inteira para curar gratuitamente os pobres de Lima. Este detalhe é importante: a santidade de Martinho não foi puramente espiritual e abstrata — foi extremamente concreta, apoiada em competência técnica real, adquirida com esforço e usada com generosidade.
São Martinho de Porres, que uniste conhecimento técnico e caridade concreta, interceda pelos profissionais de saúde que desejam colocar as próprias habilidades a serviço dos mais pobres. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Terceiro Dia — A Aceitação como “Donado”: A Humildade diante da Injustiça
Meditação: Martinho aceitou a posição inferior de “donado” no convento — a única possível para alguém de sua origem racial segundo as leis da época — sem se revoltar nem desistir da vocação. Isso não significa que devamos aceitar passivamente toda injustiça: significa que ele não deixou que a barreira imposta destruísse a fidelidade ao chamado que sentia. Perseverou dentro dos limites reais que enfrentava, sem deixar de trabalhar, décadas depois, por mudanças reais na própria ordem.
São Martinho de Porres, que perseveraste na vocação apesar das restrições injustas impostas contra ti, interceda pelos que enfrentam barreiras institucionais injustas e precisam de força para continuar fiéis ao próprio chamado. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Quarto Dia — A Enfermaria Aberta aos Pobres: O Cuidado sem Distinção
Meditação: Como responsável pela enfermaria do convento, Martinho não limitou o cuidado aos frades — abriu as portas para escravizados, indígenas e mendigos que nenhuma outra instituição da cidade atendia. Este gesto, simples na descrição mas radical na prática, mostra o que significa concretamente tratar todos com igual dignidade.
São Martinho de Porres, que abriste a enfermaria a todos sem distinção de raça ou condição social, interceda para que os sistemas de saúde de hoje sejam cada vez mais acessíveis aos mais pobres. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Quinto Dia — Os Ratos que Podiam Viver: A Compaixão até pelos Menores
Meditação: O relato mais conhecido sobre Martinho — recusando-se a matar os ratos do convento, dizendo que “eles também precisam viver”, e chegando a alimentá-los separadamente para que não incomodassem a cozinha — pode soar como anedota simpática, mas revela algo profundo: uma compaixão que não fazia exceções mesquinhas, que via valor até nas criaturas mais desprezadas.
São Martinho de Porres, que tiveste compaixão até pelos animais mais desprezados, interceda para que eu cultive um coração de compaixão que não escolhe quem merece cuidado. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Sexto Dia — O Orfanato e a Escola: A Caridade que Constrói Futuro
Meditação: Martinho não se limitou a assistência imediata: fundou um orfanato e uma escola para crianças pobres, investindo em soluções de longo prazo, não apenas em alívios momentâneos. Isso mostra uma compreensão madura da caridade — que não se contenta em aliviar o sofrimento do momento, mas busca transformar as condições que o produzem.
São Martinho de Porres, que fundaste instituições que garantiam futuro às crianças pobres, interceda pelos que trabalham na educação e na proteção da infância vulnerável. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Sétimo Dia — A Bilocação e os Fenômenos Extraordinários: Sinais que Confirmam
Meditação: Relatos históricos atribuem a Martinho fenômenos místicos como bilocação (aparecer em dois lugares ao mesmo tempo) e curas inexplicáveis. Independentemente de como cada leitor interpreta esses relatos hoje, o importante é o que eles significavam para os que os testemunharam: confirmação de uma santidade que já era evidente na vida cotidiana, discreta e dedicada de Martinho.
São Martinho de Porres, cuja santidade foi confirmada por sinais extraordinários que testemunhas relataram, interceda para que eu reconheça a presença de Deus mesmo nas manifestações mais simples e cotidianas da vida. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oitavo Dia — O Funeral Multirracial: O Símbolo de uma Vida que Uniu
Meditação: O funeral de Martinho reuniu nobres, mestiços, indígenas e escravizados numa mesma multidão de luto — um retrato simbólico poderoso de como sua vida, dedicada aos mais desprezados, terminou reconhecida por toda a sociedade que o havia inicialmente marginalizado. A santidade genuína, no fim, é reconhecida por todos, independentemente das barreiras que tentam contê-la.
São Martinho de Porres, cujo funeral reuniu pessoas de todas as classes sociais de Lima, interceda pela reconciliação racial e social em todas as nações, especialmente na América Latina. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Nono Dia — Consagração Final
Meditação: São Martinho de Porres viveu sessenta anos — décadas dedicadas aos trabalhos mais humildes do convento, ao cuidado gratuito dos mais pobres de Lima, e à perseverança silenciosa diante de barreiras legais e sociais que hoje reconhecemos como profundamente injustas. Sua canonização em 1962, num período de intensos debates raciais em várias partes do mundo, carregou um significado que transcendeu a hagiografia tradicional: o reconhecimento oficial de que a santidade não conhece hierarquia racial.
São Martinho de Porres, ao terminar esta novena, peço a graça de servir com a mesma dedicação nas tarefas mais simples da minha vida, e de nunca permitir que preconceitos — meus ou alheios — definam o valor de qualquer pessoa. Interceda pelas intenções desta novena e por toda a América Latina. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oração de Encerramento (Todos os Dias)
Glorioso São Martinho de Porres, santo da vassoura e da justiça racial, receba as orações desta novena e interceda por mim junto ao Senhor Jesus. Peça para mim a graça de encontrar dignidade em qualquer trabalho, de cuidar dos mais pobres sem fazer distinções, e de perseverar fielmente diante de injustiças que ainda não consigo mudar sozinho. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
As 10 Perguntas Mais Frequentes sobre São Martinho de Porres e Esta Novena
1. Quem foi São Martinho de Porres?
São Martinho de Porres (1579-1639) foi um religioso dominicano peruano, filho de nobre espanhol e mulher liberta de ascendência africana. Dedicou a vida ao cuidado dos pobres de Lima como enfermeiro, fundou orfanato e escola, e enfrentou restrições raciais coloniais até ser reconhecido como irmão leigo. Canonizado em 1962. Festa em 3 de novembro.
2. Quando é a festa de São Martinho de Porres?
A festa de São Martinho de Porres é celebrada em 3 de novembro. A novena começa em 25 de outubro.
3. Por que São Martinho é chamado “santo da vassoura”?
O título reflete a humildade radical com que ele executava, com total dedicação e alegria, as tarefas de limpeza e trabalho manual mais desprezadas do convento — um símbolo da santidade encontrada nas coisas mais simples.
4. Por que Martinho não pôde se tornar frade pleno imediatamente?

As leis coloniais peruanas da época proibiam que pessoas de ascendência africana ou indígena se tornassem membros plenos de ordens religiosas. Martinho foi aceito inicialmente apenas como “donado”, uma posição de serviço subordinado.
5. Que profissão Martinho aprendeu antes de entrar no convento?
Foi aprendiz de barbeiro-cirurgião, profissão que na época incluía cuidados médicos básicos, sangrias e aplicação de ervas medicinais — conhecimento que ele usaria depois para tratar gratuitamente os pobres de Lima.
6. O que fez São Martinho pelos pobres de Lima?
Fundou um orfanato e uma escola para crianças pobres, organizou distribuição diária de alimentos, e abriu a enfermaria do convento aos indígenas, escravizados e mendigos que ninguém mais atendia.
7. É verdade que São Martinho cuidava de animais?
Sim, é uma das histórias mais conhecidas sobre ele. Chegou a criar um abrigo para animais doentes e abandonados no próprio convento, incluindo o relato famoso de recusar-se a matar os ratos que infestavam a cozinha.
8. Quando São Martinho foi canonizado?
São Martinho de Porres foi canonizado pelo Papa João XXIII em 6 de maio de 1962, mais de três séculos após sua morte.
9. De que São Martinho é padroeiro?
É padroeiro da justiça social e racial, dos barbeiros, dos trabalhadores de saúde pública, dos pobres e dos que trabalham por harmonia entre diferentes raças e classes sociais.
10. Como rezar a Novena de São Martinho para obter maiores frutos espirituais?
Faça durante os nove dias algum gesto concreto de serviço humilde, sem buscar reconhecimento. Ofereça a novena pela justiça racial e social. Rezar por quem enfrenta discriminação por origem ou condição social. Termine cada dia perguntando: “tratei hoje alguém como inferior por causa da função que exerce?”
Outras Devoções Relacionadas
A devoção a São Martinho de Porres se aprofunda com outros conteúdos do site. A Novena de Santa Rosa de Lima complementa — contemporânea de Martinho na mesma Lima colonial, ambos santos que atravessaram fronteiras sociais rígidas. A Novena de São Pedro Claver aprofunda a mesma luta pela dignidade dos escravizados na América colonial. O Salmo 82 — “defendei o fraco e o órfão, fazei justiça ao humilde e ao pobre” — é o salmo de Martinho: o mandato que ele viveu literalmente na enfermaria de Lima.




