Novena de São João XXIII — 9 Dias de Oração ao Papa da Bondade
Há um papa do século XX que foi eleito como “candidato de transição” por um colégio cardinalício que não esperava grandes surpresas — e que surpreendeu o mundo inteiro convocando o Concílio Vaticano II, o maior evento da história da Igreja no século XX. São João XXIII foi o papa que disse que queria “abrir as janelas da Igreja para que entrasse ar fresco” — e que o fez com uma bondade, um humor e uma humanidade que a tradição papal raramente havia produzido antes. O seu sorriso, o seu abraço, a sua capacidade de fazer cada pessoa sentir-se especial — foram as marcas de um pontificado que durou apenas quatro anos e sete meses mas que transformou irreversivelmente a Igreja.
Angelo Giuseppe Roncalli — o filho do camponês de Sotto il Monte — foi patriarca de Veneza antes de ser papa, legado apostólico na Bulgária, Turquia e Grécia, e núncio em Paris durante os anos difíceis do pós-guerra. Cada uma destas missões o formou: a vida entre os cristãos ortodoxos na Bulgária e na Turquia ensinou-lhe o ecumenismo antes de o Vaticano II o formalizar; os anos em Paris durante e após a guerra ensinaram-lhe a diplomacia e a compaixão; a Patriarcado de Veneza ensinou-lhe o que é ser pastor de uma diocese real, com pessoas reais.
Canonizado por Francisco em 2014, juntamente com João Paulo II. A sua festa é celebrada em 11 de outubro — a data de abertura do Concílio Vaticano II em 1962.
Quem Foi São João XXIII

Angelo Giuseppe Roncalli nasceu em 25 de novembro de 1881 em Sotto il Monte, perto de Bergamo, Lombardia, filho de Giovanni Battista Roncalli e Marianna Mazzola — camponeses pobres com quatro filhos. A família era fervorosamente católica, e a formação espiritual de Angelo foi profundamente marcada pela fé simples e concreta dos seus pais.
Estudou no seminário de Bergamo e depois em Roma, onde foi ordenado sacerdote em 1904. Serviu como secretário do Bispo de Bergamo Giacomo Radini-Tedeschi — que foi a sua primeira grande escola de episcopado: Radini-Tedeschi era um bispo social e pastoral que o ensinou que a Igreja serve os pobres com actos e não apenas com palavras.
Após a Primeira Guerra Mundial (durante a qual serviu como capelão militar), foi chamado para a Congregação para a Propagação da Fé e depois enviado como delegado apostólico para a Bulgária (1925), Turquia e Grécia (1934) e núncio em Paris (1944). Em 1953, o Papa Pio XII nomeou-o Patriarca de Veneza e cardeal. Em 28 de outubro de 1958 — com setenta e seis anos — foi eleito papa com o nome de João XXIII.
O pontificado (1958-1963) foi de uma intensidade e de uma originalidade que os que esperavam um pontificado de transição não haviam previsto: a convocação do Concílio Vaticano II (1959), a encíclica “Mater et Magistra” (1961) sobre a doutrina social, a encíclica “Pacem in Terris” (1963) sobre a paz — e a bondade pessoal que transformou a imagem pública do papado. Morreu em 3 de junho de 1963, com oitenta e um anos, enquanto o Concílio estava em curso. Canonizado em 2014. Festa em 11 de outubro.
O Concílio Vaticano II: A “Janela Aberta”
A convocação do Concílio Vaticano II — anunciada por João XXIII a 25 de janeiro de 1959, apenas noventa dias após a eleição — foi a decisão mais inesperada e mais consequente do seu pontificado. João XXIII não convocou o Concílio para definir novos dogmas ou condenar novas heresias: convocou-o para o “aggiornamento” — a actualização da Igreja, a abertura de janelas para que o ar fresco do Espírito Santo pudesse entrar.
Esta visão do Concílio como renovação pastoral e não como condenação doutrinal — que João XXIII expressou no discurso de abertura (“Gaudet Mater Ecclesia”, 11 de outubro de 1962) com uma generosidade que ainda hoje impressiona — foi revolucionária. João não viveu para ver a conclusão do Concílio (morreu em junho de 1963, e o Concílio concluiu-se em dezembro de 1965); mas a orientação que deu nos primeiros meses foi decisiva para todo o desenvolvimento posterior.
O Papa da Bondade: O Humor e a Humanidade

O traço mais imediatamente reconhecível do pontificado de João XXIII foi a bondade — expressa com um humor que a tradição papal raramente havia produzido. Quando lhe perguntaram quantas pessoas trabalhavam no Vaticano, respondeu: “Cerca de metade.” Quando lhe perguntaram o que fazia quando não conseguia dormir, respondeu: “Vou ao meu gabinete e rezo; depois digo ao Papa para não se preocupar tanto.” Esta capacidade de se objectivar com humor — que é sinal de uma liberdade interior extraordinária — era ao mesmo tempo a expressão de uma santidade genuína e o instrumento mais eficaz de comunicação que um papa havia usado no século XX.
Como Rezar Esta Novena
- De 2 a 10 de outubro — nos nove dias antes da festa de 11 de outubro
- Pelo Concílio Vaticano II e a sua recepção
- Pela bondade e pela alegria na Igreja
- Pelo ecumenismo e pelo diálogo inter-religioso
- Para os papas e pelo ministério de Pedro
- Para os que trabalham pela paz no mundo
Oração de Abertura (Todos os Dias)
Glorioso São João XXIII, “Papa da Bondade” que convocaste o Concílio Vaticano II para abrir as janelas da Igreja e que governaste com um sorriso que o mundo inteiro reconhecia, intercedei por mim durante estes nove dias de novena. Vós que dissestes que queríeis que a Igreja fosse “mãe de todos” e não apenas “juíza dos erros”, intercedei para que eu aprenda a bondade pastoral que transforma sem condenar e que acolhe sem perder a verdade. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Primeiro Dia — O Filho do Camponês: A Origem que Nunca Esqueceu
Meditação: João XXIII nasceu numa família de camponeses pobres de Bergamo — e nunca esqueceu esta origem. O papa que vivia no Vaticano continuava a visitar os doentes nos hospitais, a receber os pobres em audiência privada, e a escrever cartas pessoais às pessoas simples que lhe escreviam. Esta fidelidade à origem — que não se deixou transformar pelo cargo numa pessoa diferente da que havia sido — é a marca mais eloquente da sua santidade: a graça que não muda a substância mas a aprofunda.
São João XXIII, filho de camponeses que nunca esqueceste a origem, intercedei para que eu seja fiel às raízes que me formaram — e que use a posição que tenho para servir os que têm menos, como tu fazias. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Segundo Dia — A Bulgária e a Turquia: O Ecumenismo antes do Concílio
Meditação: Os anos que Angelo Roncalli passou como delegado apostólico na Bulgária e na Turquia — entre cristãos ortodoxos e muçulmanos — foram a escola do ecumenismo e do respeito inter-religioso que depois, como papa, ele formalizaria com o Concílio. O contacto directo com o diferente — que não é ameaça mas riqueza — foi para Roncalli uma experiência formativa que o magistério eclesiástico da época raramente proporcionava. O papa que abriu a Igreja ao diálogo havia primeiro sido formado pelo diálogo.
São João XXIII, formado pelo contacto com os cristãos ortodoxos e os muçulmanos da Bulgária e da Turquia, intercedei pelo diálogo ecuménico e inter-religioso. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Terceiro Dia — “Gaudet Mater Ecclesia”: A Abertura sem Condenação
Meditação: O discurso de abertura do Concílio Vaticano II — “Gaudet Mater Ecclesia” (A Mãe Igreja Alegra-se), proferido por João XXIII em 11 de outubro de 1962 — foi uma das declarações mais revolucionárias da história papal moderna: João recusou explicitamente transformar o Concílio num instrumento de condenação. “A Igreja prefere o remédio da misericórdia à severidade.” Esta escolha de pastoral misericordiosa antes da condenação doutrinal — que João apresentou não como rendição mas como fidelidade ao Evangelho — foi o tom que marcou todo o Vaticano II.
São João XXIII, que abriste o Vaticano II com “a Igreja prefere a misericórdia à severidade”, intercedei para que a Igreja de hoje continue a praticar esta misericórdia que não abandona a verdade mas que a apresenta com o amor que atrai em vez do medo que afasta. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Quarto Dia — A “Pacem in Terris”: A Paz como Programa
Meditação: A encíclica “Pacem in Terris” (1963) — a última grande obra de João XXIII, escrita enquanto morria de cancro do estômago — foi a primeira encíclica papal dirigida não apenas aos católicos mas “a todos os homens de boa vontade.” Esta universalidade — que reconhece que a paz é um bem que transcende as fronteiras confessionais — foi um gesto de abertura sem precedentes no magistério papal. A encíclica foi publicada em plena crise dos mísseis de Cuba, quando o mundo temia a guerra nuclear — e João XXIII havia sido um dos mediadores sigilosos entre Kennedy e Khrushchev.
São João XXIII, que escreveste a Pacem in Terris dirigida a “todos os homens de boa vontade”, intercedei pela paz no mundo. Pelos que trabalham pela paz em zonas de guerra. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Quinto Dia — O Humor: A Santidade que Sorri
Meditação: O humor de João XXIII — que é um dos seus traços mais documentados e mais amados — não era ornamento superficial: era expressão de uma liberdade interior extraordinária. O homem que ria de si mesmo (“digo ao Papa para não se preocupar tanto”) era o mesmo que rezava horas por dia no seu gabinete, que mantinha o “Giornale dell’Anima” (o diário espiritual que escrevia desde a adolescência), e que morreu com os salmos nos lábios. A alegria que o humor expressava era a alegria do Evangelho — não leveza irresponsável mas leveza que nasce da profundidade.
São João XXIII, que sorrias com a liberdade de quem rezava em profundidade, intercedei para que eu aprenda a alegria cristã que nasce não da superficialidade mas da confiança em Deus. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Sexto Dia — O “Giornale dell’Anima”: A Oração que Formou o Papa
Meditação: O “Giornale dell’Anima” — o diário espiritual que João XXIII escreveu desde os catorze anos até à morte — é um dos documentos mais ricos de espiritualidade papal que existe. Não é o diário de um papa: é o diário de um homem que se examina honestamente diante de Deus durante sessenta e sete anos. A qualidade espiritual que João XXIII manifestou como papa foi construída neste diário — na oração quotidiana, no exame de consciência, na humildade que pede a Deus o que não consegue por si mesmo.
São João XXIII, que escreveste o Giornale dell’Anima durante 67 anos, intercedei para que eu cultive a oração interior que formou a santidade papal que o mundo reconhecia no teu sorriso. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Sétimo Dia — A “Mater et Magistra”: A Doutrina Social Renovada
Meditação: A encíclica “Mater et Magistra” (1961) actualizou a doutrina social da Igreja para o contexto do século XX: a questão do trabalho, do desenvolvimento dos países pobres, da socialização crescente e da responsabilidade dos ricos para com os pobres. Esta continuidade com a tradição da doutrina social — que João aprofundou e actualizou sem abandonar — é o sinal de que a “abertura das janelas” que pregava não era ruptura com a tradição mas o seu aprofundamento.
São João XXIII, autor da Mater et Magistra que actualizou a doutrina social, intercedei para que a Igreja continue a falar sobre justiça económica com a clareza e a coragem que a encíclica mostrou. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oitavo Dia — A Morte durante o Concílio: A Semente que Cai
Meditação: João XXIII morreu em 3 de junho de 1963 — enquanto o Concílio que havia convocado ainda estava em curso. Não viu a conclusão da obra que havia iniciado. Esta morte durante o processo — que é o padrão mais frequente dos grandes iniciadores — é ao mesmo tempo tragédia humana e lição espiritual: a obra maior do que o iniciador, a missão que transcende a vida do missionário, o Concílio que João XXIII “plantou” mas que Paulo VI “regou.” A semente que cai antes de ver o fruto é ainda mais semente do que a que vive para ver a colheita.
São João XXIII, que morreste durante o Concílio que tinhas convocado sem o ver concluído, intercedei para que eu aceite com paz não ver o fim das obras que começo. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Nono Dia — Consagração Final
Meditação: São João XXIII viveu oitenta e um anos — dos quais os últimos quatro e meio foram de pontificado que transformou a Igreja. O filho do camponês de Sotto il Monte tornou-se papa com setenta e seis anos e governou como se soubesse que o tempo era curto: convocando o Concílio nos primeiros noventa dias, escrevendo encíclicas de grande importância, e sorrindo — sempre sorrindo — como prova de que o Evangelho é Boa Nova e não má notícia. A bondade de João XXIII não foi estratégia de comunicação: foi o fruto de sessenta e sete anos de diário espiritual que formaram um homem livre.
São João XXIII, ao terminar esta novena de nove dias, eu me comprometo a cultivar a alegria cristã que nasce da oração profunda — e a abrir as minhas próprias “janelas” ao ar fresco do Espírito. Intercedei pelas intenções desta novena e pelo Concílio Vaticano II que iniciaste. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oração de Encerramento (Todos os Dias)
Glorioso São João XXIII, “Papa da Bondade” e pai do Concílio Vaticano II, recebei as orações desta novena e intercedei por mim junto ao Senhor Jesus. Obtende para mim a graça de uma bondade que não cede na verdade, de um humor que nasce da profundidade espiritual, e de uma abertura ao Espírito que não teme as novidades que Deus traz. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
As 10 Perguntas Mais Frequentes sobre São João XXIII e Esta Novena
1. Quem foi São João XXIII?
São João XXIII (1881-1963), nascido Angelo Giuseppe Roncalli, foi papa de 1958 a 1963. Convocou o Concílio Vaticano II, escreveu as encíclicas “Mater et Magistra” e “Pacem in Terris”, e governou com uma bondade e um humor que transformaram a imagem pública do papado. Canonizado por Francisco em 2014. Festa em 11 de outubro.
2. Quando é a festa de São João XXIII?
A festa de São João XXIII é celebrada em 11 de outubro — a data de abertura do Concílio Vaticano II em 1962. A novena começa em 2 de outubro.
3. Por que João XXIII convocou o Concílio Vaticano II?
João XXIII convocou o Vaticano II para o “aggiornamento” — a actualização da Igreja ao mundo contemporâneo. Não para definir novos dogmas nem condenar heresias, mas para renovar pastoralmente a Igreja e abrir o diálogo com o mundo moderno. Anunciou a convocação apenas noventa dias após a eleição, em janeiro de 1959.
4. O que foi o discurso “Gaudet Mater Ecclesia”?
O discurso de abertura do Vaticano II (11 de outubro de 1962) foi uma das declarações mais revolucionárias da história papal: João XXIII recusou transformar o Concílio em instrumento de condenação, afirmando que “a Igreja prefere o remédio da misericórdia à severidade.” Esta escolha marcou o tom de todo o Vaticano II.
5. O que foi o “Giornale dell’Anima”?
O “Giornale dell’Anima” (Diário da Alma) é o diário espiritual que João XXIII escreveu desde os catorze anos até à morte — sessenta e sete anos de exame de consciência diante de Deus. É um dos documentos mais ricos de espiritualidade papal que existe e a chave para compreender a bondade e a profundidade espiritual que manifestou como papa.
6. Qual foi o papel de São João XXIII na Crise dos Mísseis de Cuba?
Em outubro de 1962, durante a crise dos mísseis de Cuba que colocou o mundo à beira da guerra nuclear, João XXIII foi um mediador sigiloso entre Kennedy e Khrushchev — usando os canais diplomáticos da Santa Sé para transmitir mensagens que contribuíram para a resolução pacífica da crise. A encíclica “Pacem in Terris” foi escrita imediatamente após esta experiência.
7. Como morreu São João XXIII?
João XXIII morreu em 3 de junho de 1963 de cancro do estômago, enquanto o Concílio Vaticano II estava em curso (o Concílio seria concluído por Paulo VI em dezembro de 1965). Tinha oitenta e um anos. Morreu como havia vivido — com serenidade, com humor e com os salmos nos lábios.
8. O que é a “Pacem in Terris”?
A “Pacem in Terris” (Paz na Terra, 1963) foi a última grande encíclica de João XXIII. Foi a primeira encíclica papal dirigida não apenas aos católicos mas “a todos os homens de boa vontade.” Trata da paz, dos direitos humanos e da responsabilidade dos estados. Foi escrita enquanto João morria de cancro e é considerada um dos documentos mais importantes do magistério do século XX.
9. Quando foi canonizado João XXIII e por quem?
São João XXIII foi canonizado pelo Papa Francisco em 27 de abril de 2014, juntamente com São João Paulo II — numa dupla canonização histórica. O processo de canonização de João XXIII foi reconhecido sem exigir o segundo milagre habitual, dado o reconhecimento universal da sua santidade.
10. Como rezar a Novena de São João XXIII para obter maiores frutos espirituais?
Para obter mais frutos: ler antes algumas páginas do “Giornale dell’Anima” (disponível em português); rezar especificamente pela recepção fiel do Vaticano II na Igreja de hoje; fazer durante os nove dias um gesto de bondade concreta — em honra do Papa da Bondade; e terminar cada dia com a pergunta de João XXIII: “onde abri janelas hoje para que o Espírito entrasse?”
Outras Devoções Relacionadas
A devoção a São João XXIII aprofunda-se com outros conteúdos do site. A Novena de São João Paulo II complementa — o outro papa canonizado no mesmo dia em 2014, que concluiu e implementou o que João XXIII havia iniciado. A Novena de São Pio V aprofunda — outro papa canonizado de estilos completamente diferentes, ambos santos. O Salmo 85 — “a misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se abraçaram” — é o salmo do Vaticano II: a visão de João XXIII de uma Igreja onde a misericórdia e a verdade não se excluem mas se abraçam.




