Novena de São Cipriano de Cartago — 9 Dias de Oração ao Bispo Mártir da Unidade
Há um bispo do século III que foi simultaneamente um dos maiores administradores que a Igreja africana produziu, o teólogo que escreveu a frase mais citada da eclesiologia patrística — “Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por Mãe” — e o mártir que foi decapitado diante do seu povo em Cartago, em 258 d.C., com uma serenidade que impressionou amigos e adversários. São Cipriano de Cartago foi tudo isto — e foi-o numa época de perseguição sistemática, de cismas internos e de epidemias devastadoras que puseram à prova a Igreja africana com uma intensidade que poucas gerações cristãs conheceram.
A conversão de Cipriano — por volta de 246 d.C., quando era já um homem maduro, advogado e professor de retórica de prestígio em Cartago — foi uma das mais radicais da história patrística. Distribuiu os seus bens pelos pobres, abraçou o celibato, mergulhou no estudo das Escrituras e de Tertuliano (de quem dizia “dá-me o mestre”), e dois anos depois era bispo de Cartago — o cargo mais importante da Igreja de África. Dez anos de episcopado bastaram para que deixasse um legado teológico e pastoral que ainda hoje alimenta a reflexão eclesiológica.
A sua contribuição mais duradoura é o tratado “Sobre a Unidade da Igreja Católica” (De Unitate Ecclesiae), escrito em 251 d.C. em resposta ao cisma dos novacianos. Neste tratado, Cipriano articulou pela primeira vez a doutrina da unidade da Igreja como condição da salvação — com uma clareza e uma urgência que a história dos cismas cristãos confirmaria repetidamente. São Cipriano é padroeiro da Argélia e é venerado por católicos, ortodoxos e anglicanos. A sua festa é celebrada em 16 de setembro.
Quem Foi São Cipriano de Cartago

Táscius Cecílio Cipriano nasceu por volta de 200 d.C. em Cartago, no actual Tunísia, de família nobre e rica. Recebeu a melhor educação retórica disponível e tornou-se professor e advogado de prestígio — a versão africana do que Agostinho de Hipona seria um século e meio depois. Era pagão até à meia-idade.
A sua conversão, por volta de 246 d.C., foi facilitada pelo presbítero Ceciliano — em cuja honra adoptou o nome “Cecílio” — e foi radical e total: vendeu os seus bens, distribuiu-os pelos pobres, abraçou a virgindade e dedicou-se ao estudo das Escrituras e de Tertuliano com uma intensidade que os seus contemporâneos notaram. Dois anos depois, em 248 ou 249, foi eleito bispo de Cartago por aclamação popular — contra a resistência de alguns presbíteros mais velhos que ressentiram a rapidez da sua ascensão.
O seu episcopado (248-258) foi marcado por três grandes crises: a perseguição de Décio (249-251), que o obrigou ao exílio; a questão dos “lapsos” — cristãos que haviam apostatado durante a perseguição e que queriam regressar à Igreja; e a perseguição de Valeriano (257-258), que culminou no seu martírio. Em cada crise, Cipriano mostrou uma combinação de firmeza doutrinária com misericórdia pastoral que o tornava difícil de reduzir a qualquer das fações que o rodeavam.
Morreu decapitado em 14 de setembro de 258 d.C. — no dia anterior à sua festa no calendário romano antigo. A crónica do seu martírio é um dos documentos mais vivos da hagiografia patrística: chegou ao local da execução, tirou o manto, ajoelhou-se, rezou, vendou os próprios olhos e ofereceu o pescoço ao algoz. A multidão cristã que o acompanhou gritou “também nós queremos ser executados com ele.” A sua festa é celebrada em 16 de setembro.
De Unitate Ecclesiae: A Teologia da Unidade
O tratado “Sobre a Unidade da Igreja Católica”, escrito em 251 d.C. em resposta ao cisma novacianos, contém as frases mais citadas da eclesiologia patrística e ainda hoje estrutura a reflexão católica sobre a unidade da Igreja. “Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por Mãe” — esta afirmação de Cipriano não é exclusivismo arrogante: é a consequência lógica da teologia da Encarnação. Se Deus entrou no mundo pela Igreja, através dos sacramentos que a Igreja administra, então a separação da Igreja não é separação de uma instituição humana — é separação do canal de graça que Deus estabeleceu.
A outra grande afirmação do “De Unitate” — “Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por Mãe; não pode obter a salvação quem abandona a Igreja de Cristo” — precisa de ser lida no contexto: Cipriano estava a falar de cismas deliberados, de separações provocadas por ambição pessoal ou por rigorismo excessivo, não de ignorância sincera. A teologia de Cipriano não é condenação dos que nunca conheceram a Igreja: é advertência para os que a conhecem e a abandonam por razões que ele via como insuficientes.
A Peste de Cartago: Pastoral na Catástrofe

Em 252-254 d.C., uma epidemia devastadora — conhecida como “Praga de Cipriano” — assolou o Império Romano com uma virulência extraordinária. Cartago não foi poupada. E a resposta de Cipriano foi a de um pastor que vai ao encontro do sofrimento em vez de fugir dele: organizou a resposta caritativa da comunidade cristã, mobilizou os ricos para financiar o cuidado dos pobres infectados, exigiu que os cristãos cuidassem não apenas dos seus mas de todos os doentes — pagãos incluídos. O seu sermão “Sobre a Mortalidade” — pregado durante a epidemia — é um dos mais belos textos sobre a morte e a esperança cristã que a patrística produziu.
A resposta cristã à epidemia impressionou os pagãos: enquanto muitos abandonavam os doentes por medo do contágio, os cristãos ficavam. Este testemunho de caridade radical — que não distinguia entre cristão e pagão na hora do cuidado — foi um dos factores da expansão do Cristianismo no século III. Cipriano transformou uma catástrofe em missão.
Como Rezar Esta Novena
A Novena de São Cipriano de Cartago pode ser rezada nos nove dias que precedem a sua festa de 16 de setembro — de 7 a 15 de setembro — ou em qualquer outro período do ano em que as intenções correspondam ao seu carisma específico: pela unidade da Igreja, pela coragem na perseguição, pela pastoral em tempo de epidemia ou crise, pela sabedoria dos bispos e pastores. Para cada dia, siga esta sequência:
- Entre em silêncio por dois a três minutos
- Recite a Oração de Abertura
- Leia a meditação do dia devagar
- Apresente as suas intenções específicas
- Recite a oração do dia
- Reze um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória
- Encerre com a Oração de Encerramento
Oração de Abertura (Todos os Dias)
Glorioso São Cipriano de Cartago, bispo, mártir e defensor da unidade da Igreja, que escreveste “não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por Mãe” e que confirmaste com o martírio a fé que proclamaste com as palavras, intercedei por mim durante estes nove dias de novena. Apresentai ao Senhor Jesus as minhas intenções mais urgentes e obtende para mim a graça de amar a Igreja com a fidelidade que vós mostrastes até ao último momento da vossa vida. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Primeiro Dia — A Conversão do Retor: Nunca É Tarde
Meditação: Cipriano converteu-se por volta dos quarenta e cinco anos — já era homem maduro, bem-sucedido, com carreira estabelecida e bens acumulados. Esta conversão tardia — que não foi menos radical por ser tardia — é consoladora para todos os que pensam que chegaram tarde demais à fé ou que a conversão exige uma juventude que já não têm. Cipriano vendeu os bens, abraçou a castidade e mergulhou nas Escrituras com a intensidade de um homem que sabe que o tempo é precioso — precisamente porque a conversão veio tarde.
São Cipriano de Cartago, que te converteste a meio da vida com uma radicalidade que os jovens raramente atingem, intercedei pelos que chegam à fé em idade adulta. Pelos que pensam que é tarde demais para converter, para começar de novo, para dar tudo a Deus. Que a tua conversão tardia e total seja para eles sinal de que Deus não respeita as nossas cronologias — e de que a conversão real é sempre possível enquanto há vida. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Segundo Dia — “Não Pode Ter Deus por Pai quem Não Tem a Igreja por Mãe”
Meditação: A frase mais famosa de Cipriano é também a mais mal compreendida. Não é arrogância exclusivista — é consequência da teologia da Encarnação: Deus não salvou a humanidade directamente, mas pela mediação de Cristo, e Cristo age no mundo pela mediação da Igreja e dos seus sacramentos. Quem se separa voluntariamente desta mediação não está a ir directamente a Deus — está a recusar o caminho que Deus estabeleceu. A Igreja como Mãe não é metáfora sentimental: é afirmação do papel mediador que a Igreja tem na comunicação da graça de Deus.
São Cipriano, que afirmaste com clareza que a Igreja é Mãe e não apenas instituição, intercedei para que eu ame a Igreja com amor filial — não com a distância crítica de quem analisa uma organização, mas com o amor de quem sabe que a Mãe é imperfeita mas é a única Mãe que tem. Que eu nunca separe o amor a Cristo do amor à Igreja que Cristo fundou. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Terceiro Dia — A Questão dos Lapsos: Misericórdia e Firmeza
Meditação: A questão mais difícil do episcopado de Cipriano foi o que fazer com os “lapsos” — os cristãos que haviam apostatado durante a perseguição de Décio e que queriam regressar à Igreja. A resposta de Cipriano foi o equilíbrio entre dois extremos igualmente errados: o rigorismo novacianos (que negava a possibilidade de perdão após apostasia) e o laxismo de alguns presbíteros (que readmitiam os lapsos sem penitência). Cipriano propôs: penitência real, tempo de prova, e misericórdia final. Esta pastoral do equilíbrio — que não sacrifica a misericórdia pela firmeza nem a firmeza pela misericórdia — é um dos modelos mais sólidos de pastoral das pessoas que falharam gravemente.
São Cipriano, que encontrastes o equilíbrio entre misericórdia e firmeza na pastoral dos lapsos, intercedei pelos que voltam à Igreja depois de um período de afastamento grave. Que encontrem pastores com o equilíbrio de Cipriano: firmes o suficiente para exigir conversão real, misericordiosos o suficiente para não fechar a porta. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Quarto Dia — O Exílio: A Prudência do Pastor
Meditação: Quando a perseguição de Décio começou, Cipriano foi para o exílio — e os seus críticos acusaram-no de cobardia. A sua resposta foi a de um pastor que sabia que a sua morte precoce seria mais útil ao inimigo do que à Igreja: “A minha presença é necessária à Igreja — e fugir não é falta de coragem mas de prudência.” Esta distinção — entre a fuga covarde e a retirada prudente que preserva a capacidade de servir — é uma das mais importantes da ética pastoral cristã. O mártir não é quem morre desnecessariamente: é quem não foge quando é a hora.
São Cipriano, que distinguiste prudentemente entre fuga covarde e retirada pastoralmente necessária, intercedei para que eu aprenda este discernimento. Que eu não confunda coragem com imprudência nem prudência com cobardia. E que quando chegar a minha hora de testemunhar — como chegou a tua em 258 — eu não fuja. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Quinto Dia — A Praga de Cipriano: Pastoral na Epidemia
Meditação: A resposta de Cipriano à epidemia de 252-254 d.C. foi a de um pastor que via na catástrofe não apenas sofrimento mas oportunidade de testemunho. O seu sermão “Sobre a Mortalidade” — pregado durante a epidemia — abordou as questões mais difíceis que os cristãos faziam: por que morrem os cristãos como os pagãos? Por que não somos poupados? A resposta de Cipriano: a morte cristã não é derrota — é transição; e a forma como os cristãos morrem — sem medo, com esperança, cuidando dos outros — é o testemunho mais eloquente da fé que proclamam.
São Cipriano, que pregaste a esperança durante a epidemia que matava os teus fiéis, intercedei pelos que trabalham em saúde em condições de risco. Pelos que morreram de epidemias sem poder dizer adeus à família. E que a forma como os cristãos enfrentam a doença e a morte continue a ser o testemunho mais eloquente da ressurreição que proclamamos. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Sexto Dia — O Conflito com Roma: A Unidade sem Uniformidade
Meditação: Cipriano teve um conflito sério com o Papa Estêvão I sobre a questão do baptismo dos hereges — Cipriano sustentava que o baptismo ministrado fora da Igreja era inválido; Estêvão sustentava que era válido. O conflito foi real e intenso — e nenhum dos dois cedeu completamente. O que é notável é que Cipriano, apesar de discordar do Papa numa questão disciplinar importante, nunca rompeu a comunhão com Roma e nunca deixou de afirmar a unidade da Igreja como valor supremo. Esta capacidade de discordar dentro da comunhão — sem fazer do desacordo motivo de cisma — é um dos modelos mais maduros de eclesiologia católica.
São Cipriano, que discordaste do Papa sem romper com ele, intercedei para que eu aprenda a fidelidade à Igreja que não silencia o discernimento honesto mas que não faz do desacordo motivo de ruptura. Que eu ame a unidade mais do que a minha posição, sem sacrificar a verdade que consciência me dita. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Sétimo Dia — A Oração do Senhor: O Comentário de Cipriano
Meditação: O tratado de Cipriano “Sobre a Oração do Senhor” é um dos comentários mais ricos ao Pai-Nosso que a patrística latina produziu. Cipriano comenta versículo a versículo com uma atenção à ecclesiologia surpreendente: a oração começa com “Pai Nosso” — não “Pai Meu” — porque a oração cristã é sempre comunitária antes de ser individual. “Quando rezamos, não oramos apenas por nós — oramos por todo o povo de Deus.” Esta dimensão comunitária da oração — que Cipriano fundamenta no próprio texto do Pai-Nosso — é a antídoto para a privatização da fé cristã.
São Cipriano, que comentaste o Pai-Nosso como oração de toda a Igreja e não apenas de cada cristão individualmente, intercedei para que eu reze com a consciência comunitária que o “nosso” do Pai-Nosso exige. Que a minha oração se alargue para além das minhas necessidades — para os que sofrem, para os que estão longe de Deus, para a Igreja inteira que ora com cada “Pai Nosso” rezado em qualquer língua do mundo. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oitavo Dia — O Martírio: A Última Palavra
Meditação: O martírio de Cipriano em 14 de setembro de 258 foi preparado com uma dignidade que impressionou a multidão. Chegou ao local da execução, tirou o manto com as próprias mãos, ajoelhou-se, rezou, deu vinte e cinco peças de ouro ao algoz — o gesto de quem não guarda nada para si mesmo — e ofereceu o pescoço com serenidade. A multidão cristã que o acompanhava gritou que também queria ser executada com ele. Esta morte preparada e aceite — que não foi surpresa mas culminação de uma vida inteira orientada para ela — é o sinal mais claro de que Cipriano havia integrado o que pregava.
São Cipriano, que morreste com a serenidade de quem tinha preparado a morte durante toda a vida, intercedei para que eu aprenda a preparar a minha. Que cada dia seja vivido com a consciência de que é o possível último — não com ansiedade mas com a intensidade de quem sabe que o tempo é precioso. E que quando chegar o momento de testemunhar a fé com o que custa, eu tenha a serenidade que só a intimidade com Deus pode dar. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Nono Dia — Consagração Final
Meditação: São Cipriano de Cartago viveu apenas cerca de doze anos como cristão — e desses doze, dez foram de episcopado numa das sedes mais importantes da Igreja. Em dez anos de bispo, atravessou perseguição, exílio, epidemia, cisma e conflito com Roma — e deixou um legado teológico e pastoral que alimenta a reflexão eclesiológica há dezassete séculos. A intensidade da vida de Cipriano — que viveu o equivalente a uma vida inteira de episcopado em apenas dez anos — é sinal de que Deus pode fazer muito com pouco tempo quando a pessoa que usa esse tempo está totalmente disponível.
São Cipriano de Cartago, bispo mártir que em dez anos de episcopado deixou um legado de dezassete séculos, ao terminar esta novena de nove dias eu me comprometo a viver com a mesma intensidade o tempo que Deus me deu — sem desperdiçar em trivialidades o que poderia ser usado para o bem real. Intercedei pelas minhas intenções e pela unidade da Igreja que tanto amaste. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oração de Encerramento (Todos os Dias)
Glorioso São Cipriano de Cartago, bispo e mártir que afirmaste que não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por Mãe e que confirmaste esta fé com o sangue, recebei as orações desta novena e intercedei por mim e pelas minhas intenções junto ao Senhor Jesus. Obtende para mim a graça de amar a Igreja com amor filial, de rezar com consciência comunitária e de viver com a intensidade de quem sabe que o tempo é dom precioso. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Quando Rezar Esta Novena
- De 7 a 15 de setembro — nos nove dias antes da festa de 16 de setembro
- Pela unidade da Igreja — em honra do tratado “De Unitate Ecclesiae”
- Por bispos e pastores em situações de crise
- Durante epidemias ou crises de saúde pública
- Pelos que se converteram em idade adulta
As 10 Perguntas Mais Frequentes sobre São Cipriano de Cartago e Esta Novena
1. Por que São Cipriano é chamado “bispo mártir da unidade”?
São Cipriano recebe este título porque as suas duas contribuições mais importantes foram inseparáveis: a teologia da unidade da Igreja (expressa no tratado “De Unitate Ecclesiae”) e o martírio que a confirmou. Cipriano pregou durante dez anos que a Igreja é una e que a separação dela é separação de Deus — e depois morreu decapitado pelo poder imperial em vez de renegar esta fé. O título “bispo mártir da unidade” exprime esta coerência entre a doutrina que proclamou e a vida que deu por ela.
2. O que significa a frase “não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por Mãe”?
Esta frase de Cipriano, do tratado “De Unitate Ecclesiae” (251 d.C.), afirma que a relação com Deus é mediada pela Igreja. Não é exclusivismo que condena os ignorantes: é advertência para quem conhece a Igreja e a abandona voluntariamente. A teologia subjacente é a da Encarnação: Deus salvou a humanidade não de forma directa mas pela mediação de Cristo, e Cristo age no mundo pela mediação da Igreja e dos sacramentos. Separar-se voluntariamente desta mediação é recusar o caminho que Deus estabeleceu.
3. Quem foram os “lapsos” e como Cipriano os tratou?
Os “lapsos” (do latim lapsus, queda) eram os cristãos que haviam apostatado — renunciado à fé publicamente ou oferecido sacrifício aos deuses pagãos — durante a perseguição do imperador Décio (249-251 d.C.) para escapar à prisão ou à morte. Quando a perseguição terminou, muitos quiseram regressar à Igreja. Cipriano propôs um caminho de meio: penitência real e proporcional à gravidade da apostasia, um período de prova, e readmissão misericordiosa após a penitência. Recusou tanto o rigorismo dos novacianos (que negava qualquer possibilidade de perdão) como o laxismo de alguns presbíteros (que readmitiam sem penitência).
4. O que foi a “Praga de Cipriano” e como a Igreja respondeu?
A “Praga de Cipriano” foi uma epidemia devastadora que assolou o Império Romano de cerca de 249 a 262 d.C. — provavelmente varíola ou febres hemorrágicas — e que em alguns períodos matava cinco mil pessoas por dia só em Roma. Em Cartago, Cipriano organizou a resposta caritativa cristã: mobilizou os ricos para financiar os cuidados, exigiu que os cristãos cuidassem de todos os doentes — pagãos incluídos — e pregou o sermão “Sobre a Mortalidade” para sustentar a esperança dos fiéis. Esta resposta cristã, que não distinguia entre cristão e pagão na hora do cuidado, impressionou os pagãos e foi um dos factores da expansão do Cristianismo no século III.
5. Qual foi o conflito de Cipriano com o Papa Estêvão I?
O conflito entre Cipriano e o Papa Estêvão I (254-257 d.C.) centrou-se na questão do baptismo ministrado pelos hereges: Cipriano sustentava que tal baptismo era inválido e que os que entravam na Igreja vindos de seitas heréticas deviam ser baptizados novamente; Estêvão sustentava que o baptismo válido não dependia da santidade do ministro mas da forma e da intenção, e que portanto o baptismo herético era válido. O conflito foi intenso, com ambos a escrever cartas duras. A Igreja acabou por adoptar a posição de Estêvão — o baptismo herético é válido —, mas a forma como Cipriano discordou sem romper a comunhão é considerada um modelo de fidelidade à unidade dentro do desacordo.
6. Como foi o martírio de São Cipriano de Cartago?
São Cipriano foi preso por ordem do procônsul Galério Máximo em Setembro de 258 d.C., durante a perseguição do imperador Valeriano. Após uma breve audiência em que recusou apostar, foi condenado à morte por decapitação. Chegou ao local da execução — o campo Sexti, fora de Cartago — tirou o manto, ajoelhou-se, rezou em silêncio, vendou os próprios olhos, e pediu que os diáconos dessem vinte e cinco peças de ouro ao algoz. A decapitação foi imediata. A multidão cristã que o acompanhava gritou que também queria morrer com ele. O corpo foi velado pela comunidade e sepultado com honras solenes.

7. Quais são as obras mais importantes de São Cipriano de Cartago?
As obras mais importantes de Cipriano são: “De Unitate Ecclesiae” (Sobre a Unidade da Igreja, 251 d.C.) — o texto fundamental da eclesiologia patrística; “De Lapsis” (Sobre os Caídos, 251 d.C.) — sobre o tratamento dos cristãos que apostataram; “De Dominica Oratione” (Sobre a Oração do Senhor, 252 d.C.) — comentário ao Pai-Nosso; “De Mortalitate” (Sobre a Mortalidade, 252 d.C.) — pregado durante a epidemia; “Ad Donatum” (A Donato, 246 d.C.) — carta autobiográfica sobre a sua conversão; e a vasta correspondência epistolar — 65 cartas preservadas — que é uma das mais ricas fontes para a história da Igreja africana do século III.
8. Por que São Cipriano é venerado tanto por católicos como por ortodoxos e anglicanos?
São Cipriano é venerado ecumenicamente porque a sua morte ocorreu antes do Grande Cisma (1054) que dividiu o Oriente e o Ocidente cristãos, e antes da Reforma (século XVI) que originou o Anglicanismo. Pertence ao período em que a Igreja era una — o que faz dele um Padre comum a todas as tradições cristãs que reconhecem a patrística dos primeiros séculos como autoridade teológica. Além disso, a sua insistência na unidade da Igreja, a sua pastoral equilibrada entre firmeza e misericórdia, e o seu martírio são valores que todas as tradições cristãs reconhecem como exemplares.
9. Qual é a relação entre São Cipriano e Tertuliano?
Tertuliano (c. 155-220 d.C.) foi o maior teólogo latino do período pré-niceno e o fundador da teologia latina. Cipriano estudou as suas obras com tanta intensidade que os seus secretários diziam que pedia frequentemente “dá-me o mestre” — referindo-se ao Tertuliano. A dívida de Cipriano para com Tertuliano é visível na terminologia teológica, na clareza argumentativa e na combatividade do estilo. Paradoxalmente, Tertuliano acabou por aderir ao montanismo — uma seita rigorista — enquanto Cipriano defendeu a misericórdia para com os lapsos. O discípulo foi, neste ponto, mais sábio do que o mestre.
10. Como rezar a Novena de São Cipriano de Cartago para obter maiores frutos espirituais?
Para obter mais frutos nesta novena: ler antes a carta autobiográfica “Ad Donatum” — a mais pessoal das obras de Cipriano — para sintonizar o coração com a voz do santo; definir claramente se as intenções estão mais ligadas à unidade da Igreja, à pastoral de misericórdia, à coragem no sofrimento ou à oração comunitária; rezar o Pai-Nosso devagar e conscientemente após cada oração diária — em honra do comentário que Cipriano dedicou a esta oração; e fazer durante os nove dias um gesto de reconciliação — com alguém com quem haja distância ou conflito — em honra do bispo que passou o episcopado inteiro a trabalhar pela unidade.
Outras Devoções Relacionadas
A devoção a São Cipriano de Cartago aprofunda-se com outros conteúdos do site. A Novena de São Leão Magno complementa — outro grande defensor da unidade da Igreja num século diferente. A Novena de São Gregório Magno aprofunda — outro pastor que respondeu a epidemias e crises com caridade organizada. O Salmo 23 — “o Senhor é o meu pastor” — é o salmo do pastor que Cipriano foi para Cartago. E o Salmo 116 — “preciosa aos olhos do Senhor é a morte dos Seus santos” — é o salmo do mártir decapitado que deu ao algoz vinte e cinco peças de ouro antes de oferecer o pescoço.





