Novena de São Boaventura — 9 Dias de Oração ao Doutor Seráfico
Há um homem que o século XIII produziu como síntese perfeita entre a contemplação mística de Francisco de Assis e o rigor intelectual de Tomás de Aquino — e que realizou esta síntese com uma elegância e uma profundidade que ainda hoje nutrem a teologia e a espiritualidade cristãs. São Boaventura — o Doutor Seráfico — foi o maior teólogo franciscano, o biógrafo oficial de São Francisco, o reformador da Ordem Franciscana quando estava à beira da divisão, e um dos maiores mistérios medievais: o homem que recusou um arcebispado porque estava a lavar a louça.
A sua espiritualidade tem um eixo único: a ascensão da alma para Deus através das criaturas, da Escritura, das virtudes e da contemplação. A obra mais famosa de Boaventura — o “Itinerário da Mente para Deus” — escrita em três dias no Monte Alverne, o lugar onde Francisco recebeu os estigmas, é um dos textos mais belos e mais profundos da mística cristã. Não é um tratado académico: é um mapa espiritual, escrito com o ardor de quem está a fazer a viagem que descreve.
São Boaventura morreu em 1274 — no mesmo ano em que Tomás de Aquino, e durante o II Concílio de Lyon onde havia trabalhado pela união das Igrejas do Oriente e do Ocidente. Os dois maiores teólogos do século XIII morreram no mesmo ano. O universo intelectual medieval que ambos haviam construído ficou mais pobre — e mais rico pela herança que deixaram.
Quem Foi São Boaventura
Giovanni di Fidanza nasceu em 1221 em Bagnoregio, na Toscânia, filho de um médico. Em criança, foi curado de uma doença grave — a tradição atribui a cura à intercessão de São Francisco de Assis, que alegadamente disse ao ver o menino: “Oh, boa ventura!” — daí o nome pelo qual seria conhecido.
Estudou em Paris, onde foi aluno de Alexandre de Hales, o primeiro grande teólogo franciscano. Entrou para a Ordem Franciscana em 1243. Doutorou-se em 1257 — no mesmo dia que Tomás de Aquino, com quem manteve sempre uma relação de mútuo respeito e admiração intelectual.
Em 1257 foi eleito Ministro Geral da Ordem Franciscana — numa época de crise profunda entre os “Espirituais” (que queriam pobreza absoluta radical) e os “Conventuais” (que admitiam a moderação). Boaventura navegou entre as duas correntes com sabedoria diplomática e espiritual extraordinária, mantendo a unidade da Ordem durante dezassete anos.
Escreveu a biografia oficial de Francisco de Assis (“Legenda Maior”), as “Colações sobre os Seis Dias da Criação”, o “Itinerário da Mente para Deus”, o “Breviário de Redução das Artes à Teologia” e uma vasta obra teológica. Em 1273, o Papa Gregório X nomeou-o Cardeal-Bispo de Albano — e segundo a tradição, os legados papais encontraram-no a lavar a louça no convento e esperaram que terminasse. Morreu em Lyon em 15 de julho de 1274. Canonizado em 1482, declarado Doutor da Igreja por Sisto IV. A sua festa é celebrada em 15 de julho.
Como Rezar Esta Novena
Faça o sinal da cruz e recite a oração de abertura
Leia a meditação do dia
Apresente a sua intenção específica
Recite a oração do dia
Reze o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Glória ao Pai
Encerre com a oração de encerramento
Oração de Abertura (Todos os Dias)
Glorioso São Boaventura, Doutor Seráfico e mestre da ascensão da alma para Deus, intercedei por mim nesta novena. Vós que unistes a profundidade intelectual com o ardor místico de Francisco, intercedei para que eu também integre o pensamento e a contemplação na minha busca de Deus. Amém.
Primeiro Dia — “Oh, Boa Ventura!”
Meditação: A cura de Boaventura em criança — atribuída à intercessão de Francisco de Assis — e a exclamação “Oh, boa ventura!” que Francisco teria feito ao ver o menino curado, é o símbolo de toda a sua vida: a graça que o precedeu, a cura que o marcou, e o nome que carregaria pela história. Boaventura viveu como resposta a uma graça recebida antes de a poder merecer. Esta precedência da graça — que cura antes de pedirmos, que marca antes de entendermos — é a base de toda a espiritualidade de Boaventura.
São Boaventura, curado pela graça antes de a poder merecer, intercedei para que eu viva com a consciência das graças que recebi antes de as poder merecer. Que a gratidão pela vida, pela saúde, pela fé — graças anteriores a qualquer mérito — seja o fundamento da minha relação com Deus. Amém.
Segundo Dia — O Itinerário da Mente para Deus
Meditação: O “Itinerário da Mente para Deus” — escrito em três dias no Monte Alverne, o lugar dos estigmas de Francisco — é o maior texto de Boaventura e um dos mais belos da mística cristã. Em seis etapas progressivas, Boaventura conduz a alma de Deus nas criaturas a Deus na Escritura, de Deus nas virtudes a Deus na alma, até chegar à contemplação da unidade e da trindade divinas. Este caminho ascendente — que vai do exterior ao interior, do inferior ao superior — é o programa espiritual que toda a sua vida exprimiu.
São Boaventura, guia do itinerário da mente para Deus, intercedei para que a minha vida espiritual seja um caminho real de ascensão — da superfície à profundidade, do exterior ao interior, das criaturas ao Criador. Que cada dia seja um passo neste itinerário e não um círculo no mesmo lugar. Amém.
Terceiro Dia — A Louça Lavada antes do Cardinalato
Meditação: Quando os legados papais chegaram ao convento para comunicar a nomeação de Boaventura como cardeal, encontraram-no a lavar a louça. Pediu-lhes que esperassem até terminar. Este gesto — de terminar o trabalho humilde antes de receber a honra — é a expressão mais eloquente da sua humildade. O maior teólogo franciscano não se considerava acima do serviço mais baixo da comunidade. A grandeza intelectual de Boaventura não o tinha elevado acima da louça do convento.
São Boaventura, que lavastes a louça antes de receber o cardinalato, intercedei para que eu mantenha a humildade nos momentos de reconhecimento. Que as honras que possa receber não me afastem do serviço concreto e humilde que é a expressão mais genuína da santidade. E que eu termine sempre a louça antes de receber o cardinalato. Amém.
Quarto Dia — A Síntese de Francisco e Aristóteles
Meditação: Boaventura realizou uma síntese que parecia impossível: a espiritualidade ardente e pobre de Francisco de Assis e o rigor filosófico de Aristóteles e Agostinho. Esta síntese — que não sacrifica nem a mística ao intelecto nem o intelecto à mística — é a contribuição mais original do pensamento bonaventuriano. Boaventura não escolheu entre Francisco e Aristóteles: mostrou que são complementares quando a teologia tem Cristo no centro.
São Boaventura, que uniste Francisco e Aristóteles em síntese perfeita, intercedei para que eu não ceda à tentação de escolher entre a fé que sente e a fé que pensa. Que o ardor espiritual seja sempre nutrido pelo pensamento rigoroso e que o pensamento rigoroso seja sempre inflamado pelo ardor espiritual. Amém.
Quinto Dia — Ministro Geral da Crise Franciscana
Meditação: Boaventura governou a Ordem Franciscana durante dezassete anos num período de crise profunda. Os “Espirituais” exigiam pobreza absoluta radical; os “Conventuais” admitiam a adaptação. Boaventura navegou entre as duas correntes com sabedoria e serenidade — nem reprimindo os espirituais nem cedendo à laxidão dos conventuais. Esta capacidade de governar uma crise sem se deixar capturar por nenhum dos extremos é uma das formas mais difíceis de sabedoria pastoral.
São Boaventura, que governaste a crise franciscana sem ceder aos extremos, intercedei pelos líderes da Igreja que governam em tempo de polarização e crise. Que tenham a sabedoria de navegar entre extremos sem perder a verdade essencial. E intercedei para que eu também não me deixe capturar pelos extremos quando a pressão dos dois lados é forte. Amém.
Sexto Dia — A Biografia de São Francisco
Meditação: A “Legenda Maior” de Boaventura — a biografia oficial de São Francisco que ele escreveu como Ministro Geral — é o documento mais influente sobre a figura de Francisco e uma das obras literárias mais belas do século XIII. Boaventura não foi contemporâneo de Francisco — mas fez a investigação histórica, entrevistou os que o conheceram, e produziu um retrato que equilibra o historicamente verificável com a interpretação teológica. A memória fiel que transmite a herança sem a trair é um dos serviços mais importantes que se pode prestar a um fundador.
São Boaventura, biógrafo fiel de São Francisco, intercedei para que eu transmita fielmente o que recebi — a fé, a tradição, os testemunhos que moldarama minha vida. Que eu não distorça nem a herança que guardo nem as histórias que conto. E que a fidelidade à memória seja o fundamento da criatividade para o futuro. Amém.
Sétimo Dia — A Redução das Artes à Teologia
Meditação: O “Breviário de Redução das Artes à Teologia” — um dos textos mais originais de Boaventura — argumenta que todas as ciências e artes convergem para a teologia como o seu ponto de chegada natural. A filosofia, as ciências naturais, as artes mecânicas, as artes liberais — todas são iluminações progressivas que culminam na luz divina da Sagrada Escritura. Esta visão sapiencial da totalidade do saber como caminho para Deus é a contribuição epistemológica mais ousada de Boaventura.
São Boaventura, que viste todas as artes como caminho para a teologia, intercedei para que eu aprenda a encontrar Deus em todas as disciplinas que estudo e em todos os campos onde trabalho. Que não haja sectores da vida intelectual ou profissional que sejam impermeáveis à presença de Deus. E que a totalidade do saber que acumulo me conduza, como vós ensináveis, até ao saber que importa mais. Amém.
Oitavo Dia — O Concílio de Lyon e a União das Igrejas
Meditação: Boaventura participou activamente no II Concílio de Lyon (1274) e trabalhou pela reunião da Igreja ortodoxa com Roma — um dos objectivos mais antigos e mais difíceis do ecumenismo cristão. Morreu durante o Concílio, em julho de 1274, sem ver a união realizada. Mas o trabalho que realizou em Lyon — as negociações, os documentos, as liturgias — foi parte essencial do processo. E o seu empenho pela unidade dos cristãos, pagou com a vida sem ver o resultado, é modelo de todo o serviço ecumênico.
São Boaventura, que trabalhastes pela unidade dos cristãos sem ver o resultado, intercedei pela unidade da Igreja. Pela aproximação entre católicos e ortodoxos. Que o trabalho paciente pelo ecumenismo, mesmo quando não produz resultados visíveis na nossa geração, seja continuado com a mesma fidelidade com que vós o exercestes em Lyon. Amém.
Nono Dia — Consagração Final
Meditação: Chegamos ao último dia. São Boaventura morreu em Lyon em 15 de julho de 1274 — o mesmo ano que Tomás de Aquino, o mesmo ano em que o II Concílio de Lyon tentava a reunião das Igrejas. Como se o século XIII não pudesse sobreviver a estes dois gigantes: quando partiram, a era dourada da escolástica partiu com eles. Mas o que deixaram — a Suma Teológica de Tomás, o Itinerário de Boaventura — ainda alimenta a Igreja oito séculos depois. A obra dos grandes não morre com eles.
São Boaventura, Doutor Seráfico, ao terminar esta novena eu me comprometo a percorrer o Itinerário que traçaste — da criatura ao Criador, da superfície à profundidade, do pensamento à contemplação. Intercedei pelas intenções desta novena. E que a síntese que realizaste — entre Francisco e Aristóteles, entre mística e razão, entre contemplação e acção — inspire a minha vida cristã. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oração de Encerramento (Todos os Dias)
Glorioso São Boaventura, Doutor Seráfico e mestre do Itinerário da mente para Deus, recebei as orações desta novena. Intercedei por mim e pelas minhas intenções junto ao Senhor Jesus. Que a vossa síntese de inteligência e contemplação inspire a minha vida cristã. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Quando Rezar Esta Novena
De 6 a 14 de julho — nos nove dias antes da festa de 15 de julho
Para integrar teologia e mística
Por estudantes e académicos franciscanos
Para pedir sabedoria na governação de comunidades em crise
Pelo ecumenismo e união das Igrejas
Outras Devoções Relacionadas
A devoção a São Boaventura se aprofunda com outros conteúdos do site. A Novena de São Francisco de Assis complementa — Boaventura foi o maior intérprete e biógrafo de Francisco. A Novena de São Alberto Magno aprofunda — contemporâneo de Boaventura, outro grande Doutor do século XIII que integrou fé e razão. O Salmo 42 — “como o cervo anseia pelas águas, assim a minha alma anseia por Ti” — exprime o desejo de Deus que Boaventura descreveu no Itinerário. E o Salmo 104 — “quão numerosas são as Tuas obras, Senhor! Com sabedoria as fizeste todas” — é o salmo do teólogo que vê Deus em todas as criaturas como Boaventura ensinou no Itinerário.