Novena de Santa Clara de Assis — 9 Dias de Oração à Fundadora das Clarissas
Há uma mulher que ouviu Francisco de Assis pregar uma única vez — e que largou tudo naquela noite para o seguir. Santa Clara de Assis foi a primeira mulher a escrever uma Regra para a vida religiosa feminina, a primeira a obter do Papa o “Privilégio da Pobreza” — o direito de não possuir nada, absolutamente nada, nem sequer como comunidade — e a primeira a resistir com êxito durante quarenta anos às pressões constantes da cúria romana para que as suas freiras aceitassem possuir propriedades.
A história de Clara é em muitos sentidos mais radical do que a de Francisco. Francisco lutou com a questão da pobreza durante toda a vida — e a Ordem Franciscana masculina acabou por aceitar compromissos que ele nunca quis. Clara nunca cedeu. Quarenta e dois anos de clausura no convento de San Damiano, sem nunca sair, sem possuir nada, sem aceitar os privilégios que a sua família nobre poderia reclamar. E no leito de morte, quando finalmente recebeu aprovação papal para a sua Regra, disse: “Senhor, sede bendito por me haverdes criado.”
Santa Clara de Assis é a padroeira da televisão — porque uma noite, demasiado doente para ir à Missa de Natal, viu e ouviu a celebração na parede do quarto, milagrosamente. Esta patronagem improvável é sinal da universalidade do seu carisma: a contemplativa que não saía do convento é padroeira da comunicação que atravessa paredes.
Quem Foi Santa Clara de Assis
Chiara Offreduccio nasceu em 16 de julho de 1194 em Assis, filha de uma família nobre e rica — Favarone di Offreduccio e Ortolana di Fiumi. Era a primogénita, destinada a um casamento vantajoso que consolidaria o prestígio familiar.
Quando tinha dezoito anos, ouviu Francisco de Assis pregar durante a Quaresma na Catedral de São Rufino. O que ouviu transformou-a. Na noite do Domingo de Ramos de 1212, fugiu de casa com uma amiga, descendo pela janela, e foi ao encontro de Francisco e dos seus companheiros na Porciúncula. Francisco cortou-lhe o cabelo e deu-lhe um hábito rude — o sinal da renúncia ao mundo que ela havia escolhido.
O pai tentou recuperá-la pela força. Clara resistiu — agarrada ao altar como pedido de asilo sagrado. Acabou por ser instalada no convento de San Damiano — a pequena igreja que Francisco havia reparado com as próprias mãos — e ali ficou quarenta e dois anos, até à morte.
Fundou a Ordem das Damas Pobres — mais tarde chamadas Clarissas ou Poor Clares. A sua irmã Inês seguiu-a dias depois. A mãe viúva e outra irmã mais tarde juntaram-se a ela. Francisco era o director espiritual; Clara era a abbadessa que governava a comunidade.
A batalha mais importante da sua vida foi o “Privilégio da Pobreza” — o direito de a comunidade não possuir nada, nem como propriedade colectiva. O Papa Inocêncio III concedeu-lhe em 1216. Mas os papas seguintes queriam revogar o privilégio — era canonicamente anómalo ter uma comunidade religiosa sem patrimônio. Clara resistiu durante décadas. Dois dias antes de morrer, em 11 de agosto de 1253, o Papa Inocêncio IV assinou a aprovação final da sua Regra — com o Privilégio da Pobreza intacto. Clara morreu em 11 de agosto de 1253, com 59 anos. Canonizada em 1255, apenas dois anos após a morte. A sua festa é celebrada em 11 de agosto.
Como Rezar Esta Novena
Faça o sinal da cruz e recite a oração de abertura
Leia a meditação do dia
Apresente a sua intenção específica
Recite a oração do dia
Reze o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Glória ao Pai
Encerre com a oração de encerramento
Oração de Abertura (Todos os Dias)
Gloriosa Santa Clara de Assis, fundadora das Clarissas e campeã da pobreza evangélica, intercedei por mim nesta novena. Vós que resististes quarenta anos às pressões do mundo para que cedesses, intercedei para que eu também mantenha as convicções que Deus me deu sem ceder à pressão do que é mais fácil. Amém.
Primeiro Dia — A Fuga na Noite do Domingo de Ramos
Meditação: Clara desceu pela janela na noite do Domingo de Ramos de 1212 — a noite em que a Igreja distribui os ramos de oliveira em sinal de consagração. Esta coincidência litúrgica não escapava a ninguém: Clara escolheu o dia da consagração para a sua própria consagração radical. E desceu pela janela — a mesma via de fuga de quem não pode sair pela porta. Às vezes, a obediência a Deus não pode esperar pela aprovação dos que guardam as portas.
Santa Clara, que fugiste na noite do Domingo de Ramos, intercedei para que eu também tenha a coragem de escolher Deus quando os que guardam as portas dizem não. Que a minha fidelidade a Deus não seja condicionada pela aprovação humana. E que quando Deus me chama claramente, eu desça pela janela se for necessário. Amém.
Segundo Dia — O Privilégio da Pobreza
Meditação: O “Privilégio da Pobreza” que Clara obteve — e defendeu durante quarenta anos — é um paradoxo linguístico extraordinário: um privilégio que consiste em não ter nada. A cúria romana achava impossível uma comunidade religiosa sem patrimônio. Clara achava impossível uma comunidade que pretendia imitar Cristo sem a pobreza radical que Cristo havia vivido. Esta convicção — que a pobreza não é meio mas fim, não instrumento de santidade mas expressão da santidade — é a contribuição mais original de Clara à teologia franciscana.
Santa Clara, campeã do Privilégio da Pobreza, intercedei para que eu compreenda a pobreza evangélica não apenas como virtude pessoal mas como testemunho comunitário. Que a Igreja seja credível para os pobres por ser pobre com os pobres. E que eu não acumule além do necessário enquanto há irmãos a passar necessidade. Amém.
Terceiro Dia — “Senhor, Sede Bendito por Me Haverdes Criado”
Meditação: As últimas palavras de Santa Clara — “Senhor, sede bendito por me haverdes criado” — são de uma gratidão pura que só pode nascer de uma vida completamente reconciliada com a existência que teve. Não “sede bendito pelas graças que recebi”, não “sede bendito pelo que realizei” — “sede bendito por me haverdes criado.” O simples facto de existir — com tudo o que a existência de Clara implicou, incluindo os quarenta anos de clausura e a batalha pela pobreza — é razão suficiente para a gratidão última.
Santa Clara, que morreste com gratidão pela simples existência, intercedei para que eu aprenda esta gratidão radical. Que eu não precise de resultados extraordinários para ser grato. Que o simples facto de existir — de ter sido criado, de ter sido amado por Deus antes de qualquer mérito — seja razão suficiente para a gratidão da minha vida. Amém.
Quarto Dia — A Primeira Escritora de uma Regra Feminina
Meditação: Santa Clara foi a primeira mulher na história da Igreja a escrever uma Regra para a vida religiosa feminina — e a obter aprovação papal para ela. As outras regras para comunidades femininas haviam sido escritas por homens. Clara escreveu a sua — e batalhou durante décadas para que fosse aprovada sem as modificações que a tornariam irreconhecível. Esta autoria é significativa: a vida consagrada feminina tem o direito de se definir a si mesma, com a sua especificidade, sem precisar de ser uma versão modificada da vida masculina.
Santa Clara, primeira escritora de uma Regra feminina, intercedei pelas mulheres consagradas de hoje. Pela sua autonomia espiritual, pela sua especificidade carismática, pelo seu direito de viver o Evangelho segundo as suas formas próprias. E intercedei para que a Igreja continue a acolher a diversidade dos carismas femininos com a abertura que demorou a ter com vós. Amém.
Quinto Dia — O Espelho e a Luz
Meditação: Nas cartas de Clara à Beata Inês de Praga, ela usa a imagem do espelho para descrever a contemplação: “Colocai vos espelho da vossa alma cada dia diante da face deste espelho e olhai sempre o vosso rosto nele.” O espelho é Cristo — e a contemplativa que se mira n’Ele é gradualmente transformada na imagem que vê. Esta espiritualidade do espelho — que a contemplação é transformação pela visão de Cristo — é uma das contribuições mais belas de Clara à mística cristã.
Santa Clara, mística do espelho que é Cristo, intercedei para que eu aprenda a contemplar o rosto de Cristo com a regularidade e a atenção que a contemplação exige. Que quando me mirar no espelho de Cristo, eu seja transformado progressivamente naquilo que vejo. E que a minha vida se torne cada vez mais imagem de Cristo. Amém.
Sexto Dia — A Missa de Natal Vista na Parede
Meditação: A tradição que tornou Clara padroeira da televisão: numa noite de Natal, demasiado doente para se levantar, Clara viu e ouviu a Missa celebrada na basílica de São Francisco na parede do seu quarto. Esta visão — que o Papa Pio XII interpretou como antecipação da televisão quando declarou Clara sua padroeira em 1958 — é também metáfora da contemplação: a clausura não limita — aprofunda o alcance. A contemplativa que não sai do convento vê o que os activos não param para ver.
Santa Clara, padroeira da televisão e de todos os meios de comunicação, intercedei pelos jornalistas, comunicadores e criadores de conteúdo. Que usem os seus meios para levar verdade e beleza ao mundo. E intercedei para que eu use os meios de comunicação com discernimento — aproveitando o que edificam e evitando o que destroem a vida interior. Amém.
Sétimo Dia — Clara e Francisco: A Amizade Espiritual
Meditação: A amizade entre Clara e Francisco é uma das mais belas e mais complexas da história da espiritualidade. Francisco foi o inspirador da vocação de Clara; Clara foi a confirmação vivente de que o ideal franciscano era vivível também pelas mulheres. Mas a relação foi marcada por tensões — Francisco hesitava em assumir a direcção espiritual das Clarissas, receando que isso desviasse os seus frades da vida itinerante. E ainda assim, a gratidão de Clara a Francisco foi inabalável — mesmo quando ele estava ausente.
Santa Clara, amiga espiritual de Francisco, intercedei pelas amizades espirituais que formam e que sustentam. Pelos directores espirituais e pelos seus directandos. E intercedei para que eu também encontre — e seja — o amigo espiritual que sustenta a vocação do outro mesmo quando a proximidade não é possível. Amém.
Oitavo Dia — As Clarissas: Quarenta e Dois Anos de Clausura
Meditação: Clara não saiu do convento de San Damiano durante quarenta e dois anos — de 1212 a 1253. Esta fidelidade ao lugar — que contrasta com a mobilidade de Francisco — é de uma coerência espiritual extraordinária. A clausura de Clara não era prisão: era escolha livre, reiterada todos os dias durante quatro décadas, de que este lugar, estas paredes, estas irmãs eram o mundo que Deus lhe havia dado. A fidelidade ao lugar é uma das formas mais exigentes de fidelidade.
Santa Clara, fiel a San Damiano durante quarenta e dois anos, intercedei para que eu aprenda a fidelidade ao lugar e às pessoas que Deus me deu. Que eu não fuja constantemente à procura de circunstâncias melhores. E que descubra, como vós, que a profundidade possível num único lugar é infinitamente maior do que a superficialidade de mil lugares diferentes. Amém.
Nono Dia — Consagração Final
Meditação: Chegamos ao último dia. Santa Clara morreu dois dias depois de receber a aprovação final da sua Regra. Como se a batalha de quarenta anos houvesse chegado ao fim exactamente a tempo — não antes, não depois. Esta providência precisa — que deixou Clara batalhar por quarenta anos mas que lhe concedeu ver o fim antes de morrer — é sinal do cuidado de Deus que não deixa nenhuma missão incompleta. Clara cumpriu o que havia recebido — completamente.
Santa Clara de Assis, ao terminar esta novena, eu me comprometo a batalhar pelas convicções que Deus me deu com a tenacidade com que vós batalhastes pelo Privilégio da Pobreza. Intercedei pelas intenções desta novena. E que a gratidão das vossas últimas palavras — “sede bendito por me haverdes criado” — seja também a minha última palavra. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oração de Encerramento (Todos os Dias)
Gloriosa Santa Clara de Assis, fundadora das Clarissas e padroeira da televisão, recebei as orações desta novena. Intercedei por mim e pelas minhas intenções junto ao Senhor Jesus. Que a vossa pobreza corajosa e a vossa contemplação profunda inspirem a minha vida cristã. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Quando Rezar Esta Novena
De 2 a 10 de agosto — nos nove dias antes da festa de 11 de agosto
Por comunicadores e jornalistas — em honra da padroeira da televisão
Para aprofundar a pobreza evangélica
Pelas Clarissas e comunidades contemplativas
Para aprender a fidelidade ao lugar e às pessoas
Outras Devoções Relacionadas
A devoção a Santa Clara se aprofunda com outros conteúdos do site. A Novena de São Francisco de Assis complementa — Francisco foi o inspirador da vocação de Clara e o modelo que ela seguiu radicalmente. A Novena de Santa Teresinha aprofunda — outra contemplativa de clausura cuja vida interior transformou a Igreja. O Salmo 63 — “ó Deus, Tu és o meu Deus, e eu Te busco ansiosamente” — é o salmo da contemplação de Clara que buscava a Deus em San Damiano. E o Salmo 131 — “Senhor, não se eleva o meu coração… acalmei e sosseguei a minha alma” — exprime a humildade contemplativa que Clara viveu quarenta e dois anos em clausura.