Há santos que mudam o mundo sem sair do quarto — e santos que mudam o mundo percorrendo-o. Santa Catarina de Siena foi das segundas — mas começou na primeira categoria. Filha de um tintureiro, a mais nova de vinte e cinco filhos, sem educação formal, aprendeu a ler sozinha aos vinte anos. E ainda assim, escreveu um dos maiores textos místicos da história cristã, forçou o regresso do Papa de Avinhão para Roma, mediou conflitos entre cidades-estado italianas, e foi declarada Doutora da Igreja — uma das poucas mulheres a receber este título — por Paulo VI em 1970.
Catarina de Siena viveu apenas 33 anos. E nesse tempo compressionado viveu como se tivesse cem — porque quem vive perto de Deus não desperdiça o tempo que recebe.
A sua espiritualidade tem dois pilares indissociáveis: o amor contemplativo a Deus — expresso no “Diálogo da Divina Providência”, ditado em êxtase — e a acção apostólica corajosa — as centenas de cartas a papas, cardeais, reis e rainhas, que não usavam a linguagem da corte mas a linguagem de uma filha de Deus que não temia dizer a verdade ao poder.
Quem Foi Santa Catarina de Siena
Catarina Benincasa nasceu em 25 de março de 1347 em Siena, Itália, a penúltima de vinte e cinco filhos de Giacomo Benincasa, tintureiro, e Lapa di Puccio di Piagente. Desde criança manifestou uma espiritualidade extraordinária — aos seis anos teve a primeira visão de Cristo glorioso, e aos sete fez voto privado de virgindade.
A família tentou casá-la. Catarina resistiu — cortou o cabelo para se tornar menos atraente, jejuou, passou noites em oração. Finalmente, conseguiu entrar para as “Mantellate” — as terceiras dominicanas que viviam no mundo — e passou três anos de vida contemplativa quase totalmente retirada no seu quarto. Desta clausura de quatro anos nasceu o “Diálogo” e a formação espiritual que sustentaria toda a sua acção posterior.
Saiu do quarto para servir os pobres e os doentes — incluindo os leprosos e os condenados à morte. Reuniu em torno de si um grupo de discípulos — “la bella brigata” — de todos os estados sociais: sacerdotes, nobres, artesãos, ex-prostitutas, antigos criminosos. Ditou centenas de cartas — não sabia escrever com fluência até tarde.
Em 1376, foi a Avinhão encontrar o Papa Gregório XI — que havia mantido a sede papal em França durante setenta anos — e convenceu-o a regressar a Roma. As suas cartas ao papa são notáveis: chamava-o de “doce Cristo na terra” mas não poupava as críticas quando o achava fraco ou vacilante.
Morreu em Roma em 29 de abril de 1380, com 33 anos, exausta pelo jejum prolongado e pelos sofrimentos místicos. Canonizada em 1461, declarada Doutora da Igreja em 1970 e co-padroeira da Europa em 1999. A sua festa é celebrada em 29 de abril.
Como Rezar Esta Novena
Faça o sinal da cruz e recite a oração de abertura
Leia a meditação do dia
Apresente a sua intenção específica
Recite a oração do dia
Reze o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Glória ao Pai
Encerre com a oração de encerramento
Oração de Abertura (Todos os Dias)
Gloriosa Santa Catarina de Siena, Doutora da Igreja e apóstola da paz, que vivestes em plenitude os trinta e três anos que Deus vos deu, intercedei por mim nesta novena. Vós que amamostes Deus com toda a intensidade da vossa alma e servistest o mundo com toda a energia do vosso corpo, intercedei para que eu também integre a contemplação e a acção na minha vida cristã. Amém.
Primeiro Dia — “Sede Quem Deveis Ser”
Meditação: A frase mais famosa de Santa Catarina — “Sede quem deveis ser e incendiareis o mundo” — encapsula toda a sua espiritualidade. Não “sede o que os outros esperam que sejais.” Não “sede o que a sociedade considera valioso.” Sede quem deveis ser — a pessoa que Deus criou e chamou, com os dons específicos que recebeu, na missão que lhe foi confiada. Catarina foi exactamente quem devia ser — filha de tintureiro sem educação formal que escreveu teologia profunda e moveu papas — e incendiou o mundo.
Santa Catarina, que fostes quem devíeis ser sem pedir desculpa, intercedei para que eu também descubra e viva a pessoa que Deus criou em mim. Que eu não desperdice a vida a ser uma versão pálida de outra pessoa. Que eu seja — com toda a intensidade que Deus pediu — exactamente eu. Amém.
Segundo Dia — O Quarto Interior
Meditação: Quando a família de Catarina tornou a vida difícil para impedir a sua vida contemplativa, ela desenvolveu a espiritualidade do “quarto interior” — a cela interior da alma onde Deus habita e que ninguém pode invadir. “Construí um quarto interior na vossa alma” — dizia Catarina. Mesmo no meio da agitação doméstica, Catarina habitava este quarto de silêncio interior. Esta espiritualidade — a interioridade que não depende das condições externas — é um dos contributos mais práticos e mais necessários de Catarina para o cristão contemporâneo.
Santa Catarina, que habitavas o quarto interior mesmo no meio do caos exterior, intercedei para que eu construa e habite este mesmo quarto. Que o silêncio interior não dependa do silêncio exterior. Que eu possa estar com Deus no meio do barulho, do trabalho e das relações exigentes. Amém.
Terceiro Dia — O Diálogo da Divina Providência
Meditação: O “Diálogo da Divina Providência” — o grande livro de Catarina, ditado em êxtase — é uma conversa entre a alma e Deus. Nele, Deus fala directamente à alma sobre a oração, a obediência, a providência, a misericórdia. Uma das imagens mais poderosas do livro é a “ponte” — Cristo como ponte sobre o abismo do pecado que une a humanidade a Deus. Esta imagem arquitectónica — vinda de uma cidade de pontes, Siena — é de uma profundidade teológica e de uma beleza poética que justificam o título de Doutora da Igreja.
Santa Catarina, doutora do “Diálogo”, intercedei para que eu também aprenda a dialogar com Deus — não apenas a monologar. Que a oração seja conversa real: falar e escutar, pedir e receber respostas. Que eu traverse a ponte que é Cristo até chegar ao Pai que está do outro lado. Amém.
Quarto Dia — As Cartas ao Papa
Meditação: Catarina escreveu ao Papa Gregório XI com uma franqueza que não era desrespeito mas amor exigente. Chamava-o de “dolce Cristo in terra” — doce Cristo na terra — e depois dizia-lhe coisas que os cardeais não se atreviam: que era fraco, que cedía ao medo, que devia regressar a Roma. Esta combinação — o amor que honra e a verdade que exige — é o modelo de toda a coragem profética cristã. A adulação que nunca critica não é amor: é medo disfarçado de respeito.
Santa Catarina, que dizias a verdade ao Papa com amor e sem medo, intercedei para que eu também aprenda a dizer a verdade com amor. Que o meu amor pelos que dirijo ou com quem convivo seja exigente o suficiente para dizer o que precisa de ser dito — com a ternura do “doce Cristo na terra” e a coragem da filha de Deus que não silencia perante o erro. Amém.
Quinto Dia — O Serviço aos Mais Pobres
Meditação: Catarina servia pessoalmente os mais pobres e os mais repugnantes — leprosos, presos condenados, doentes terminais. Havia em Siena um condenado à morte, Niccolò di Toldo, que recusava os sacramentos com raiva. Catarina foi visitá-lo, conquistou a sua confiança, preparou-o espiritualmente — e esteve presente à decapitação, recebendo literalmente a cabeça no colo. Este serviço sem limite ao mais pequeno é a contrapartida contemplativa do “Diálogo” — a mesma intensidade que Catarina levava à oração levava ao serviço.
Santa Catarina, que servistest os mais repugnantes com a mesma intensidade com que amavas a Deus, intercedei para que eu não separe o amor a Deus do amor ao próximo. Que o tempo que passo em oração alimente o tempo que passo em serviço. E que o serviço que presto seja tão intenso e tão amoroso como o vosso foi. Amém.
Sexto Dia — O Regresso do Papa a Roma
Meditação: Quando Catarina foi a Avinhão encontrar o Papa Gregório XI — que vivia em França há setenta anos e parecia decidido a ficar — ela era uma filha de tintureiro sem cargo, sem título, sem exército. Tinha apenas a força da verdade e o ardor da fé. E conseguiu. O papa regressou a Roma. Este episódio extraordinário — uma jovem do povo que muda a história da Igreja falando com verdade ao poder — é a prova mais eloquente de que a santidade tem mais poder do que todos os exércitos e todos os títulos.
Santa Catarina, que moveste o Papa com a força da fé e da verdade, intercedei para que eu não subestime o poder da oração e do testemunho autêntico. Que eu não pense que sou demasiado pequeno para fazer diferença. Que eu lembre que Catarina era filha de tintureiro — e moveu o Papa. Amém.
Sétimo Dia — Co-Padroeira da Europa
Meditação: Em 1999, o Papa João Paulo II proclamou Santa Catarina de Siena co-padroeira da Europa — juntamente com São Bento, Santos Cirilo e Metódio, Santa Brígida da Suécia e Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein). Esta escolha de uma mulher do século XIV como modelo para a Europa do século XXI é profética: a Europa que Catarina sonhou — unida na fé, corajosa na verdade, servidora dos pobres — é ainda o ideal pelo qual vale a pena trabalhar.
Santa Catarina, co-padroeira da Europa, intercedei pela Europa de hoje. Pela renovação das raízes cristãs do continente. Pela coragem de dizer a verdade aos poderes políticos como vós a dissestes ao poder eclesiástico. E que a Europa reencontre no Evangelho a fonte da dignidade humana que tanto proclama mas cuja raiz teológica tanto esquece. Amém.
Oitavo Dia — Doutora da Igreja
Meditação: Em 1970, Paulo VI declarou Santa Catarina Doutora da Igreja — a segunda mulher a receber este título (depois de Santa Teresa de Ávila, declarada no mesmo dia). Uma mulher que aprendeu a ler em adulta, que ditou as suas obras porque não as conseguia escrever com fluência, que nunca frequentou uma universidade — Doutora da Igreja. A doutrina que Catarina ensinava não nasceu dos livros mas da experiência mística e do serviço concreto. A Igreja reconheceu que há formas de conhecimento teológico que transcendem a academia.
Santa Catarina, Doutora da Igreja apesar da pouca instrução formal, intercedei para que eu aprenda que a sabedoria mais profunda não está nos títulos mas na experiência viva de Deus. Que eu busque o conhecimento de Deus na oração, no serviço e na vida — não apenas nos livros. E que a minha vida seja um testemunho tão eloquente quanto os vossos escritos. Amém.
Nono Dia — “Incendiareis o Mundo”
Meditação: Chegamos ao último dia. “Sede quem deveis ser e incendiareis o mundo.” Catarina incendiou o seu. Trinta e três anos, sem educação formal, sem cargo, sem exército, sem meios materiais relevantes — e moveu papas, converteu criminosos, curou leprosos, escreveu teologia que ainda alimenta a Igreja, foi proclamada Doutora e co-padroeira da Europa. Tudo começou no quarto interior onde construiu a sua cela de silêncio. Tudo começou com “sede quem deveis ser.”
Santa Catarina de Siena, ao terminar esta novena, eu aceito o convite: quero ser quem devo ser. Intercedei pelas intenções desta novena. E que o fogo que vós deixastes queimar chegue também à minha vida — que eu incendeie, à minha escala, o pequeno mundo que Deus me confiou. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oração de Encerramento (Todos os Dias)
Gloriosa Santa Catarina de Siena, Doutora da Igreja, apóstola da paz e co-padroeira da Europa, recebei as orações desta novena. Intercedei por mim e pelas minhas intenções junto ao Senhor Jesus. Que a vossa sabedoria, coragem e amor inspirem a minha vida cristã. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Quando Rezar Esta Novena
De 20 a 28 de abril — nos nove dias antes da festa de 29 de abril
Para aprofundar a vida contemplativa
Por intenções de paz e reconciliação
Para encontrar coragem de dizer a verdade
Pela unidade e renovação da Igreja
Outras Devoções Relacionadas
A devoção a Santa Catarina de Siena se aprofunda com outros conteúdos do site. A Novena de Santa Teresinha complementa — a outra grande Doutora da Igreja com espiritualidade profunda mas de expressão mais simples. A Novena de São Domingos de Gusmão aprofunda — Catarina era terciária dominicana, herdeira do carisma de Domingos. O Salmo 42 — “como o cervo anseia pelas águas, assim a minha alma anseia por Ti” — é o salmo da sede de Deus que Catarina viveu ao máximo. E o Salmo 27 — “uma coisa pedi ao Senhor: contemplar a formosura do Senhor” — exprime o desejo contemplativo que era a alma de toda a acção de Catarina.
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