Entre os três arcanjos que a tradição católica reconhece pelo nome — Miguel, Gabriel e Rafael —, o Arcanjo Rafael ocupa um lugar único: é o único deles que a Bíblia narra caminhando lado a lado com um ser humano, ao longo de semanas inteiras de uma jornada real, conversando, comendo junto, resolvendo problemas concretos de saúde, casamento e proteção. A oração ao Arcanjo Rafael, rezada hoje por quem busca cura física ou espiritual, tem sua origem direta nessa narrativa bíblica extraordinária — o Livro de Tobias.
O próprio nome Rafael, do hebraico Refa’el, significa literalmente “Deus cura” — e toda a missão do arcanjo na única narrativa bíblica em que ele é protagonista demonstra exatamente isso: cura de uma cegueira considerada incurável, cura de um casamento ameaçado por tragédia repetida, e proteção concreta durante uma viagem perigosa.
Neste texto você vai encontrar o texto completo da oração ao Arcanjo Rafael, a história bíblica do Livro de Tobias que fundamenta essa devoção, o significado do nome e do papel de Rafael na tradição católica, e orientações de quando e como recorrer a essa intercessão específica.
Oração ao Arcanjo Rafael — Texto Completo para Cura
Esta é uma das versões mais rezadas da oração ao Arcanjo Rafael, pedindo especificamente a graça da cura física e espiritual:
“Ó bondoso Arcanjo Rafael, eu te invoco como patrono daqueles que foram atingidos pela doença ou enfermidade corporal. Tu preparaste o remédio que curou a cegueira de Tobit, e teu nome significa ‘Deus cura’. Dirijo-me a ti, implorando teu auxílio divino em minha necessidade atual: (mencione seu pedido). Se for da vontade de Deus, cura minha enfermidade ou, pelo menos, concede-me a graça e a força de que necessito para poder suportá-la com paciência, oferecendo-a pelo perdão dos meus pecados e pela salvação da minha alma.
Ensina-me a unir meus sofrimentos com os de Jesus e Maria, e a buscar a graça de Deus na oração e na comunhão. Como o jovem Tobias, eu te escolho como meu companheiro nesta viagem através deste vale de lágrimas. Quero seguir tuas inspirações em cada passo do caminho, para que eu possa chegar ao fim da minha jornada sob tua proteção constante e na graça de Deus. Arcanjo Rafael, guia-me à verdadeira cura e à paz interior. Rogai por mim e por todos que clamam por tua intercessão. Amém.”
Muitos fiéis rezam essa oração ao Arcanjo Rafael diante de qualquer necessidade de cura — física, emocional ou espiritual —, ou antes de viagens, já que ele é também reconhecido, pela mesma narrativa bíblica, como padroeiro dos viajantes.
Quem é o Arcanjo Rafael: Significado e Papel na Tradição Católica

Diferente de São Miguel e São Gabriel — mencionados diversas vezes em contextos variados das Escrituras —, o Arcanjo Rafael tem uma particularidade única: aparece como personagem central e constante em um único livro bíblico inteiro, o Livro de Tobias, do Antigo Testamento.
O significado do nome Rafael
O nome Rafael vem do hebraico Refa’el, combinação das palavras rafa (“cura”, “curar”) e el (“Deus”) — significando literalmente “Deus cura” ou “medicina de Deus”. Esse significado não é decorativo: toda a missão do arcanjo, na narrativa bíblica em que aparece, gira em torno de curas concretas — cura de cegueira, cura de um relacionamento amaldiçoado, cura de uma família inteira em risco de extinção, cada uma delas resolvida através da intervenção paciente e discreta do arcanjo ao longo de toda a jornada narrada.
Um dos sete que assistem diante de Deus
O próprio Rafael se identifica, no Livro de Tobias, com palavras solenes: “Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistimos diante do Senhor” (Tobias 12:15) — uma afirmação que a tradição católica associa aos anjos de mais elevada dignidade na hierarquia celeste, próximos ao trono de Deus. Junto com Miguel e Gabriel, Rafael é um dos três únicos anjos mencionados pelo nome próprio nas Escrituras reconhecidas pela Igreja Católica, e por isso os três recebem o título de Arcanjos com festa litúrgica própria no calendário da Igreja, celebrada em 29 de setembro.
Essa referência aos “sete que assistem diante do Senhor” ecoa também outras passagens bíblicas, especialmente no Livro do Apocalipse, que menciona “sete espíritos” diante do trono divino — uma tradição angelológica que atravessa tanto o Antigo quanto o Novo Testamento, sugerindo uma hierarquia especial de sete anjos principais com acesso direto e privilegiado à presença de Deus. Embora a Igreja Católica reconheça oficialmente apenas três desses sete pelo nome — Miguel, Gabriel e Rafael —, essa menção bíblica mais ampla reforça a dignidade elevada atribuída especificamente a Rafael dentro de toda a hierarquia celeste reconhecida pela tradição cristã.
Patrono de médicos, enfermeiros e viajantes
Por sua missão de cura relatada no Livro de Tobias, o Arcanjo Rafael tornou-se, na devoção católica, padroeiro dos médicos, enfermeiros e de todos que sofrem qualquer forma de enfermidade física, mental ou espiritual. E por ter acompanhado Tobias durante toda uma jornada longa e perigosa, também é reconhecido como padroeiro dos viajantes e peregrinos — muitos fiéis recorrem à oração ao Arcanjo Rafael especificamente antes de viagens importantes.
Esse duplo patronato — cura e viagem — não é coincidência ou acúmulo arbitrário de títulos: reflete diretamente as duas dimensões centrais da própria narrativa bíblica que fundamenta toda a devoção. Profissionais de saúde em diversos países, incluindo hospitais e clínicas católicas ao redor do mundo, adotaram Rafael como padroeiro institucional, muitas vezes com capelas ou imagens dedicadas especificamente a ele dentro de suas instalações, como lembrete constante de que a cura, mesmo quando mediada por conhecimento médico humano, permanece também obra da providência divina.
A História Bíblica do Livro de Tobias

Para entender por completo a oração ao Arcanjo Rafael, vale conhecer a narrativa bíblica que fundamenta toda essa devoção — uma das histórias mais ricas e humanas de todo o Antigo Testamento.
Tobit, o pai cego
A história começa com Tobit, um judeu piedoso vivendo no exílio na Assíria, que ficou cego após excrementos de pássaro caírem em seus olhos enquanto dormia ao relento — um acidente aparentemente banal que o deixou na escuridão total pelo resto de seus dias. Empobrecido e cego, Tobit se lembra de uma quantia em dinheiro que havia deixado, anos antes, com um parente distante chamado Gabael, na região da Média. Ele então envia seu filho, Tobias, numa longa e perigosa jornada para recuperar essa herança.
O encontro com Rafael disfarçado
Antes de partir, Tobit orou fervorosamente pedindo proteção divina para o filho. Deus enviou o Arcanjo Rafael — disfarçado como um jovem homem comum, apresentando-se com o nome falso de Azarias — para acompanhar Tobias durante toda a viagem. Tobias, sem saber que estava diante de um arcanjo, aceita a companhia daquele “guia” para a jornada, confiando nele com uma naturalidade que só se revela plenamente justificada ao final de toda a narrativa.
Esse disfarce inicial de Rafael carrega um significado teológico que os comentaristas bíblicos destacam com frequência: a ação divina na vida cotidiana muitas vezes não se anuncia de forma espetacular ou imediatamente reconhecível. Assim como Tobias caminhou ao lado de um arcanjo sem perceber, por semanas inteiras, quem realmente o acompanhava, a tradição católica ensina que a providência de Deus frequentemente age de forma discreta na vida de cada pessoa — através de circunstâncias aparentemente comuns, de pessoas aparentemente ordinárias, de ajudas que só em retrospecto se revelam como sinais claros de cuidado divino.
O peixe, Sara e o demônio Asmodeu
Durante a viagem, Tobias captura um peixe grande num rio, e Rafael o instrui a guardar o fígado, o coração e o fel do animal — instrumentos que se revelariam decisivos mais adiante. Chegando à região de Media, Rafael propõe que Tobias se case com Sara, uma parente distante que havia perdido sete maridos, todos mortos na noite de núpcias por um demônio chamado Asmodeu. Tobias, compreensivelmente hesitante, é orientado por Rafael: ao entrar no quarto nupcial, deveria queimar o fígado e o coração do peixe sobre brasas de incenso — o cheiro expulsaria o demônio, que não voltaria mais.
A cura da cegueira
Tobias segue exatamente as instruções, casa-se com Sara, e o demônio é expulso e aprisionado pelo próprio Rafael. Ao retornar para casa com Sara e com o dinheiro recuperado de Gabael, Tobias aplica o fel do mesmo peixe sobre os olhos cegos de seu pai, Tobit — e a cegueira, que parecia definitiva e irreversível, é curada.
A revelação final
Só ao final da narrativa, quando a família tenta recompensar “Azarias” por toda sua ajuda, o disfarce é finalmente revelado: “Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistimos diante do Senhor” (Tobias 12:15). Rafael então ascende ao céu diante dos olhos maravilhados de toda a família, encerrando uma das narrativas mais completas de intervenção angélica em toda a Escritura — cura de doenças físicas, cura de uma família amaldiçoada, e proteção concreta ao longo de toda uma jornada.
As Lições Espirituais do Livro de Tobias
Além da narrativa em si, o Livro de Tobias carrega lições espirituais que ajudam a entender por que a oração ao Arcanjo Rafael continua tão relevante para quem busca cura hoje.
A cura como processo, não como mágica instantânea
Um detalhe frequentemente esquecido na devoção popular: a cura de Tobit não aconteceu instantaneamente por um toque miraculoso direto — Rafael instruiu Tobias a usar um remédio concreto (o fel do peixe), que precisou ser aplicado com cuidado. Essa dimensão da narrativa ensina algo importante sobre como a tradição católica entende a intercessão angélica: Deus frequentemente age através de meios concretos e ordinários — remédios, médicos, tratamentos —, não apenas através de intervenções sobrenaturais instantâneas. Pedir a cura ao Arcanjo Rafael não substitui buscar tratamento médico adequado; frequentemente, a graça pedida se manifesta justamente através dos meios humanos disponíveis.
Essa compreensão tem consequência pastoral direta e importante: quem reza pedindo cura não deveria, jamais, abandonar tratamentos médicos em curso na expectativa de uma cura puramente sobrenatural e instantânea. A própria narrativa bíblica que fundamenta essa devoção mostra exatamente o oposto — Rafael, o arcanjo enviado por Deus, orienta o uso de um remédio físico específico, não substitui a necessidade dele. A oração e a medicina, na compreensão católica tradicional, não competem entre si; complementam-se, como dois canais diferentes pelos quais a mesma providência divina pode agir na vida de quem busca a cura.
A oração de Tobias e Sara na noite de núpcias
Um dos momentos mais bonitos do Livro de Tobias acontece na própria noite em que o casal deveria, segundo o padrão anterior, enfrentar a morte pelas mãos do demônio Asmodeu. Em vez de apenas queimar o incenso protetor, Tobias e Sara passam a noite inteira em oração conjunta — um modelo bíblico antigo de oração matrimonial que muitos casais católicos hoje redescobrem como inspiração para a própria vida de oração a dois.
A companhia constante como forma de proteção
Rafael não cura ou protege Tobias à distância — caminha fisicamente ao seu lado durante toda a jornada, presente em cada decisão, cada perigo, cada momento de hesitação. Essa imagem de companhia constante, não intervenção distante e ocasional, molda a forma como muitos católicos entendem a proteção angélica: não como milagres espetaculares e raros, mas como presença silenciosa e constante ao longo de toda a “jornada” da vida cotidiana.
Essa dimensão de proximidade contínua ajuda a explicar por que tantos fiéis recorrem à oração ao Arcanjo Rafael não apenas em momentos de crise aguda, mas como prática espiritual regular, incorporada à rotina diária de oração. Assim como Tobias não precisou enfrentar sozinho nenhum momento daquela jornada perigosa — desde a travessia do rio até o confronto indireto com o demônio Asmodeu —, a devoção convida o fiel a reconhecer essa mesma companhia constante disponível em sua própria vida, especialmente nos períodos mais difíceis de doença, incerteza ou provação.
Quando e Como Rezar ao Arcanjo Rafael

A devoção ao Arcanjo Rafael se aplica a um leque amplo de situações, sempre conectadas, de alguma forma, aos temas centrais de sua narrativa bíblica: cura, casamento, proteção em viagens.
Diante de doenças físicas
É o uso mais direto e mais comum da oração ao Arcanjo Rafael — pedir sua intercessão diante de qualquer enfermidade, seja considerada grave ou simples, confiando que, assim como intercedeu pela cura de Tobit, Rafael pode interceder junto a Deus pela cura de quem recorre a ele hoje, em qualquer parte do mundo.
Diante de sofrimentos emocionais e espirituais
A oração ao Arcanjo Rafael também é usada para pedir cura de feridas emocionais, ansiedade, depressão e outras formas de sofrimento psicológico e espiritual — expandindo o sentido de “cura” para além do corpo físico, incluindo a cura interior de traumas e angústias.
Antes de viagens
Por ter acompanhado Tobias fisicamente durante toda sua jornada, muitos fiéis rezam ao Arcanjo Rafael antes de viagens — sejam viagens longas e arriscadas, sejam deslocamentos cotidianos simples — pedindo a mesma proteção que ele proveu ao jovem da narrativa bíblica ao longo do caminho inteiro.
Por relacionamentos e casamentos
Como Rafael foi decisivo para viabilizar o casamento entre Tobias e Sara, superando um obstáculo que parecia amaldiçoado e sem solução, também é comum recorrer a ele em orações por relacionamentos difíceis, buscando cura para vínculos afetivos feridos ou em crise.
Como incorporar a oração na rotina espiritual
Não existe fórmula rígida obrigatória de frequência — muitos fiéis rezam a oração ao Arcanjo Rafael diariamente enquanto aguardam uma graça específica de cura, outros a reservam para momentos pontuais de necessidade aguda. A festa litúrgica dos Arcanjos, em 29 de setembro, é também um momento tradicional de reforçar essa devoção específica.
Rafael, Miguel e Gabriel: As Diferenças Entre os Três Arcanjos
É comum confundir os três arcanjos mencionados pelo nome na tradição católica, cada um com missão bem específica e diferenciada dentro da hierarquia celeste.
Miguel: o guerreiro protetor
São Miguel Arcanjo — cujo nome significa “quem como Deus?” — é tradicionalmente invocado como protetor contra o mal e as forças demoníacas, aparecendo nas Escrituras principalmente em contextos de batalha espiritual, como no Livro do Apocalipse, onde lidera os anjos fiéis contra o dragão.
Gabriel: o mensageiro
São Gabriel Arcanjo — “força de Deus” — é o anjo mensageiro por excelência, aparecendo tanto no Antigo Testamento, explicando visões ao profeta Daniel, quanto no Novo Testamento, anunciando a Zacarias o nascimento de João Batista e, principalmente, anunciando a Maria a concepção de Jesus na Anunciação.
Rafael: o curador companheiro
Já Rafael, como vimos, é o arcanjo da cura e da companhia constante — não aparece anunciando eventos futuros como Gabriel, nem combatendo forças do mal como Miguel, mas caminhando fisicamente ao lado de um ser humano comum, resolvendo problemas concretos de saúde, casamento e proteção ao longo de uma jornada real.
Por que essa distinção importa na oração
Entender essas diferenças ajuda a direcionar melhor cada devoção específica: quem busca proteção contra o mal recorre tradicionalmente a São Miguel; quem busca clareza numa decisão ou anúncio importante pode recorrer a São Gabriel; e quem busca cura física, emocional ou espiritual, ou proteção numa jornada específica, encontra em Rafael o intercessor mais diretamente ligado a essas necessidades particulares.
Perguntas Frequentes
O que é a oração ao Arcanjo Rafael?
É uma oração de intercesão dirigida ao Arcanjo Rafael, cujo nome significa ‘Deus cura’, pedindo sua ajuda diante de doenças físicas, sofrimentos emocionais ou espirituais, ou proteção em viagens — conforme sua missão narrada no Livro de Tobias.
O que significa o nome Rafael?
Vem do hebraico Refa’el, união de ‘rafa’ (cura) e ‘el’ (Deus), significando literalmente ‘Deus cura’ ou ‘medicina de Deus’.
O que é o Livro de Tobias?
É o único livro bíblico em que o Arcanjo Rafael aparece como personagem central, disfarçado como guia humano do jovem Tobias, curando a cegueira de seu pai Tobit e livrando Sara de um demônio que havia matado seus sete maridos anteriores.
Como o Arcanjo Rafael curou a cegueira de Tobit?
Segundo a narrativa, Rafael instruiu Tobias a aplicar o fel de um peixe capturado durante a viagem sobre os olhos cegos do pai — e a cegueira, considerada irreversível, foi curada.
Por que o Arcanjo Rafael é padroeiro dos viajantes?
Por ter acompanhado fisicamente Tobias durante toda sua jornada perigosa, protegendo-o em cada etapa do caminho, o que consolidou sua associação devocional com a proteção de viajantes e peregrinos.
Quando é a festa do Arcanjo Rafael?
É celebrada em 29 de setembro, junto com São Miguel e São Gabriel, data em que a Igreja católica celebra os três arcanjos mencionados pelo nome nas Escrituras.
Qual a diferença entre Rafael, Miguel e Gabriel?
São Miguel é o guerreiro protetor contra o mal; São Gabriel é o mensageiro que anuncia eventos importantes, como a Anunciação a Maria; São Rafael é o curador que acompanha fisicamente e resolve problemas concretos de saúde e proteção.
A oração ao Arcanjo Rafael substitui o tratamento médico?
Não. A própria narrativa bíblica mostra Rafael instruindo o uso de um remédio concreto para a cura de Tobit — a devoção não substitui a busca por tratamento médico adequado, mas complementa a confiança espiritual durante esse processo.
Posso rezar ao Arcanjo Rafael por um casamento em crise?
Sim. Por ter sido decisivo para viabilizar o casamento entre Tobias e Sara, superando um obstáculo aparentemente amaldiçoado, muitos fiéis recorrem a Rafael também em orações por relacionamentos e casamentos em dificuldade.
Rafael é um anjo de qual hierarquia celeste?
Segundo o próprio relato bíblico, Rafael se identifica como ‘um dos sete que assistimos diante do Senhor’ (Tobias 12:15) — uma expressão associada, na tradição, aos anjos de mais elevada dignidade na hierarquia celeste, próximos ao trono de Deus.
A Devoção ao Arcanjo Rafael e Outras Práticas de Cura
A devoção ao Arcanjo Rafael se conecta naturalmente a outras práticas espirituais católicas voltadas à cura e à proteção, muitas delas já presentes na tradição devocional do dia a dia.
Rafael e a oração de cura
Muitos fiéis unem a oração ao Arcanjo Rafael a outras formas de oração de cura e saúde, combinando a intercessão específica do arcanjo com súplicas diretas a Deus e a Maria, “Saúde dos Enfermos”, ampliando o círculo de intercessores invocados diante de uma enfermidade específica.
Essa combinação de devoções não é redundância nem falta de fé numa única oração — reflete, ao contrário, a compreensão católica tradicional de que a intercessão dos santos e dos anjos se soma, não compete entre si. Um fiel pode legitimamente pedir a intercessão de Rafael pela cura de uma enfermidade específica, unir a isso uma oração dirigida a Nossa Senhora, e ainda incluir orações diretas ao próprio Deus — todas essas formas de oração convergem para o mesmo pedido central, ampliando, não fragmentando, a rede de intercessão espiritual mobilizada diante de uma necessidade concreta de saúde.
A devoção aos anjos da guarda
Além dos arcanjos mencionados pelo nome, a tradição católica também reconhece a existência de um anjo da guarda pessoal para cada indivíduo — uma devoção complementar, mas distinta, da oração específica ao Arcanjo Rafael. Enquanto o anjo da guarda acompanha uma pessoa específica ao longo de toda sua vida, Rafael é invocado como intercessor mais amplo, disponível a qualquer fiel que recorra à sua ajuda em busca de cura, independentemente de qualquer vínculo pessoal exclusivo como o que existe entre cada indivíduo e seu próprio anjo protetor.
Essa distinção teológica ajuda a entender por que muitos fiéis, sem qualquer contradição, rezam simultaneamente ao próprio anjo da guarda e ao Arcanjo Rafael diante de uma mesma situação de necessidade — cada devoção cumprindo uma função espiritual complementar dentro da rica tradição angelológica que a Igreja Católica preserva desde seus primeiros séculos.
Imagens e medalhas de São Rafael
É comum encontrar, em lojas de artigos religiosos, medalhas e imagens do Arcanjo Rafael retratado com um peixe nas mãos — referência direta ao instrumento de cura usado na narrativa do Livro de Tobias — e frequentemente acompanhado da figura do jovem Tobias, numa representação que resume visualmente toda a história bíblica por trás dessa devoção específica.
Muitos fiéis que enfrentam períodos prolongados de tratamento de saúde optam por carregar consigo uma dessas medalhas, ou mantê-las próximas durante consultas médicas, exames ou procedimentos, como lembrete físico da intercessão pedida ao arcanjo. Embora o objeto em si não carregue poder mágico algum — o valor espiritual está sempre na fé e na oração, não no objeto material —, essa prática devocional ajuda muitos fiéis a manter presente, ao longo de um tratamento às vezes longo e desgastante, a confiança de que não estão enfrentando aquele momento difícil completamente sozinhos.
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São Rafael na Teologia e na Tradição dos Padres da Igreja
Ao longo da tradição cristã, teólogos e Padres da Igreja refletiram sobre o papel dos anjos em geral, e sobre a figura específica de Rafael, oferecendo um pano de fundo teológico mais amplo para essa devoção.
Os anjos na teologia católica
O Catecismo da Igreja Católica afirma que a existência dos anjos “é uma verdade de fé” (CIC 328), descrevendo-os como criaturas puramente espirituais, dotadas de inteligência e vontade, criadas por Deus antes da criação do mundo material. Dentro dessa visão teológica ampla, os arcanjos — incluindo Rafael — ocupam posição de destaque, sendo mensageiros e agentes especiais da ação de Deus na história humana.
São Rafael nos escritos dos Padres da Igreja
Diversos Padres da Igreja, ao longo dos primeiros séculos do cristianismo, comentaram a narrativa do Livro de Tobias como exemplo de providência divina agindo através da mediação angélica. Para esses primeiros teólogos, a história de Rafael confirmava uma verdade mais ampla sobre como Deus opera no mundo: nem sempre através de intervenções espetaculares e diretas, mas frequentemente através de agentes intermediários — sejam anjos, sejam pessoas comuns — que cooperam discretamente com o plano divino.
Santo Ambrósio de Milão, no século IV, foi um dos primeiros comentaristas patrísticos a dedicar atenção especial ao Livro de Tobias, produzindo um comentário inteiro sobre a obra que destacava especialmente a paciência de Tobit diante da cegueira e a fidelidade de Tobias ao seguir as instruções, aparentemente estranhas, de seu guia disfarçado. Para Ambrósio, a disposição de Tobias em confiar e obedecer, mesmo sem compreender completamente o motivo de cada instrução recebida, era um modelo espiritual de confiança na providência divina — uma lição que continua relevante para quem hoje reza pedindo a intercessão do mesmo arcanjo, muitas vezes sem compreender totalmente por que uma graça específica demora, ou por que o caminho para a cura desejada segue um percurso inesperado.
A canonicidade do Livro de Tobias
Vale um esclarecimento importante para quem estuda essa devoção com mais profundidade: o Livro de Tobias é reconhecido como canônico — parte legítima da Bíblia — pela Igreja Católica e pelas Igrejas Ortodoxas, mas não é aceito como canônico pelas tradições protestantes, que o classificam como parte dos chamados livros apócrifos ou deuterocanônicos, excluídos do cânon bíblico reformado. Essa diferença explica por que a devoção ao Arcanjo Rafael, embora reconhecida e viva no catolicismo e na ortodoxia, tem presença mais limitada em tradições protestantes, que não reconhecem a mesma autoridade bíblica ao texto que fundamenta essa narrativa específica.
Essa distinção entre cânones bíblicos diferentes não é um detalhe menor de curiosidade histórica — reflete decisões teológicas tomadas em momentos distintos da história cristã sobre quais textos deveriam compor a Escritura sagrada. O cânon católico do Antigo Testamento, que inclui o Livro de Tobias junto com outros textos deuterocanônicos como Judite, Sabedoria e os livros dos Macabeus, foi formalmente confirmado pelo Concílio de Trento no século XVI, em resposta direta às reformas protestantes que haviam excluído esses textos de suas próprias traduções bíblicas. Para o católico que reza a oração ao Arcanjo Rafael, portanto, essa devoção está ancorada num texto bíblico plenamente reconhecido pela autoridade da Igreja, com a mesma dignidade canônica dos demais livros do Antigo Testamento.


