Vitral de igreja mostrando Jesus abençoando crianças

Mateus 19:14: Deixai Vir a Mim as Crianças — Significado e Oração

 

 

“Deixai as crianças, e não as embaraceis de vir a mim; porque dos tais é o reino dos céus.” A cena é simples, quase doméstica: mães e pais trazendo os próprios filhos para que Jesus os tocasse e abençoasse, e os discípulos, provavelmente pensando estar protegendo o tempo e a dignidade do mestre, tentando impedir essa aproximação considerada pouco importante. A reação de Jesus é imediata e, segundo o relato paralelo de Marcos, visivelmente irritada com a atitude dos próprios discípulos.

É fácil ler este versículo hoje como frase simpática para cartão de batizado ou quadro de quarto infantil, sem perceber o quanto ele desafiava a lógica social da época. Crianças, no mundo antigo, raramente eram tratadas como prioridade em disputa pelo tempo de um mestre religioso importante — eram, socialmente, quem menos importava numa fila de pessoas buscando atenção. Jesus inverte essa lógica de forma direta e, aparentemente, com genuína irritação diante de quem tentava mantê-la.

Neste texto você vai encontrar o versículo completo, o contexto da cena, o significado de “dos tais é o Reino dos Céus”, e uma oração baseada diretamente no texto.

O Texto de Mateus 19:14

Na tradução Almeida Corrigida Fiel (ACF), Mateus 19:14 diz: “Jesus, porém, disse: Deixai as crianças, e não as embaraceis de vir a mim; porque dos tais é o reino dos céus.”

Na Nova Versão Internacional: “Jesus, porém, disse: ‘Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam, porque o Reino dos céus pertence aos que são como elas.’”

 

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O relato de Marcos 10,14 acrescenta um detalhe emocional importante que Mateus não menciona: antes de pronunciar essas palavras, Jesus “indignou-se” com a atitude dos discípulos — uma reação incomum e digna de nota em qualquer relato sobre seu comportamento nos evangelhos.

Vale destacar que a palavra grega para “crianças” usada aqui (paidia) pode se referir a uma faixa etária relativamente ampla — desde bebês até crianças mais crescidas, provavelmente na primeira infância —, e não especificamente a recém-nascidos. O relato de Lucas 18,15 usa uma palavra ainda mais específica (brephe), que sugere até mesmo bebês de colo sendo trazidos, reforçando que a cena provavelmente envolvia crianças de diferentes idades, dos menores aos já capazes de caminhar e falar.

Vale um último esclarecimento sobre o próprio verbo usado para “embaraçar” no texto original — “koluo” em grego, que significa impedir ou proibir ativamente, não apenas desencorajar passivamente. Os discípulos não estavam apenas desaprovando silenciosamente a presença das crianças; estavam tomando ação concreta para bloqueá-las fisicamente. A ordem de Jesus para “não as embaraçeis” é, portanto, uma revogação direta e explícita dessa ação de bloqueio ativo, não apenas uma correção de atitude interior.

O Contexto: Por Que os Discípulos Impediam as Crianças

A cena se passa na região da Judeia, além do Jordão, logo após um debate intenso de Jesus com fariseus sobre o divórcio (Mateus 19,1-12) — conversa densa, teologicamente carregada, sobre um tema de disputa legal e religiosa séria entre diferentes escolas rabínicas da época. É nesse contexto, imediatamente em seguida, que “trouxeram-lhe algumas crianças, para que pusesse as mãos sobre elas, e orasse” (Mateus 19,13).

O gesto de impor as mãos e orar por crianças era prática comum entre rabinos respeitados, buscada por pais como forma de bênção espiritual sobre os filhos. Não era, portanto, um pedido incomum ou fora de propósito — mas os discípulos, segundo o texto, “repreenderam” (mesmo verbo usado para repreender demônios em outras passagens) quem trazia as crianças, provavelmente por considerar que aquilo desviava a atenção de Jesus de assuntos “mais importantes”, como o debate teológico que acabara de encerrar.

Vale um esclarecimento sobre a prática de imposição de mãos mencionada no contexto: essa ação tinha raízes antigas na tradição judaica, remontando a bênçãos patriarcais como a de Jacó sobre seus netos Efraim e Manassés (Gênesis 48,14-20). Buscar essa mesma bênção de um rabino considerado especialmente próximo de Deus, como Jesus já era reconhecido por muitos naquele momento do seu ministério, seria um gesto de piedade familiar perfeitamente compreensível dentro da cultura religiosa da época — tornando a reação de bloqueio dos discípulos ainda mais desproporcional e injustificável.

Vale destacar que este mesmo episódio também aparece registrado no Evangelho de Lucas (18,15-17), com redação muito semelhante à de Marcos, confirmando que se trata de um dos poucos momentos da vida de Jesus documentados de forma quase idêntica pelos três evangelhos sinóticos — sinal, para estudiosos bíblicos, de que essa tradição específica era considerada particularmente importante e bem estabelecida entre as primeiras comunidades cristãs que preservaram e transmitiram essas memórias sobre Jesus.

A reação incomum de Jesus

É Marcos quem registra o detalhe mais marcante: Jesus “indignou-se” (Marcos 10,14) — no grego original, um termo forte, usado poucas vezes nos evangelhos para descrever a reação emocional de Jesus, geralmente associado a situações de injustiça clara. Não é exagero dizer que essa é uma das reações mais emocionalmente intensas atribuídas a Jesus em toda a narrativa evangélica, dirigida especificamente aos próprios discípulos mais próximos, não a opositores religiosos externos.

Vale, também, notar que o verbo grego usado para descrever a repreensão dos discípulos é o mesmo empregado em outras passagens para repreender espíritos malignos ou tempestades — um verbo de autoridade forte, quase agressivo, aplicado aqui a crianças inofensivas e a seus pais bem-intencionados. Essa escolha lexical reforça, no texto grego original, a desproporcionalidade da reação dos discípulos diante de uma situação que não representava ameaça real alguma.

O Que Significa “Dos Tais é o Reino dos Céus”

A frase final do versículo — “porque dos tais é o reino dos céus” — não afirma apenas que crianças também têm acesso ao Reino, mas algo mais específico: que a qualidade que caracteriza os que entram no Reino é semelhante à que as crianças naturalmente demonstram. O relato paralelo de Marcos torna essa ideia ainda mais explícita, acrescentando uma frase que Mateus não registra: “quem não receber o Reino de Deus como criança, de maneira nenhuma entrará nele” (Marcos 10,15).

A pergunta natural, então, é: qual característica infantil específica Jesus tinha em mente? Estudiosos bíblicos costumam apontar para a receptividade e a dependência natural das crianças — a incapacidade infantil de conquistar, merecer ou negociar algo por conta própria, contrastada com a disposição simples de receber o que é dado gratuitamente. Diferente de adultos, que frequentemente tentam justificar, merecer ou negociar sua posição diante de Deus, crianças pequenas recebem cuidado e provisão sem qualquer pretensão de tê-los conquistado.

Vale um esclarecimento adicional sobre a dependência característica da infância: crianças pequenas não têm alternativa senão confiar completamente em quem cuida delas para sobrevivência básica — alimentação, abrigo, proteção —, sem qualquer capacidade real de reivindicar esses cuidados por mérito ou negociação própria. Jesus parece apontar essa dependência radical, não como fraqueza a ser superada na vida adulta, mas como disposição espiritual a ser conscientemente recuperada diante de Deus — um tipo de dependência madura e escolhida, diferente da dependência infantil involuntária, mas que aponta para a mesma realidade fundamental de receber antes de merecer.

Vale um último detalhe sobre a estrutura da narrativa: logo após este episódio, Mateus registra o encontro de Jesus com o jovem rico (Mateus 19,16-22), que se afasta triste por não conseguir abrir mão de suas riquezas para seguir Jesus. O contraste entre as crianças — que recebem prontamente e sem hesitação — e o jovem rico — que hesita e recua diante do mesmo convite — reforça visualmente, na sequência narrativa escolhida pelo evangelista, exatamente o contraste teológico que o próprio episódio das crianças já havia introduzido.

Uma conexão com outro ensinamento de Jesus

Este episódio ecoa diretamente outro ensinamento anterior de Jesus, registrado em Mateus 18,3: “em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de maneira nenhuma entrareis no reino dos céus”. Os dois textos, lidos juntos, sugerem que a infância não é apenas fase da vida tolerada ou secundária dentro do Reino de Deus, mas modelo espiritual positivo a ser imitado por adultos — uma inversão completa da hierarquia social comum que colocava crianças na base da escala de importância.

Vale destacar que o mesmo capítulo 18 de Mateus, onde aparece o ensinamento sobre “tornar-se como crianças”, também contém uma das advertências mais severas de Jesus em todo o Evangelho: “mas qualquer que escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de moinho, e se submergisse na profundeza do mar” (Mateus 18,6). A proximidade temática entre valorizar crianças como modelo espiritual e protegê-las ativamente contra qualquer forma de dano reforça que, para Jesus, as duas coisas — honrar a infância e protegê-la fisicamente — estavam profundamente conectadas.

Crianças brincando alegremente ao ar livre

O Status das Crianças no Mundo Antigo

Para entender o peso real deste episódio, vale conhecer o contexto social do mundo antigo em relação à infância. Diferente da sensibilidade contemporânea, que valoriza intensamente o bem-estar infantil, o mundo greco-romano e judaico do século I geralmente via crianças como seres em formação, sem status social pleno — dependentes totais, sem voz própria em disputas de adultos, e frequentemente as últimas a receber atenção em qualquer disputa por tempo ou recursos de figuras de autoridade.

Nesse contexto, a atitude dos discípulos de afastar as crianças não era rudeza incomum ou fora do padrão social esperado — era, na verdade, o comportamento socialmente “normal” da época, refletindo a hierarquia de importância amplamente aceita. O que torna a reação de Jesus tão notável não é apenas sua gentileza pontual com crianças específicas, mas sua rejeição ativa e emocionalmente carregada dessa hierarquia social inteira, num momento em que estava, supostamente, ocupado com assuntos “mais sérios”.

Vale, também, um contraste histórico relevante com o mundo greco-romano da época: em algumas partes do Império, a prática do “expositio” — abandono de recém-nascidos indesejados, especialmente meninas ou crianças com deficiências percebidas — era socialmente tolerada, revelando uma valorização muito mais condicional e utílitária da vida infantil do que a afirmada por Jesus neste episódio. O contraste entre essa prática cultural mais ampla e a atitude de Jesus reforça o quanto sua postura representava uma revolução moral real, não apenas gesto isolado de simpatia pessoal por crianças específicas.

Um padrão consistente no ministério de Jesus

Este episódio não é isolado dentro do comportamento mais amplo de Jesus retratado nos evangelhos: sua atenção repetida a quem a sociedade da época considerava de menor importância — mulheres, samaritanos, leprosos, cobradores de impostos, mendigos, e agora crianças — forma um padrão consistente de inversão deliberada das hierarquias sociais estabelecidas, sempre priorizando quem o sistema social vigente colocava à margem.

Vale acrescentar que historiadores da Igreja primitiva documentam como comunidades cristãs dos primeiros séculos passaram a se distinguir, dentro da sociedade greco-romana mais ampla, justamente por recusar práticas comuns como o abandono de recém-nascidos, adotando ativamente crianças expostas e cuidando delas como parte da própria comunidade de fé — uma aplicação prática direta, algumas décadas depois, do princípio que Jesus já havia estabelecido neste episódio evangélico sobre o valor incondicional da vida infantil.

Mão de criança tocando a mão de um adulto, símbolo de cuidado e acolhimento

Como Este Versículo se Aplica à Vida Hoje

Este versículo tem múltiplas camadas de aplicação prática, tanto para quem trabalha diretamente com crianças quanto para a compreensão espiritual de qualquer adulto sobre a própria relação com Deus.

Vale, também, um comentário sobre como essa oração pode ser adaptada por pais e educadores especificamente: ao rezar antes de um dia de trabalho com crianças — seja em sala de aula, em casa, ou em atividades paroquiais —, vale pedir explicitamente a mesma paciência que Jesus demonstrou, reconhecendo que a correria adulta, os prazos e as prioridades organizacionais podem, sem intenção consciente, reproduzir o mesmo erro que os discípulos cometeram naquele dia específico.

Para pais e catequistas

O texto oferece base bíblica direta para a prioridade dada, em comunidades cristãs, à catequese infantil e à inclusão ativa de crianças na vida litúrgica e devocional — não como atividade secundária “enquanto os adultos fazem o que realmente importa”, mas como prioridade que o próprio Jesus modelou de forma emocionalmente intensa.

Para adultos que buscam entender sua própria fé

A comparação com a receptividade infantil desafia diretamente qualquer tentativa adulta de “merecer” ou “negociar” a relação com Deus através de esforço próprio, conquista intelectual ou desempenho religioso. Vale a reflexão honesta: em que medida a própria fé pessoal ainda carrega resquícios de tentar provar mérito, em vez de simplesmente receber o que é oferecido gratuitamente?

Vale um exemplo prático dessa reflexão em contexto catequético: catequistas experientes relatam que crianças pequenas frequentemente demonstram, de forma natural e sem esforço consciente, uma capacidade de confiança e adoção de verdades espirituais que muitos adultos, carregados de ceticismo acumulado ou de tentativas exaustivas de racionalizar cada aspecto da fé, têm dificuldade genuína de recuperar. Isso não significa que questões intelectuais sobre a fé sejam ilegítimas — mas sugere que a simplicidade confiante da infância captura algo essencial que a sofisticação adulta às vezes obscurece, em vez de aprofundar.

Para quem trabalha na proteção da infância

Este texto também sustenta teologicamente o compromisso da Igreja com a proteção e o cuidado ativo de crianças, reforçando que nenhuma prioridade institucional ou social deveria jamais funcionar como obstáculo ao bem-estar e à dignidade infantil — princípio que ganhou relevância ainda maior nas últimas décadas, diante de fracassos institucionais na proteção de crianças que a própria Igreja precisou reconhecer e corrigir.

Vale destacar que essa referência se tornou particularmente significativa nas últimas décadas, à medida que a Igreja Católica e outras instituições cristãs enfrentaram, publicamente, casos graves de abuso infantil cometidos por membros do próprio clero — uma contradição dolorosa e reconhecida entre o ensinamento explícito de Jesus sobre valorizar e proteger crianças, e falhas institucionais concretas de proteção real. Documentos pastorais recentes da Igreja citam frequentemente este mesmo episódio evangélico como fundação teológica para políticas mais rígidas de proteção à infância implementadas nas últimas décadas.

Oração baseada em Mateus 19:14

“Senhor Jesus, que te indignaste quando tentaram afastar as crianças de ti, ensina-me a nunca colocar nenhuma prioridade acima do cuidado e da aten\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as ao meu redor. Ajuda-me tamb\u00e9m a receber teu Reino com a mesma simplicidade e receptividade de uma crian\u00e7a \u2014 sem tentar merecer ou negociar o que j\u00e1 me \u00e9 oferecido gratuitamente por teu amor. Que eu nunca seja, como os disc\u00edpulos naquele dia, obst\u00e1culo entre algu\u00e9m pequeno e vulner\u00e1vel e a tua presen\u00e7a, mas ponte que aproxima, com paci\u00eancia e humildade genu\u00edna. Em teu nome, am\u00e9m.”

O Detalhe Físico do Relato de Marcos

Vale conhecer melhor o gesto físico descrito no relato de Marcos, que acrescenta um detalhe emocional que Mateus e Lucas não registram: “E, tomando-as em seus braços, e impondo-lhes as mãos, as abençoou” (Marcos 10,16). Não foi um gesto simbólico distante ou uma bênção verbal apenas — Jesus fisicamente pegou as crianças no colo, abraçou-as, e só então as abençoou com as mãos.

Esse detalhe físico reforça que a reação de Jesus não era apenas correção verbal de um erro teológico dos discípulos, mas expressão genuína de carinho e proximidade física com as próprias crianças envolvidas — um contraste direto com a distância que os discípulos tentavam impor entre elas e o mestre.

Vale destacar que esse gesto físico de tomar as crianças no colo também contrasta com a imagem, às vezes distorcida em representações artísticas posteriores, de um Jesus distante e formal. Os evangelhos, lidos com atenção a esses pequenos detalhes físicos, revelam repetidamente um Jesus de proximidade corporal genuína — tocando leprosos considerados intocáveis, permitindo que uma mulher lhe lavasse os pés com lágrimas e cabelos, e agora, aqui, abraçando fisicamente crianças pequenas em pleno meio de um dia de ensinamento público denso e cansativo.

A tradição da bênção das crianças

Esse episódio específico influenciou práticas devocionais posteriores em diversas tradições cristãs, incluindo a bênção especial de crianças em determinadas celebrações litúrgicas e a prática, comum em muitas paróquias católicas, de sacerdotes abençoarem individualmente crianças presentes durante a fila da comunhão — mesmo antes delas terem feito a Primeira Comunhão —, numa continuidade direta e consciente com o gesto físico de Jesus registrado neste episódio evangélico.

Vale, ainda, mencionar que muitas Bíblias infantis ilustradas e materiais de catequese ao redor do mundo escolhem justamente esta cena — Jesus cercado de crianças, muitas vezes representado sorrindo e as segurando no colo — como uma das primeiras imagens apresentadas a crianças pequenas sobre quem é Jesus, criando, para gerações de católicos, uma associação afetiva precoce e duradoura entre a própria infância e a figura de Cristo.

Vale, ainda, considerar como as próprias crianças reagem, na prática pastoral atual, a essa história específica: catequistas relatam que crianças pequenas, ao ouvirem esse episódio, costumam se identificar diretamente com a cena, imaginando-se entre as crianças trazidas até Jesus — uma conexão emocional imediata que poucos outros episódios evangélicos conseguem gerar com tanta facilidade entre ouvintes tão jovens.

Deserto da Judeia, paisagem histórica de Israel

Perguntas Frequentes

O que é Mateus 19:14?

É o versículo em que Jesus, ao ver os discípulos impedindo crianças de se aproximarem dele, diz: ‘Deixai as crianças, e não as embaraceis de vir a mim; porque dos tais é o reino dos céus.’

Qual o contexto de Mateus 19:14?

Após um debate intenso sobre divórcio com fariseus, pais traziam seus filhos para que Jesus impusesse as mãos e orasse por eles, prática comum com rabinos respeitados. Os discípulos tentaram impedir essa aproximação.

Como Jesus reagiu à atitude dos discípulos?

Marcos 10,14 registra que Jesus ‘indignou-se’ com a atitude dos discípulos — uma das reações emocionais mais intensas atribuídas a ele nos evangelhos, dirigida aos próprios discípulos mais próximos.

O que significa ‘dos tais é o reino dos céus’?

Não afirma apenas que crianças têm acesso ao Reino, mas que a qualidade de receptividade e dependência natural das crianças caracteriza quem verdadeiramente entra no Reino de Deus, segundo o paralelo em Marcos 10,15.

Como as crianças eram vistas no mundo antigo?

Diferente da sensibilidade contemporânea, o mundo antigo geralmente via crianças como seres em formação sem status social pleno, frequentemente últimas a receber atenção de figuras de autoridade importantes.

Existe outro ensinamento semelhante de Jesus sobre crianças?

Sim. Em Mateus 18,3, Jesus já havia ensinado: ‘se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de maneira nenhuma entrareis no reino dos céus’ — reforçando a infância como modelo espiritual positivo.

O que Jesus fez fisicamente com as crianças?

Segundo Marcos 10,16, Jesus tomou as crianças em seus braços, impôs-lhes as mãos, e as abençoou — um gesto físico de carinho direto, não apenas bêenção verbal à distância.

Este versículo tem relação com a proteção à infância hoje?

Baseia-se na prioridade que Jesus deu às crianças neste episódio, reforçando que nenhuma prioridade institucional deveria funcionar como obstáculo ao bem-estar e à dignidade infantil.

O que este versículo ensina para adultos hoje?

Sugere que a receptividade simples e a dependencia natural, sem tentar merecer ou negociar o que é dado gratuitamente, são mais importantes do que conquista intelectual ou desempenho religioso na relação com Deus.

Como este versículo se relaciona com a catequese infantil?

É base bíblica direta para a prioridade dada à catequese infantil e à inclusão ativa de crianças na vida litúrgica, reforçando que isso não é atividade secundária, mas prioridade que o próprio Jesus modelou.

O Que Continua Desafiando Adultos Hoje

Há algo que continua desafiando adultos, dois mil anos depois: a ideia de que o modelo espiritual mais próximo do Reino de Deus não é o adulto realizado, teologicamente sofisticado ou moralmente impecável, mas a criança que simplesmente recebe o que lhe é oferecido, sem pretensão nem mérito próprio para reivindicar.

Se você trabalha com crianças, cuida de crianças, ou simplesmente cruza com elas no dia a dia, talvez valha lembrar, na próxima vez que a impaciência ou a pressa tentarem colocá-las em segundo plano, da reação visivelmente irritada de Jesus diante da mesma tentação, há dois milênios, num contexto muito parecido.

Vale, por fim, um comentário sobre a relação entre este episódio e o próprio sacramento do Batismo infantil na tradição católica: embora o texto não mencione batismo diretamente, ele é tradicionalmente citado como base bíblica que sustenta a legitimidade teológica de batizar crianças pequenas antes de qualquer capacidade de professão consciente de fé — já que o próprio Jesus recebeu e abençoou crianças sem exigir delas qualquer entendimento teológico prévio como condição para essa aproximação.

Vale, ainda, um exemplo pastoral concreto: paróquias que priorizam ativamente espaços acolhedores para crianças durante celebrações — evitando o antigo costume de silenciar ou afastar crianças barulhentas durante a missa — costumam citar diretamente este episódio como justificativa teológica para essa escolha pastoral, entendendo que criar barreiras à presença infantil na liturgia repete, em pequena escala, o mesmo erro cometido pelos discípulos naquele dia específico.

Vale um comentário final sobre a relação entre este texto e o próprio ministério de Jesus com os doze apóstolos: é quase irônico perceber que os mesmos homens escolhidos para “apascentar” o rebanho de Cristo após sua morte precisaram, nesse episódio específico, ser corrigidos justamente sobre como tratar os membros mais vulneráveis desse mesmo rebanho. É um lembrete útil de que liderança religiosa legítima nunca isenta ninguém, nem os apóstolos mais próximos de Jesus, de continuar aprendendo e sendo corrigido em áreas específicas de sensibilidade pastoral.

Vale, por fim, uma reflexão prática direta para quem lê este texto hoje como pai, mãe, avô ou avó: a próxima vez que uma criança pedir atenção num momento considerado inconveniente — durante uma ligação de trabalho, uma tarefa doméstica urgente, uma conversa importante entre adultos —, vale lembrar desta cena específica, e da reação visível de Jesus diante de qualquer tentativa de tratar a atenção à infância como interrupção de assuntos supostamente mais importantes.

Vale, por fim, lembrar que a própria estrutura literária de Mateus — colocando o episódio das crianças logo antes do encontro com o jovem rico — não parece acidental, mas parte de um projeto deliberado do evangelista de contrastar diferentes respostas ao chamado de Jesus, deixando ao leitor a tarefa de refletir sobre qual dessas respostas — a receptividade simples da infância, ou o apego adulto às próprias posses e status — melhor descreve sua própria disposição diante de Deus hoje.

Que essa pergunta permaneça aberta, sem resposta apressada, para quem lê este texto hoje — e que a resposta honesta, seja qual for, seja levada também em oração.

Deixai vir a mim as crianças — e, talvez, deixai também que a simplicidade delas continue ensinando algo a nós, adultos tão certos do que já sabemos.

Se este texto ajudou você a enxergar essa cena com olhos novos, considere compartilhá-lo com alguém que trabalha diretamente com crianças — catequistas, professores, pais de primeira viagem —, para quem esta reflexão pode trazer ânimo renovado numa tarefa que às vezes parece pequena, mas que Jesus, naquele dia, tratou como suficientemente importante para se indignar por ela.

Que cada criança ao seu redor hoje encontre, em você, alguém disposto a deixá-la chegar mais perto, nunca alguém que a afasta.

Boa reflexão, e boa prática, hoje e sempre.

Que Deus continue abençoando cada gesto pequeno de atenção genuína dedicado a uma criança, hoje mesmo.

Deixai vir a mim as crianças. Não as embaracem. Nunca.

Essa é a única resposta à altura do que Jesus demonstrou naquele dia específico, com todo o corpo e toda a voz.

Amém, e que assim seja, hoje e sempre, em cada casa e em cada paróquia.

Até a próxima reflexão, com carinho renovado por cada criança que Deus colocou no seu caminho.

Paz e bem para você e para todas as crianças que você ama.

Que este texto sirva, acima de tudo, de lembrete prático e concreto: da próxima vez que uma criança pequena interromper algo que você considerava importante, talvez seja exatamente esse o momento que Deus considera mais importante de todos.

Deixai vir a mim as crianças — uma frase curta, um convite que continua válido, hoje, em cada casa, escola e paróquia.

Que assim seja.

Fica o convite à prática diária.

Boa semana.

Adeus, por agora.

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