Novena de Santa Hildegarda de Bingen — 9 Dias de Oração à Sibila do Reno
Há uma mulher do século XII que foi simultaneamente mística, teóloga, filósofa, médica, botânica, compositora musical, dramaturga e profetisa — e que realizou tudo isto numa época em que as mulheres não tinham acesso às universidades nem à pregação pública. Santa Hildegarda de Bingen é o fenômeno mais extraordinário da cultura cristã medieval: uma abadessa renana que, a partir do seu convento no Reno, produziu uma obra que ainda hoje é estudada nas faculdades de medicina, musicologia, teologia e filosofia.
As suas visões — que ela chamava de “luz viva” — eram acompanhadas de uma música extraordinária que ainda hoje é gravada e executada em todo o mundo. A sua obra médica e botânica — a “Physica” e a “Causae et Curae” — foi utilizada como manual médico durante séculos. E as suas cartas proféticas a papas, imperadores e bispos tinham a franqueza de quem sabe que a autoridade de Deus supera a autoridade humana.
Bento XVI declarou-a Doutora da Igreja em 2012 — a quarta mulher a receber este título, depois de Santa Teresa de Ávila, Santa Catarina de Siena e Santa Teresinha. E a sua música — a “Symphonia armonie celestium revelationum” — ainda hoje ressoa como um dos mais extraordinários legados espirituais do Ocidente medieval.
Quem Foi Santa Hildegarda de Bingen

Hildegarda nasceu em 1098 em Bermersheim, perto de Alzey, Renânia, a décima filha de uma família nobre. Desde os três anos manifestou visões que mais tarde descreveria como ver “a luz viva.” Com oito anos foi entregue como oblata ao mosteiro de Disibodenberg, onde foi educada pela abadessa Jutta von Sponheim.
Após a morte de Jutta em 1136, Hildegarda foi eleita magistra da comunidade. Em 1141, com 43 anos, teve a grande visão em que uma voz lhe ordenou: “Escreve o que vês e ouves!” Com o apoio do monge Volmar, começou a escrever as visões que se tornariam o “Scivias” — o seu primeiro grande obra mística.
Fundou o seu próprio mosteiro em Rupertsberg, perto de Bingen, em 1150 — e depois uma filial em Eibingen. Realizou quatro viagens de pregação pela Alemanha — uma actividade extraordinária para uma mulher e uma abadessa do século XII. Correspondeu com o Papa Eugénio III, o Imperador Frederico Barbarossa, Bernardo de Claraval e centenas de outros.
A sua obra é monumental: três obras místicas (Scivias, Liber Vitae Meritorum, Liber Divinorum Operum), duas obras médicas (Physica, Causae et Curae), uma língua artificial (Lingua Ignota), 77 composições musicais (Symphonia), e cerca de 300 cartas. Morreu em 17 de setembro de 1179, com 81 anos. Declarada Doutora da Igreja em 7 de outubro de 2012 por Bento XVI. A sua festa é celebrada em 17 de setembro.
Como Rezar Esta Novena
- Faça o sinal da cruz e recite a oração de abertura
- Leia a meditação do dia
- Apresente a sua intenção específica
- Recite a oração do dia
- Reze o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Glória ao Pai
- Encerre com a oração de encerramento
Oração de Abertura (Todos os Dias)

Gloriosa Santa Hildegarda de Bingen, Doutora da Igreja e Sibila do Reno, intercedei por mim nesta novena. Vós que recebestes a ordem “escreve o que vês e ouves” e obedecestes durante quarenta anos, intercedei para que eu também obedeça ao que Deus me pede sem calcular as consequências. Amém.
Primeiro Dia — “Escreve o que Vês e Ouves”
Meditação: A ordem divina que Hildegarda recebeu em 1141 — “Escreve o que vês e ouves!” — e a sua hesitação inicial em obedecer são reveladoras. Hildegarda resistiu durante anos — sentia-se indigna, sem autoridade, inadequada para a missão. Adoeceu por causa da hesitação. E quando finalmente obedeceu, a obra que produziu alimentou a Igreja durante nove séculos. A resistência à missão custa mais do que a missão em si.
Santa Hildegarda, que adoeceste de hesitar antes de obedecer, intercedei para que eu não adie as missões que Deus me confia por me sentir indigno ou inadequado. Que eu obedecesse antes de me sentir preparado — porque a preparação vem na obediência e não antes dela. Amém.
Segundo Dia — A Música Celestial
Meditação: A música de Hildegarda — as 77 composições da “Symphonia” — é de uma beleza melódica que ainda hoje comove quem a ouve. Não era música académica: era música revelada — a expressão sonora das visões que recebia. Para Hildegarda, a música era o meio mais próximo do que havia existido antes da Queda: o som que aproximava a alma do Paraíso perdido. Esta teologia da música como mediação espiritual é uma das contribuições mais originais do seu pensamento.
Santa Hildegarda, compositora da música celestial, intercedei para que eu aprenda a encontrar Deus na beleza musical. Que a música sacra seja para mim o que foi para vós: não entretenimento mas ascensão, não decoração mas oração. Amém.
Terceiro Dia — A Medicina e a Botânica
Meditação: A obra médica de Hildegarda — a “Physica” e a “Causae et Curae” — é de uma riqueza extraordinária: catalogou centenas de plantas, minerais e animais com as suas propriedades terapêuticas, e desenvolveu uma teoria da saúde baseada no equilíbrio dos humores e na “viriditas” — a força vital verde que Deus infundiu na criação. Esta integração entre espiritualidade e medicina — que via a saúde do corpo como extensão da saúde da alma — é uma das visões mais holísticas da tradição cristã.
Santa Hildegarda, médica e botanista do século XII, intercedei pelos médicos, enfermeiros e todos os profissionais de saúde. Que o seu serviço aos doentes seja reconhecido como vocação e não apenas profissão. E intercedei para que a medicina moderna não perca de vista a dimensão espiritual da saúde humana. Amém.
Quarto Dia — A Profetisa das Cartas
Meditação: As cartas de Hildegarda a papas, imperadores e bispos são documentos proféticos de uma coragem extraordinária. Escreveu ao Papa Eugénio III, ao Imperador Frederico Barbarossa, a Bernardo de Claraval. Não pedia favores — avisava, repreendia, exortava. Esta voz profética — de uma mulher abadessa num século em que as mulheres não podiam pregar — é possível apenas quando quem fala tem a certeza interior de que fala em nome de Deus e não em nome próprio.
Santa Hildegarda, que escreveste a imperadores e papas sem medo, intercedei para que eu aprenda a dizer a verdade ao poder com a humildade de quem sabe que a verdade não é sua. E que o medo das consequências não me silencie quando Deus me pede que fale. Amém.
Quinto Dia — A Viriditas: A Força Verde de Deus
Meditação: Um dos conceitos mais originais de Hildegarda é a “viriditas” — a verdura, a força vital verde que Deus infundiu na criação e que é a expressão da vida divina no mundo natural. A viriditas não é apenas metáfora: é teologia da criação. O mundo natural é sagrado porque carrega a força vital de Deus. Esta visão — que precede em oito séculos a ecologia cristã — é o fundamento teológico mais sólido do cuidado com a criação.
Santa Hildegarda, teóloga da viriditas e pioneira da ecologia cristã, intercedei para que eu cuide da criação com a reverência de quem sabe que a vida que nela pulsa é expressão da vida de Deus. E que o cuidado com o mundo natural seja para mim acto de adoração e não apenas de responsabilidade ambiental. Amém.
Sexto Dia — A Abadessa Fundadora
Meditação: Hildegarda fundou o mosteiro de Rupertsberg contra a resistência do prior de Disibodenberg, que não queria perder a comunidade feminina que havia crescido sob a sua jurisdição. Ela insistiu, adoeceu de novo, e finalmente venceu. A fundação de Rupertsberg foi o acto de autonomia institucional que lhe deu o espaço para a obra que haveria de realizar. Às vezes, a missão exige a fundação de novos espaços em vez da adaptação aos existentes.
Santa Hildegarda, fundadora de Rupertsberg contra a resistência institucional, intercedei para que eu tenha discernimento para saber quando devo adaptar-me às estruturas existentes e quando devo criar novas. Que a coragem de fundar seja sempre acompanhada da humildade de obedecer. Amém.
Sétimo Dia — Doutora da Igreja
Meditação: Bento XVI declarou Hildegarda Doutora da Igreja em 2012 — novecentos anos após o início da sua obra. Esta demora — novecentos anos para reconhecer formalmente uma das maiores inteligências da história cristã — é um lembrete de que o reconhecimento eclesial pode ser muito mais lento do que a realidade que reconhece. Hildegarda não precisou de ser Doutora para ser grande. Mas o título confirma o que nove séculos de leitores já sabiam.
Santa Hildegarda, Doutora da Igreja declarada novecentos anos após a vossa obra, intercedei para que eu não necessite de reconhecimento imediato para servir fielmente. Que eu confie que o que Deus valida não precisa de validação humana imediata. E que sirva com a mesma qualidade que servistes, com ou sem título. Amém.
Oitavo Dia — A Língua Ignota
Meditação: Entre as obras mais invulgares de Hildegarda está a “Lingua Ignota” — uma língua artificial com cerca de novecentas palavras e um alfabeto próprio, criada para a comunicação mística dentro da sua comunidade. Esta criatividade linguística — de uma abadessa medieval que inventou uma língua — é expressão da mesma energia criativa que produziu a música, as visões e a medicina. Para Hildegarda, a criatividade era participação na criatividade de Deus.
Santa Hildegarda, criadora da Língua Ignota, intercedei para que eu aprenda a usar criativamente os dons que Deus me deu. Que eu não reprima a criatividade por medo de ser mal compreendido. E que cada expressão genuína dos dons que recebi seja reconhecida como participação na criatividade de Deus. Amém.
Nono Dia — Consagração Final
Meditação: Chegamos ao último dia. Santa Hildegarda de Bingen viveu 81 anos — dos quais os últimos quarenta foram de produção ininterrupta. Uma oblata entregue ao mosteiro aos oito anos tornou-se a maior polímata feminina da Idade Média. A sua “luz viva” — que via desde os três anos — iluminou a medicina, a música, a teologia e a profecia de nove séculos. E ainda ilumina.
Santa Hildegarda de Bingen, ao terminar esta novena, eu me comprometo a usar os dons que Deus me deu com a totalidade com que vós usastes os vossos. Intercedei pelas intenções desta novena. E que a “luz viva” que vos iluminava ilumine também a minha vida — com a clareza que Deus dá a quem obedece sem calcular as consequências. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oração de Encerramento (Todos os Dias)
Gloriosa Santa Hildegarda de Bingen, Doutora da Igreja e Sibila do Reno, recebei as orações desta novena. Intercedei por mim e pelas minhas intenções junto ao Senhor Jesus. Que a vossa criatividade ao serviço de Deus inspire a minha vida cristã. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Quando Rezar Esta Novena
- De 8 a 16 de setembro — nos nove dias antes da festa de 17 de setembro
- Por músicos, artistas e criativos cristãos
- Por médicos e profissionais de saúde
- Para encontrar Deus na beleza da criação
- Para pedir coragem de usar os dons recebidos
Outras Devoções Relacionadas
A devoção a Santa Hildegarda se aprofunda com outros conteúdos do site. A Novena de Santa Teresa de Ávila complementa — outra Doutora da Igreja que integrou experiência mística e rigor intelectual. A Novena de São Francisco de Assis aprofunda — Francisco e Hildegarda partilham a visão da criação como sacramento de Deus. O Salmo 104 — “quão numerosas são as Tuas obras, Senhor! Com sabedoria as fizeste todas” — é o salmo da viriditas de Hildegarda. E o Salmo 96 — “cantai ao Senhor um cântico novo” — exprime a inspiração musical de Hildegarda que compôs 77 obras para a glória de Deus.





