Novena de São Francisco de Assis — 9 Dias de Oração ao Patrono da Ecologia
Há santos que tocam o coração de pessoas muito além das fronteiras da Igreja Católica. São Francisco de Assis é um deles. O pobrezinho de Assis, que renunciou a uma fortuna para abraçar a pobreza radical, que pregou para os pássaros, que chamou o sol de irmão e a morte de irmã, que dizia que a paz começa dentro do coração de cada pessoa — este homem continua a fascinar e a inspirar oito séculos depois.
Mas conhecer São Francisco superficialmente é um risco: ele pode ser reduzido a um símbolo ecológico simpático, a uma estátua no jardim, a um amante dos animais. O Francisco real era algo muito mais radical — um homem que tomou o Evangelho absolutamente a sério, que quis viver exactamente como Jesus viveu, que encontrou no despojamento total a liberdade mais profunda que um ser humano pode experimentar. E que, no final da vida, recebeu os estigmas — as chagas de Cristo impressas no seu próprio corpo.
Esta novena convida a entrar na espiritualidade profunda de São Francisco — não apenas a admirar a sua ternura com a criação, mas a aprender com ele a radicalidade do Evangelho, a alegria na pobreza, a paz que vem do despojamento e o amor que não teme nenhum sofrimento.
Quem Foi São Francisco de Assis
Giovanni di Pietro di Bernardone nasceu em Assis, na Úmbria (Itália), por volta de 1181-1182. Seu pai era um rico comerciante de tecidos, e Francisco cresceu numa família abastada, com ambições de cavalaria e de glória mundana. Participou de uma batalha entre Assis e Perúgia, foi feito prisioneiro e passou um ano na prisão — uma experiência que começou a transformá-lo.
A conversão definitiva chegou de forma gradual: numa visão, Cristo crucificado lhe pediu para “reconstruir a minha Igreja”; Francisco vendeu os tecidos do pai para restaurar uma capelinha (São Damião) — e o pai o levou ao bispo exigindo o dinheiro de volta. Diante do bispo, Francisco fez um gesto dramático e inesquecível: tirou as próprias roupas e as devolveu ao pai, dizendo que de então em diante só tinha um Pai, que estava no céu.
Francisco começou a viver no campo, cuidando de leprosos, restaurando capelas. Logo outros jovens o seguiram. Em 1209, ele e onze companheiros foram a Roma pedir aprovação da sua forma de vida ao Papa Inocêncio III — que aprovou verbalmente a Regra franciscana. Nasceu a Ordem dos Frades Menores. Francisco chamou os seus frades de “fratelli minori” — irmãos menores, os menores entre os menores.
Em 1224, dois anos antes de morrer, Francisco recebeu os estigmas no Monte Alverne — as cinco chagas de Cristo impressas no seu corpo. Morreu em 3 de outubro de 1226, deitado na terra nua como havia pedido. Foi canonizado em 1228. Em 1979, o Papa João Paulo II o proclamou Patrono da Ecologia.
Como Rezar Esta Novena
Faça o sinal da cruz e recite a oração de abertura
Leia a meditação do dia
Recite a oração específica do dia
Reze o Pai-Nosso, a Ave-Maria e a Glória ao Pai
Encerre com a oração de encerramento
Oração de Abertura (Todos os Dias)
Glorioso São Francisco, Pobrezinho de Assis, que tão perfeitamente seguiste os passos de Jesus Cristo, intercedei por mim junto a Deus Nosso Senhor. Ensinai-me o caminho da simplicidade, da paz e do amor a toda a criação. Que a vossa vida seja para mim não apenas admiração, mas inspiração e desafio. Alcançai-me a graça de viver o Evangelho com a radicalidade e a alegria com que vós o vivestes. Amém.
Primeiro Dia — A Conversão que Custou Tudo
Meditação: A conversão de São Francisco não foi indolor nem barata. Custou a fortuna do pai, o prestígio social, a carreira, os amigos da vida mundana, e até as roupas que vestia. Mas também custou algo mais profundo: a ilusão de que a felicidade vinha de possuir. Quando Francisco devolveu tudo ao pai diante do bispo de Assis, ele não estava apenas fazendo um gesto dramático — estava descobrindo a liberdade. Aquele que não tem nada a perder não pode ser ameaçado. Esta é a lição do primeiro dia: a conversão verdadeira sempre custa algo — e o que damos é sempre menor do que o que recebemos.
São Francisco, que destes tudo por Cristo, intercedei para que eu também tenha coragem de soltar o que me prende. Não necessariamente riquezas materiais — mas os apegos interiores que me impedem de ser livre: o medo do que os outros pensam, a necessidade de controlar, o conforto que se tornou mais importante que Deus. Que eu experimente a liberdade que vós descobristes ao despir-vos diante do bispo. Amém.
Segundo Dia — “Ide e Reconstruí a Minha Igreja”
Meditação: A primeira missão que Francisco recebeu — “vai e reconstrói a minha Igreja, que está em ruínas” — ele entendeu literalmente: foi restaurar com as suas próprias mãos a capelinha de São Damião. Só depois compreendeu que a missão era mais profunda: reconstruir a Igreja como comunidade de vida evangélica radical. A história da Igreja mostra repetidamente este padrão: quando a instituição perde o fio do Evangelho, Deus suscita homens e mulheres que a reconstroem não com argumentos, mas com a vida.
São Francisco, que obedecestes ao chamado de Cristo para reconstruir, intercedei pela Igreja hoje. Pela renovação das comunidades cristãs, pelo surgimento de novas gerações que tomem o Evangelho a sério. E por mim: onde sou chamado(a) a “reconstruir” — na minha família, na minha comunidade, no meu ambiente de trabalho? Que eu não espere que os outros comecem. Amém.
Terceiro Dia — A Alegria Franciscana
Meditação: São Francisco é o santo da alegria — não a alegria superficial de quem não conhece o sofrimento, mas a alegria profunda de quem descobriu que a posse de nada é a posse de tudo. Ele chamava os seus frades de “júglares de Deus” — menestréis, artistas da alegria. Em um de seus escritos, descreve a “perfeita alegria” como a capacidade de ser rejeitado, humilhado, incompreendido — e ainda assim manter a paz interior, porque a alegria verdadeira não depende das circunstâncias externas, mas da presença de Deus.
São Francisco, mestre da alegria no despojamento, ensinai-me a alegria que não depende de ter, de ser reconhecido, de ter sucesso. Quando a vida me tira o que eu pensava que precisava para ser feliz, mostrai-me que a felicidade verdadeira estava em outro lugar desde o início. Que eu aprenda a ser um(a) “júglar de Deus” — alguém que espalha alegria não porque tudo está bem, mas porque Deus está presente. Amém.
Quarto Dia — O Cântico das Criaturas
Meditação: O “Cântico das Criaturas” de São Francisco — “Louvado sejas, meu Senhor, por todas as criaturas, especialmente pelo irmão Sol” — foi composto quando Francisco estava quase cego, sofrendo de uma doença ocular dolorosa, confinado numa choupana escura. E neste momento de maior sofrimento físico, ele cantou! Cantou o sol que não conseguia mais ver, a lua, as estrelas, a irmã Água, o irmão Fogo, a irmã Terra. O Cântico das Criaturas é o louvor de alguém que aprendeu a ver com o coração o que os olhos já não alcançam.
São Francisco, cantor da criação, ensinai-me a admirar e a cuidar do mundo que Deus criou. Que eu não trate a natureza como recurso a explorar, mas como irmã a respeitar. E que, nos momentos em que a minha vida é difícil e os meus “olhos” não conseguem ver a beleza, eu ainda possa cantar — cantando com o coração o que já não consigo ver com os olhos. Amém.
Quinto Dia — O Encontro com o Leproso
Meditação: Francisco escreveu no seu Testamento que o momento definitivo da sua conversão foi quando encontrou um leproso no caminho. Antes, os leprosos lhe causavam repúdio físico e moral — ele desviava de propósito quando se aproximavam. Naquele dia, desceu do cavalo, foi ao encontro do leproso, abraçou-o e o beijou. E quando se levantou, o leproso havia desaparecido. Francisco não sabia ao certo o que havia acontecido — mas sabia que tinha encontrado Cristo no mais rejeitado dos seres. “O que antes me parecia amargo tornou-se doçura da alma e do corpo.”
São Francisco, que encontrastes Cristo no leproso, ajudai-me a ver o rosto de Jesus nos que a sociedade descarta: nos pobres, nos doentes, nos migrantes, nos presos, nos que todos evitam. Que eu não desvie do caminho quando encontro alguém que me causa desconforto. Que o encontro com o “leproso” da minha vida se torne para mim, como para vós, o ponto de virada. Amém.
Sexto Dia — A Paz que Começa em Mim
Meditação: “Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz” — esta oração, associada ao nome de São Francisco, é um dos textos espirituais mais conhecidos do mundo. Mas a paz de Francisco não era apenas sentimento de bem-estar — era missão. Francisco foi mensageiro de paz em conflitos militares, mediou guerras entre cidades, foi ao sultão do Egito no meio das Cruzadas para propor diálogo em vez de guerra. A paz que Francisco pregava começava no interior de cada pessoa e transbordava para o mundo ao redor.
São Francisco, instrumento de paz, intercedei para que eu me torne canal de reconciliação onde há conflito. Nas relações rompidas da minha família, nas tensões do meu trabalho, nas divisões da minha comunidade — que eu seja o primeiro a dar o passo da reconciliação, sem esperar que o outro comece. E que a paz comece em mim: que eu reconcilie primeiro o que está dividido dentro do meu próprio coração. Amém.
Sétimo Dia — A Pobreza como Liberdade
Meditação: São Francisco chamava a Pobreza de “Dama Pobreza” — tratava a pobreza voluntária como uma noiva amada, não como um fardo. Esta perspectiva parece incompreensível numa cultura que mede o valor das pessoas pelo que possuem. Mas Francisco descobriu algo que a sabedoria das grandes tradições espirituais confirma: os apegos materiais criam ansiedade, a dependência das coisas cria medo, e a posse excessiva rouba mais do que dá. A pobreza evangélica não é miséria — é a liberdade de quem sabe que a sua identidade não depende do que possui.
São Francisco, esposo da Dama Pobreza, ajudai-me a libertar-me dos apegos que me escravizam. Não peço que eu abandone tudo — peço que aprenda a usar sem me tornar escravo(a) do que uso. Que as minhas posses sirvam à vida e não governem a vida. Que eu encontre na simplicidade voluntária a liberdade que a acumulação nunca poderá dar. Amém.
Oitavo Dia — Os Estigmas: O Amor que Transforma
Meditação: Dois anos antes de morrer, São Francisco subiu ao Monte Alverne para um retiro de quarenta dias. Ali, em visão, um serafim crucificado apareceu-lhe — e no corpo de Francisco imprimiram-se as cinco chagas de Cristo: nas mãos, nos pés e no lado. Os estigmas eram ao mesmo tempo o sinal máximo da sua identificação com Cristo e uma dor constante até a morte. Para Francisco, era o cumprimento do seu desejo mais profundo: ser completamente conforme ao Cristo crucificado. O amor perfeito não apenas contempla o sofrimento do Amado — acaba por partilhá-lo.
São Francisco, estigmatizado por amor a Cristo, intercedei para que o meu amor a Jesus não seja apenas palavras e sentimentos, mas vida real. Que quando o seguimento de Jesus custar algo — rejeição, sacrifício, incompreensão — eu não recue. Que as minhas “chagas” quotidianas sejam unidas às de Cristo, tornando-se não apenas sofrimento, mas redenção. Amém.
Nono Dia — “Bem-vinda, irmã Morte”
Meditação: Na última versão do Cântico das Criaturas, escrita quando Francisco estava à morte, ele adicionou uma estrofe: “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã Morte corporal.” Morreu deitado na terra nua, como havia pedido, sendo lida a sua passagem bíblica favorita: o capítulo 13 do Evangelho de João, em que Jesus lava os pés dos discípulos. O homem que havia passado a vida despojando-se de tudo estava agora pronto para o despojamento final — e o acolheu como uma irmã. A santidade é isso: chegar ao fim da vida sem medo de dar o que resta.
São Francisco, que recebestes a morte como irmã, intercedei para que eu aprenda a viver sem medo de morrer. Que a certeza da ressurreição torne a morte não uma ameaça mas uma passagem. E que, ao terminar esta novena, eu retome a vida com um pouco da vossa coragem, da vossa alegria e do vosso amor radical ao Evangelho. Que eu viva cada dia como Francisco viveu: inteiramente, sem reservas, sem meias medidas. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oração de Encerramento (Todos os Dias)
Glorioso São Francisco, Pobrezinho de Assis, que seguistes tão de perto os passos de Cristo, recebei as orações desta novena. Intercedei por mim junto a Deus Nosso Senhor e alcançai-me as graças que, segundo a Sua vontade, me são necessárias. Ensinai-me a amar a pobreza, a abraçar a cruz, a servir os pobres, a cuidar da criação e a buscar a paz. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
Oração da Paz de São Francisco
Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
onde houver discórdia, que eu leve a união;
onde houver dúvida, que eu leve a fé;
onde houver erro, que eu leve a verdade;
onde houver desespero, que eu leve a esperança;
onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, fazei que eu procure mais
consolar do que ser consolado,
compreender do que ser compreendido,
amar do que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se nasce para a vida eterna. Amém.
Quando Rezar Esta Novena
De 25 de setembro a 3 de outubro — nos nove dias que antecedem a festa de 4 de outubro
Durante o Tempo Comum — como aprofundamento da espiritualidade franciscana
Em momentos de conflito e necessidade de paz
Como preparação para gestos concretos de caridade com os pobres
Em grupos de oração ecológica e de espiritualidade da criação
Outras Devoções Relacionadas
A devoção a São Francisco se aprofunda com outros conteúdos do site. A Novena de Santo Antônio complementa esta, pois Santo Antônio foi frade franciscano e partilhava o mesmo espírito de Francisco. O Salmo 148 — “Louvai ao Senhor dos Céus” — é o salmo cósmico que mais se aproxima do espírito do Cântico das Criaturas de Francisco: toda a criação convocada ao louvor. O Salmo 23 exprime a confiança na Providência que Francisco viveu de forma tão radical. E a Novena do Divino Espírito Santo aprofunda a docilidade ao Espírito que foi a marca de toda a vida franciscana.