Salmo 145 — Texto Completo, Significado e Oração “Exaltarei a Ti, Meu Deus e Rei”
Há salmos que nascem da crise. Há salmos que nascem da contemplação. E há salmos que nascem de uma decisão — a decisão deliberada, diária, de louvar a Deus não porque as circunstâncias são favoráveis, mas porque Deus é quem Ele é. O Salmo 145 pertence a essa terceira categoria. É o salmo da decisão de louvar.
“Exaltarei a Ti, meu Deus e Rei, e bendirei o Teu nome para sempre e eternamente. Cada dia Te bendirei, e louvarei o Teu nome para sempre e eternamente.” Não “às vezes Te louvarei.” Não “quando me sentir inspirado.” Cada dia. Para sempre. Eternamente.
O Salmo 145 é o décimo sétimo e último dos salmos davídicos finais (138–145) — e é o único do Saltério que tem o título explícito de tehillah (תְּהִלָּה) — hino de louvor. Por isso, em hebraico o livro dos Salmos inteiro se chama Tehillim — “louvores.” O Salmo 145 é a expressão mais pura do que o Saltério inteiro pretende ser: um livro de louvor a Deus.
É também um acróstico alfabético — em hebraico, cada versículo começa com uma letra diferente do alfabeto, da alef até o tav. Esta estrutura não é decorativa: é a declaração de que o louvor a Deus abrange tudo, de A a Z, do começo ao fim de tudo que existe. Não há aspecto da realidade que escape ao louvor; não há letra do alfabeto que não seja instrumento de glorificação.
Salmo 145 — Texto Completo

Hino de louvor. De Davi.
1 Exaltarei a ti, meu Deus e Rei,
e bendirei o teu nome para sempre e eternamente.
2 Cada dia te bendirei,
e louvarei o teu nome para sempre e eternamente.
3 Grande é o Senhor e mui digno de louvor,
e a sua grandeza é insondável.
4 Uma geração louvará as tuas obras à outra geração
e anunciará as tuas poderosas façanhas.
5 Falarei das gloriosas honras da tua majestade
e das tuas obras maravilhosas.
6 Falarão do poder dos teus feitos terríveis,
e eu narrarei a tua grandeza.
7 Publicarão a memória da tua muita bondade
e cantarão a tua justiça com alegria.
8 Misericordioso e clemente é o Senhor,
longânimo e de grande bondade.
9 O Senhor é bom para com todos,
e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras.
10 Todas as tuas obras te louvarão, Senhor,
e os teus santos te bendirão.
11 Falarão da glória do teu reino
e narrarão o teu poder,
12 para fazer saber aos filhos dos homens as tuas poderosas façanhas
e a glória da majestade do teu reino.
13 O teu reino é um reino eterno,
e o teu domínio dura por todas as gerações.
14 O Senhor sustenta a todos os que caem
e levanta a todos os que estão abatidos.
15 Os olhos de todos esperam em ti,
e tu lhes dás o alimento no seu tempo.
16 Abres a tua mão
e satisfazes o desejo de todo o ser vivente.
17 Justo é o Senhor em todos os seus caminhos
e bondoso em todas as suas obras.
18 Perto está o Senhor de todos os que o invocam,
de todos os que o invocam em verdade.
19 Cumprirá o desejo dos que o temem;
ouvirá o seu clamor e os salvará.
20 O Senhor guarda a todos os que o amam,
mas destruirá a todos os ímpios.
21 A minha boca falará o louvor do Senhor,
e toda carne bendirá o seu santo nome para sempre e eternamente.— Salmo 145:1-21 (Almeida Revista e Atualizada)
O Único Tehillah do Saltério
O título hebraico do Salmo 145 é único: tehillah leDavid — “hino de louvor de Davi.” Nenhum outro salmo tem esse título exato. Todos os outros são mizmor (canto), shir (canção), maskil (instrução), miktam (poema meditativo) — mas apenas o 145 é tehillah. E é por isso que o livro inteiro, em hebraico, se chama Tehillim — “hinos de louvor.” O Salmo 145 nomeou o Saltério inteiro.
Na tradição judaica, o Salmo 145 — chamado de Ashrei, pela palavra com que é introduzido na liturgia — é um dos textos mais importantes do culto diário. O Talmude (Berakhot 4b) declara: “Quem recita o Ashrei três vezes por dia tem a certeza de que é filho do mundo que vem.” Não é exagero retórico — é o reconhecimento de que a prática diária de louvar a Deus com o Salmo 145 forma o caráter, orienta o coração e define a identidade do adorador.
Estrutura do Salmo 145

Versículos 1–3 — A Decisão de Louvar: A abertura com a resolução pessoal (“exaltarei”, “bendirei”, “louvarei”) e a declaração da grandeza insondável de Deus.
Versículos 4–7 — A Transmissão Intergeracional do Louvor: As gerações que se sucedem transmitindo o louvor umas às outras — as obras, as façanhas, a bondade e a justiça de Deus proclamadas de geração em geração.
Versículos 8–9 — O Caráter de Deus: A citação direta da revelação do nome divino de Êxodo 34:6 — “misericordioso e clemente, longânimo e de grande bondade.”
Versículos 10–13 — O Reino Eterno: Toda a criação louva; os santos proclamam; o reino de Deus é eterno e abrange todas as gerações.
Versículos 14–20 — A Bondade Concreta de Deus: Seis descrições do que Deus faz concretamente — sustenta os que caem, levanta os abatidos, dá alimento, satisfaz o desejo, ouve o clamor, guarda os que o amam.
Versículo 21 — A Resolução Final: “A minha boca falará o louvor do Senhor, e toda carne bendirá o seu santo nome para sempre e eternamente.” O individual que se expande para o universal.
Análise Versículo a Versículo
Versículos 1–3 — “Exaltarei a Ti, Meu Deus e Rei”
“Exaltarei a ti, meu Deus e Rei, e bendirei o teu nome para sempre e eternamente. Cada dia te bendirei…”
“Exaltarei” (aromimekha) — o verbo significa levantar, elevar. O louvor é um ato de elevação: o orante não está apenas expressando sentimentos, está ativamente elevando o nome de Deus, contribuindo para que o reconhecimento da grandeza divina suba. A liturgia do louvor é uma atividade real que tem efeito real.
“Meu Deus e Rei” — dois títulos que descrevem duas dimensões da relação. “Meu Deus” (Elohai) é a dimensão pessoal e relacional — o Deus que pertence a mim, com quem tenho aliança. “Rei” (HaMelekh) é a dimensão soberana e universal — o que governa sobre tudo. O louvar de Davi une intimidade e reverência: ao mesmo Deus que é pessoalmente seu, ele reconhece a soberania absoluta.
“Cada dia te bendirei” (bekhol-yom avarekekha) — o adjetivo “cada” é o mais radical que a oração pode usar. Não “nos dias bons” nem “quando tiver disposição” — cada dia. Este compromisso de louvor diário é o eixo de toda a espiritualidade sálmica: a prática repetida, independentemente do estado emocional, que forma o caráter mais do que qualquer experiência pontual intensa.
Versículos 4–7 — De Geração em Geração
“Uma geração louvará as tuas obras à outra geração e anunciará as tuas poderosas façanhas.”
O versículo 4 introduz uma dimensão do louvor que raramente é celebrada: sua natureza intergeracional. O louvor não é apenas uma experiência individual ou comunitária no presente — é a transmissão de memória e fé de geração em geração. Cada geração recebe o testemunho das obras de Deus das gerações anteriores e tem a responsabilidade de transmiti-lo às gerações seguintes.
Esta é a teologia do haggadah — a narrativa que se conta. Em cada Seder de Páscoa, os pais contam aos filhos o que Deus fez no Egito. Em cada liturgia cristã, a Igreja proclama o que Deus fez em Cristo. O louvor é o veículo da memória sagrada — e a memória sagrada é o que sustenta a fé quando a experiência presente não oferece evidências suficientes.
Os versículos 5-7 descrevem o conteúdo do louvor transmitido: a glória da majestade, as obras maravilhosas, o poder dos feitos, a grandeza, a bondade e a justiça. Não é um louvor vago — é louvor com conteúdo específico, fundado em realidades objetivas sobre quem Deus é e o que Ele fez.
Versículos 8–9 — O Caráter de Deus
“Misericordioso e clemente é o Senhor, longânimo e de grande bondade. O Senhor é bom para com todos, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras.”
O versículo 8 é uma citação quase literal de Êxodo 34:6 — a auto-revelação de Deus a Moisés na fenda da rocha após o episódio do bezerro de ouro. Ali Deus proclamou seu próprio nome e caráter: “misericordioso e clemente, longânimo, e grande em benignidade e fidelidade.” O Salmo 145 incorpora essa revelação como o coração do louvor — louvar a Deus é proclamar o seu caráter revelado.
Quatro atributos divinos são listados: misericordioso (rachum — que vem de rechem, útero, amor materno profundo), clemente (chanun — gracioso, generoso), longânimo (erekh apayim — literalmente “de nariz comprido”, a paciência de quem não explode facilmente em ira) e de grande bondade (gadol chesed — o amor leal em sua máxima expressão).
O versículo 9 expande a bondade divina para além de Israel: “o Senhor é bom para com todos, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras.” Dois “todos” que excluem qualquer exclusividade — a bondade de Deus não é tribal nem condicional. Ela abrange toda a criação, toda criatura, toda obra de suas mãos.
Versículos 14–16 — O Deus que Sustenta e Alimenta
“O Senhor sustenta a todos os que caem e levanta a todos os que estão abatidos. Os olhos de todos esperam em ti, e tu lhes dás o alimento no seu tempo. Abres a tua mão e satisfazes o desejo de todo o ser vivente.”
Esta seção é a mais concreta do salmo — e uma das mais amadas de toda a tradição judaica. Especialmente o versículo 16 — “abres a tua mão e satisfazes o desejo de todo o ser vivente” — tornou-se parte da bênção após as refeições (Birkat Hamazon) no judaísmo. É a ação de graças antes do pão: reconhecer que a mão aberta de Deus é a fonte de todo sustento.
“O Senhor sustenta a todos os que caem” (somekh Adonai lekol-hanoflim) — a imagem é de Deus como apoio, como a mão que evita a queda fatal. Não que os fiéis nunca caiam — mas que quando caem, há uma mão que os sustenta antes do impacto definitivo. Esta promessa é o fundamento da esperança nos momentos de maior fragilidade.
“Os olhos de todos esperam em Ti” (v.15) — toda criatura, consciente ou não, tem sua existência dependente da provisão divina. Os olhos do pássaro que busca seu grão, do lobo que caça, da criança que chora de fome — todos esperam, de formas diferentes, no mesmo Criador que abriu o universo e o mantém em existência a cada instante.
Versículos 17–20 — Proximidade e Fidelidade
“Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade.”
O versículo 18 é um dos mais consoladores do Saltério: “perto está o Senhor de todos os que o invocam.” A proximidade de Deus não é resultado do mérito humano — é resultado da invocação sincera (“em verdade” — be’emet, com autenticidade, não em performance religiosa).
Esta promessa de proximidade é a resposta ao medo mais profundo da vida espiritual: o medo de que Deus esteja distante, de que o clamor não chegue a lugar nenhum, de que a oração suba para o vazio. O Salmo 145 responde com certeza: perto está o Senhor. A distância percebida não é a realidade divina — é o estado interior do orante que precisa voltar ao clamor verdadeiro.
A Teologia do Salmo 145
1. O louvor é decisão, não apenas emoção: “Cada dia te bendirei” — independentemente de como o dia começou, independentemente do estado emocional, a decisão de louvar é feita. Esta é a maturidade espiritual que transforma o louvor de expressão de sentimentos em ato de fé deliberado.
2. A grandeza de Deus é insondável — e isso é motivo de louvor: “A sua grandeza é insondável” (v.3) não é frustrante — é libertador. Um Deus completamente compreensível seria um Deus do tamanho humano. O Deus insondável é o Deus que pode ser o fundamento absoluto de tudo.
3. O louvor é intergeracional e missionário: As gerações que transmitem o louvor umas às outras; o louvor que faz “saber aos filhos dos homens” as obras de Deus (v.12). O louvor autêntico não se fecha em si mesmo — ele se propaga, alcança os que não sabem ainda, e convoca novas gerações.
4. A bondade de Deus é universal: “Bom para com todos… misericórdias sobre todas as suas obras.” O Salmo 145 é um dos textos mais universalistas do Antigo Testamento — a bondade divina não respeita fronteiras nacionais ou religiosas. Todo ser vivente é destinatário da abertura da mão divina.
O Salmo 145 no Novo Testamento e na Tradição Cristã
O versículo 15-16 ecoa na pregação de Jesus sobre a providência em Mateus 6:25-34: as aves do céu não semeiam nem colhem, mas o Pai celestial as alimenta. Jesus está desenvolvendo a teologia do Salmo 145 — o Deus que abre a mão e satisfaz o desejo de todo ser vivente é o mesmo Pai que garante a provisão para os filhos humanos.
O versículo 18 — “perto está o Senhor de todos os que o invocam” — ressoa com Romanos 10:13: “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.” A proximidade de Deus aos que o invocam, prometida no Salmo 145, encontra seu cumprimento definitivo na pessoa de Cristo — Deus que se aproximou de forma tão radical que habitou entre nós.
Santo Agostinho comentou o versículo 3 — “a sua grandeza é insondável” — com uma frase famosa: “Fizeste-nos para Ti, e o nosso coração está inquieto até que repousa em Ti.” A insondabilidade de Deus é o que mantém o coração sempre em movimento em direção a Ele, nunca completamente satisfeito com nenhuma experiência parcial.
Como Viver o Salmo 145 no Cotidiano
1. Como Oração Diária Estruturada — Versículos 1–2
Declarar os versículos 1-2 como compromisso diário de louvor: “Exaltarei a Ti, meu Deus e Rei. Cada dia Te bendirei.” Não esperar sentir vontade de louvar — fazer da decisão de louvar o ponto de partida do dia. A Oração da Manhã é o contexto natural para essa prática.
2. Como Meditação sobre o Caráter de Deus — Versículos 8–9
Meditar nos quatro atributos do versículo 8 — misericordioso, clemente, longânimo, de grande bondade — como descrição do Deus com quem se ora. Esta meditação transforma a oração: não se está diante de um Juiz distante, mas diante do Deus cujo caráter é fundamentalmente amor. Os versículos sobre o amor de Deus aprofundam essa meditação.
3. Como Bênção Antes das Refeições — Versículo 16
“Abres a Tua mão e satisfazes o desejo de todo o ser vivente” — declarar este versículo antes de cada refeição como ação de graças pela provisão divina. É o versículo que a tradição judaica usa na bênção após as refeições — e que o cristão pode usar antes delas como reconhecimento de que toda comida é dom da mão aberta de Deus.
4. Como Transmissão Intergeracional da Fé — Versículo 4
“Uma geração louvará as tuas obras à outra geração” — contar aos filhos, netos e jovens as obras de Deus na própria história. O louvor como narrativa transmitida é um dos atos mais poderosos de formação espiritual das novas gerações. O Salmo 78 aprofunda esse tema da transmissão intergeracional da fé.
O Salmo 145 na Liturgia Cristã
Na Liturgia das Horas, o Salmo 145 é dividido em duas partes e aparece nas Vésperas do domingo em várias semanas do saltério. Rezá-lo ao encerrar o Dia do Senhor — o dia em que a comunidade se reuniu para louvar — é perfeito: é o louvor que sustenta o louvor.
Na tradição judaica, o Salmo 145 é central na liturgia diária — rezado duas vezes no serviço matinal (Shacharit) e uma vez no serviço da tarde (Minchah). Três vezes por dia, o judeu fiel declara “exaltarei a Ti, meu Deus e Rei” e “cada dia Te bendirei.” O ritmo triário de oração que Jesus herdou e praticou.

Oração Baseada no Salmo 145
Exaltarei a Ti, meu Deus e Rei.
Não porque hoje esteja bem —
mas porque Tu és quem és,
e isso é razão suficiente
para cada dia,
para sempre,
para eternamente.
Cada dia Te bendirei.
Não só nos dias de vitória.
Não só quando a evidência confirma a fé.
Cada dia — inclusive este.
Misericordioso e clemente és Tu.
Longânimo e de grande bondade.
Bom para com todos —
não apenas para com os que Te merecem,
mas para com toda a Tua criação.
Sustenta-me quando eu cair.
Levanta-me quando estiver abatido.
Abre a Tua mão sobre a minha necessidade.
E fica perto — porque Te invoco em verdade.
Que a minha boca fale o Teu louvor.
Que toda carne bendiça o Teu santo nome.
Para sempre.
E eternamente.
Amém.
Frases do Salmo 145 para Compartilhar
- “Exaltarei a ti, meu Deus e Rei, e bendirei o teu nome para sempre e eternamente.” — Salmo 145:1
- “Cada dia te bendirei, e louvarei o teu nome para sempre e eternamente.” — Salmo 145:2
- “Misericordioso e clemente é o Senhor, longânimo e de grande bondade.” — Salmo 145:8
- “O Senhor é bom para com todos, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras.” — Salmo 145:9
- “Abres a tua mão e satisfazes o desejo de todo o ser vivente.” — Salmo 145:16
- “Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade.” — Salmo 145:18
- “Louvar a Deus cada dia não é emoção — é decisão. E essa decisão forma o caráter.”
O Salmo 145 e Outros Conteúdos do Site
- Salmo 103 — “Bendize o Senhor, ó Minha Alma” — o par natural do Salmo 145: mesma exuberância de louvor, mesmos atributos divinos celebrados.
- Salmo 136 — “A Sua Misericórdia Dura para Sempre” — o chesed eterno celebrado no versículo 8 do Salmo 145.
- Salmo 23 — “O Senhor é o Meu Pastor” — a provisão de Deus descrita nos versículos 15-16 do Salmo 145.
- Salmo 144 — o salmo anterior desta coleção davídica final.
- Versículos sobre o Amor de Deus — os atributos divinos do versículo 8 aprofundados.
- Versículos de Esperança — a proximidade de Deus prometida no versículo 18.



