Salmo 31 — Texto Completo, Significado e Oração "Em Tuas Mãos Entrego o Meu Espírito"

Salmo 31 — Texto Completo, Significado e Oração “Em Tuas Mãos Entrego o Meu Espírito”

Salmo 31 — Texto Completo, Significado e Oração “Em Tuas Mãos Entrego o Meu Espírito”

O Salmo da Entrega Total — As Palavras que Jesus Disse na Cruz

Salmo 31 — Texto Completo, Significado e Oração

O Salmo 31 contém um dos versículos mais famosos de toda a Bíblia — e ao mesmo tempo um dos menos reconhecidos na sua fonte: “Em tuas mãos entrego o meu espírito” (v.5). Estas foram as últimas palavras de Jesus Cristo na Cruz, registadas em Lucas 23:46. O que Jesus disse no momento de morrer não foi uma invenção espontânea — foi a recitação de um salmo que todo judeu piedoso sabia de cor. Jesus morreu com a oração de Davi nos lábios, transformando a oração veterotestamentária do justo perseguido na oração definitiva do Justo que sofreu para salvar o mundo.

O Salmo 31 é uma das maiores orações de confiança e entrega do saltério. Com 24 versículos, é extenso e inclui todos os registos da experiência espiritual: clamor urgente (v.1-2), confissão de fé (v.3-5), lamento pelo sofrimento (v.9-13), clamor de socorro (v.14-18), louvor pela bondade de Deus (v.19-22) e exortação comunitária (v.23-24). É salmo de vida inteira — que não simplifica, que inclui a complexidade real da experiência humana, mas que encontra em cada momento o mesmo refúgio: Deus.

Para qualquer pessoa em situação de entrega — ao fim das próprias forças, ao fim do que pode controlar, no momento em que a única opção real é confiar — o Salmo 31 é a oração feita sob medida. “Em tuas mãos entrego o meu espírito” não é expressão de derrota — é a expressão mais radical e mais libertadora de confiança. É colocar o que é mais precioso — o próprio ser — nas mãos do Deus que é rocha e fortaleza (v.3).

Salmo 31 — Texto Completo

Ao mestre de canto. Salmo de Davi.

1 Em ti, Senhor, me refugio; não me deixes jamais envergonhado; livra-me pela tua justiça.
2 Inclina para mim os teus ouvidos; apressa-te em me livrar; sê-me uma rocha forte, uma fortaleza para me salvar.
3 Pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza; portanto, pelo teu nome, guia-me e conduz-me.
4 Tira-me da rede que me puseram às escondidas, pois tu és a minha força.
5 Em tuas mãos entrego o meu espírito; tu me resgataste, Senhor Deus de verdade.
6 Aborreço os que guardam vaidades vãs; mas eu confio no Senhor.
7 Alegrar-me-ei e me regozijarei na tua misericórdia, pois viste a minha afflição; conheceste as angústias da minha alma
8 e não me entregaste nas mãos do inimigo; puseste os meus pés num lugar espaçoso.
9 Tem misericórdia de mim, Senhor, pois estou angustiado; os meus olhos consumiram-se de tristeza, a minha alma e o meu ventre.
10 Pois a minha vida se gastou de tristeza e os meus anos em gemidos; as minhas forças falham por causa da minha iniquidade, e os meus ossos se consomem.
11 Por causa de todos os meus adversários tornei-me opróbrio; especialmente para os meus vizinhos, e para meus conhecidos, um terror; os que me viam na rua fugiam de mim.
12 Fui esquecido como um morto, saído da memória; tornei-me como um vaso quebrado.
13 Pois ouvi a maledicência de muitos; havia terror em toda a volta; quando se consultavam juntos contra mim, tramavam tirar-me a vida.
14 Mas eu confio em ti, Senhor; digo: Tu és o meu Deus.
15 Os meus tempos estão na tua mão; livra-me das mãos dos meus inimigos e dos que me perseguem.
16 Faze brilhar o teu rosto sobre o teu servo; salva-me pela tua misericórdia.
17 Não me deixes envergonhado, Senhor, pois te invoquei; sejam envergonhados os ímpios, sejam postos em silêncio no além.
18 Emudeçam os lábios mentirosos que com soberba e desprezo falam contra o justo coisas insolentes.
19 Quão grande é a tua bondade, que reservaste para os que te temem, que realizaste para os que se refugiam em ti, à vista dos filhos dos homens!
20 Tu os escondes no segredo da tua presença, longe das conspirações dos homens; tu os guardas num abrigo longe da contenda das línguas.
21 Bendito seja o Senhor, porque tem manifestado as suas maravilhosas misericórdias para comigo numa cidade sitiada.
22 Contudo, eu disse na minha pressa: Estou cortado diante dos teus olhos; mas tu ouviste a voz das minhas súplicas, quando clamei a ti.
23 Amai ao Senhor, vós os seus santos; o Senhor guarda os fiéis, mas paga fartamente ao que procede soberbamente.
24 Sede fortes, e o vosso coração se fortifique, todos vós que esperais no Senhor.

— Salmo 31:1-24 (Almeida Revista e Atualizada)

Contexto e Situação — O Justo Cercado

Salmo 31 — Texto Completo, Significado e Oração

O Salmo 31 descreve situação de sofrimento múltiplo — não apenas perseguição externa mas também abandono social, doença física e angústia interior. Os versículos 9-13 formam um dos mais detalhados e mais honestos retratos do sofrimento humano em todo o saltério: olhos consumidos de tristeza (v.9), anos gastos em gemidos (v.10), ossos que se consomem (v.10), ser “esquecido como um morto” (v.12), ter-se tornado “como um vaso quebrado” (v.12), ouvir as conspirações dos inimigos (v.13). É sofrimento que atinge todas as dimensões — física, social, psicológica e espiritual.

Neste contexto extremo, o versículo 5 brilha com intensidade única: “Em tuas mãos entrego o meu espírito.” Não é entrega fácil — é entrega no contexto de sofrimento intenso, perseguição real, abandono social, conspiração dos inimigos. A entrega do Salmo 31 não é a de quem está confortável e entrega por devoção — é a de quem está no limite e entrega porque não há mais alternativa. É a entrega mais real e mais preciosa.

Versículos sobre Perdão — Os Mais Poderosos da Bíblia - imagem 4

Estrutura do Salmo 31 — Cinco Movimentos

O Salmo 31 tem estrutura complexa que reflete a complexidade da experiência que documenta:

Movimento 1 — Confiança e Entrega (v.1-8): Declaração de refúgio em Deus (v.1-4), a entrega do espírito (v.5), a declaração de confiança (v.6-8).

Movimento 2 — O Lamento Intenso (v.9-13): Descrição detalhada do sofrimento físico, social e espiritual — o ponto mais baixo do salmo.

Movimento 3 — O Mas Eu (v.14-18): A virada: “Mas eu confio em ti, Senhor” (v.14) — o mesmo “mas eu” do Salmo 13:5. Pedidos específicos de livramento e de silêncio dos ímpios.

Movimento 4 — O Louvor pela Bondade de Deus (v.19-22): Contemplação da bondade reservada aos que temem a Deus, bênção pelo livramento na “cidade sitiada” (v.21), honestidade sobre o desespero passado (v.22).

Movimento 5 — Exortação Comunitária (v.23-24): “Amai ao Senhor” e “sede fortes” — a experiência pessoal de Davi transforma-se em instrução para a comunidade.

Análise dos Versículos Centrais

Versículos 1-4 — Em Ti, Senhor, Me Refugio

“Em ti, Senhor, me refugio; não me deixes jamais envergonhado… sê-me uma rocha forte, uma fortaleza para me salvar. Pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza… tira-me da rede que me puseram às escondidas.”

“Em ti, Senhor, me refugio” (becha YHWH chasiti) — a mesma abertura do Salmo 11:1 (“no Senhor me refugio”) e do Salmo 7:1 (“no Senhor me refugio”). O refúgio em Deus é postura fundamental da fé davídica — declarada em abertura como posicionamento que precede todos os pedidos. “Não me deixes jamais envergonhado” — a vergonha de quem confia em Deus e não é respondido seria contradição com o caráter do Deus fiel.

“Sê-me uma rocha forte, uma fortaleza” (v.2) — pedido de que Deus seja o que já é declarado no versículo 3 (“tu és a minha rocha e a minha fortaleza”). A tensão entre o pedido (v.2) e a declaração (v.3) revela a dinâmica da fé: Davi sabe que Deus é rocha — mas pede que essa rocha Se manifeste agora, nesta situação. É fé que declara o caráter de Deus e ao mesmo tempo clama pela sua manifestação concreta. Leia o Salmo 18:2 — os seis títulos de proteção — como par desta declaração.

Versículo 5 — Em Tuas Mãos Entrego o Meu Espírito

“Em tuas mãos entrego o meu espírito; tu me resgataste, Senhor Deus de verdade.”

O versículo 5 é o coração do Salmo 31 — e um dos versículos mais carregados de significado de toda a Escritura. “Em tuas mãos entrego o meu espírito” (beyodecha afqid ruchi) — cinco palavras hebraicas que encapsulam a essência da confiança bíblica.

“Em tuas mãos” — as mãos são na Escritura símbolo de poder e de ação. As “mãos” de Deus que criaram os céus (Sl 8:3), que plantaram os céus (Is 48:13), que salvaram Israel (Ex 14:30). Colocar o próprio espírito nessas mãos é colocar o que é mais precioso — a vida, o ser, a essência — no lugar de maior poder e de maior segurança disponível no universo.

“Entrego” (afqid) — depositar em custódia, como quem entrega algo valioso para ser guardado. Não é abandono — é confiança deliberada. Quem entrega algo a outro está fazendo ato de confiança no guardador. “Entrego o meu espírito” é ato de confiança radical no Deus que pode guardar o que a vida humana não consegue proteger por si mesma.

“Tu me resgataste, Senhor Deus de verdade” — a segunda parte do versículo é afirmação retrospetiva de redenção: Deus já resgatou antes. A entrega do presente é fundamentada na história de resgate do passado. “Deus de verdade” (El emet) — Deus cuja verdade é Sua fidelidade inabalável, que cumpriu o que prometeu e pode ser confiado para guardar o que agora é entregue. Leia os versículos sobre confiança em Deus.

As Últimas Palavras de Jesus: Em Lucas 23:46, Jesus na Cruz disse: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.” Com estas palavras Jesus fechou o ato de Sua morte — e ao fechá-lo com as palavras do Salmo 31:5, fez duas coisas simultaneamente: (1) identificou-Se completamente com a experiência do justo sofredor que o Salmo 31 documenta; (2) transformou a oração de entrega de Davi na oração definitiva de entrega do Filho ao Pai. A morte de Jesus não foi caos — foi entrega deliberada, confiante, fundamentada na fidelidade do Pai que já havia resgatado antes.

Versículos 9-13 — O Retrato do Sofrimento Total

“Tem misericórdia de mim, Senhor, pois estou angustiado; os meus olhos consumiram-se de tristeza… Pois a minha vida se gastou de tristeza… tornei-me como um vaso quebrado.”

Os versículos 9-13 são um dos mais honestos e mais completos retratos do sofrimento humano em toda a Escritura. Cinco dimensões do sofrimento de Davi:

Física: “Os meus olhos consumiram-se de tristeza” (v.9), “as minhas forças falham” (v.10), “os meus ossos se consomem” (v.10). O sofrimento que começa no interior (angústia da alma) se manifesta no corpo — o clássico quadro de sofrimento psicossomático que a medicina moderna reconhece e que a Bíblia descreve com precisão surpreendente.

Social: “Tornei-me opróbrio” (v.11), “os que me viam na rua fugiam de mim” (v.11). O isolamento social que o sofrimento frequentemente produz — quando as pessoas ao redor não sabem como lidar com a dor e preferem evitar o sofredor.

Existencial: “Fui esquecido como um morto, saído da memória” (v.12). O sentimento de inexistência — de que o mundo continuaria sem diferença se o sofredor desaparecesse. É uma das experiências mais profundamente dolorosas que o ser humano pode ter.

Simbólica: “Tornei-me como um vaso quebrado” (v.12). O vaso quebrado é sem utilidade, sem dignidade, sem valor — jogado fora. Esta imagem de si mesmo como coisa descartada é expressão de autoestima destruída pelo sofrimento prolongado.

Ameaça Real: “Tramavam tirar-me a vida” (v.13) — não apenas sofrimento interior mas perigo exterior real e concreto. O sofrimento de Davi não era apenas psicológico — havia inimigos reais conspirando. Leia o Salmo 6 como companheiro neste retrato honesto do sofrimento.

Versículo 14-15 — Mas Eu Confio em Ti: Os Meus Tempos em Tua Mão

“Mas eu confio em ti, Senhor; digo: Tu és o meu Deus. Os meus tempos estão na tua mão; livra-me das mãos dos meus inimigos e dos que me perseguem.”

“Mas eu confio em ti, Senhor” — o “mas eu” contrastivo que inverte o movimento dos versículos 9-13. Do retrato de sofrimento total à declaração de confiança radical — sem narrativa de mudança das circunstâncias. As circunstâncias dos versículos 9-13 continuam; o que muda é o posicionamento interior: “mas eu confio.” É o mesmo “mas eu” do Salmo 13:5 e do Salmo 28:7.

“Os meus tempos estão na tua mão” (itotay beyadecha) — um dos versículos mais preciosos do Salmo 31. “Meus tempos” (itot) — não apenas o presente momento, mas todos os momentos, toda a sequência de acontecimentos, toda a história pessoal de Davi. Passado, presente e futuro — tudo está “na tua mão.” A mesma mão em que o espírito foi entregue no versículo 5 é a mão que segura todos os tempos de Davi. É soberania temporal de Deus — não apenas que Deus age na história, mas que todos os momentos da história pessoal de Davi estão dentro do governo ativo de Deus.

Esta afirmação — “os meus tempos estão na tua mão” — é de enorme consolação para qualquer pessoa que sente que a própria vida está fora de controle, que os acontecimentos se sucedem sem direção, que o futuro é ameaçador e incerto. O Salmo 31:15 declara: não estão fora de controle — estão na mão de Deus. Não o seu controle — o controle do Deus que é rocha e fortaleza. Leia os versículos de esperança.

Versículo 16 — Faze Brilhar o Teu Rosto sobre o Teu Servo

“Faze brilhar o teu rosto sobre o teu servo; salva-me pela tua misericórdia.”

“Faze brilhar o teu rosto sobre o teu servo” — citação quase direta da Bênção de Aarão (Números 6:25): “o Senhor faça brilhar o Seu rosto sobre ti e te conceda graça.” Davi usa a mais preciosa das bênçãos sacerdotais como pedido pessoal: que o rosto de Deus brilhe sobre ele. O “rosto brilhante” de Deus é imagem da Sua presença aprovadora, da Sua face voltada para o servo com amor e com graça. É o oposto do “esconder o rosto” (Sl 13:1, 30:7) — é a face de Deus voltada para mim, sorrindo sobre mim, reconhecendo-me como Seu. Leia o Salmo 17:15 — “contemplarei o teu rosto” — como o desejo que este versículo expressa.

Versículos 19-22 — A Bondade Reservada para os que Temem a Deus

“Quão grande é a tua bondade, que reservaste para os que te temem… Tu os escondes no segredo da tua presença… Bendito seja o Senhor, porque tem manifestado as suas maravilhosas misericórdias… Contudo, eu disse na minha pressa: Estou cortado diante dos teus olhos; mas tu ouviste.”

“Quão grande é a tua bondade, que reservaste para os que te temem” — exclamação de espanto diante da bondade divina. “Reservaste” (tzafanta) — guardaste em reserva, escondeste para revelar no momento certo. A bondade de Deus para os que O temem não é revelada de uma vez — é como herança que vai sendo revelada ao longo do tempo, à medida que o relacionamento com Deus aprofunda.

“Tu os escondes no segredo da tua presença” (v.20) — imagem de proteção dentro da própria presença de Deus. O esconderijo mais seguro possível não é um lugar geográfico — é a presença de Deus mesmo. O Salmo 91:1 usa a mesma linguagem: “o que habita no esconderijo do Altíssimo” — o refúgio que está dentro de Deus.

“Contudo, eu disse na minha pressa: Estou cortado diante dos teus olhos” (v.22) — confissão honesta de desespero passado. “Na minha pressa” (bechofzi) — na precipitação, no pânico do momento — Davi disse o que sabia não ser verdade: que Deus o tinha cortado, abandonado, excluído do Seu olhar. É honestidade sobre o que o desespero pode fazer à fé — e ao mesmo tempo afirmação de que Deus ouviu mesmo quando Davi pensava que Deus não estava olhando. Leia o Salmo 13:1 — a mesma confusão do desespero — como companheiro do Salmo 31:22.

Versículos 23-24 — Amai ao Senhor: A Instrução Final

“Amai ao Senhor, vós os seus santos; o Senhor guarda os fiéis… Sede fortes, e o vosso coração se fortifique, todos vós que esperais no Senhor.”

“Amai ao Senhor” — o imperativo de amor que o Salmo 31 termina com instrução comunitária: o que Davi experimentou deve ser transmitido à comunidade como chamado ao amor e à força. “O Senhor guarda os fiéis” — declaração de proteção divina sobre os que O amam. “Mas paga fartamente ao que procede soberbamente” — a mesma inversão do Salmo 18:25-27: Deus corresponde ao caráter de quem O busca.

“Sede fortes, e o vosso coração se fortifique” (chizqu veyaAmetz levavechem) — a exortação final é Josué 1:6-9 em miniatura. “Sede fortes” é convocação à coragem ativa; “o vosso coração se fortifique” é a coragem interior que sustenta a exterior. “Todos vós que esperais no Senhor” — a esperança no Senhor é o fundamento da coragem. Quem espera no Senhor tem razão para ser forte — não pela própria força, mas pela força do Deus em quem espera. Leia os versículos de encorajamento.

O Versículo 5 na Tradição Cristã — A Oração da Hora da Morte

Além de Jesus na Cruz (Lc 23:46), o versículo 5 do Salmo 31 foi usado ao longo da história cristã como oração dos mártires e dos santos em seus últimos momentos. Estêvão, o primeiro mártir cristão, adaptou as palavras ao morrer apedrejado: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (At 7:59) — substituindo “Pai” por “Senhor Jesus,” afirmando a divindade de Cristo ao usar a oração de entrega do Salmo 31.

São Bernardo de Claraval, Martinho Lutero e João Calvino escreveram comentários sobre este versículo como oração para o momento da morte. Lutero o chamou de “a oração de cada cristão no leito de morte” — e ele próprio murmurou palavras do Salmo 31 em seus últimos momentos de vida.

Na Liturgia das Horas, a Completa (última oração do dia) inclui frequentemente o Salmo 31 — especialmente os versículos 1-6 — como oração de entrega antes do sono, que é figura da morte. “Em tuas mãos entrego o meu espírito” é a última oração do dia — colocando o sono (e, por extensão, a morte) nas mãos de Deus. Leia o Oração da Noite.

O Versículo 15 na Teologia Cristã — Soberania e Providência

“Os meus tempos estão na tua mão” — este versículo tem sido um dos mais citados na teologia da providência divina ao longo da história da Igreja. Agostinho o usou para descrever a soberania de Deus sobre a história individual; Calvino o desenvolveu na sua doutrina da providência particular; os místicos medievais o meditaram como convite à entrega ativa da própria história a Deus.

O pensamento central é que a providência de Deus não opera apenas em nível macro-histórico (sobre nações e impérios) mas em nível micro-histórico (sobre os “tempos” de cada indivíduo). Cada fase da vida — a infância, a adolescência, o matrimônio, a doença, o luto, a velhice, a morte — está “na mão” de Deus. Não como marionetes sem liberdade — mas como participantes de uma história que Deus conhece, guia e redime. Leia o Salmo 139:16 — “os teus olhos viram o meu embrião” — como o desenvolvimento desta providência individual.

Como Viver o Salmo 31 no Cotidiano

1. Praticar a Entrega Diária do Versículo 5

“Em tuas mãos entrego o meu espírito” — a entrega do Salmo 31:5 não é apenas para o momento da morte. É oração de entrega diária: antes de começar o dia (“entrego este dia nas Tuas mãos”), antes de decisões importantes (“entrego esta decisão nas Tuas mãos”), antes de dormir (“entrego esta noite nas Tuas mãos”). A entrega do espírito é a prática mais radical de confiança — e pode ser praticada em cada momento. Para a Oração da Manhã, começar com “em Tuas mãos entrego este dia” é posicionamento perfeito.

2. Declarar o Versículo 15 sobre a Própria História

“Os meus tempos estão na tua mão” — declarar este versículo sobre as fases da vida que parecem fora de controle: a situação profissional incerta, o relacionamento que não tem o ritmo que se esperava, a saúde que não obedece ao cronograma, a vocação que ainda não se manifestou completamente. “Os meus tempos estão na Tua mão” não resolve a incerteza — reposiciona quem tem o controle da história que está sendo vivida.

3. Usar os Versículos 9-13 como Permissão para o Lamento Honesto

O retrato do sofrimento dos versículos 9-13 — olhos consumidos, ossos que se consomem, vaso quebrado — é permissão para o lamento honesto que não idealiza nem minimiza. Qualquer pessoa que se sentiu “como um vaso quebrado” (v.12) ou “esquecida como um morto” (v.12) encontra no Salmo 31 a validação de que essa experiência pode ser trazida a Deus exatamente como é — sem eufemismo, sem performance de fé positiva. O Deus que inspirou o Salmo 31:9-13 aceita exatamente esse lamento.

4. Terminar com a Exortação Comunitária — Versículo 24

“Sede fortes, e o vosso coração se fortifique, todos vós que esperais no Senhor” — a experiência pessoal do Salmo 31 não é para ser guardada. Partilhar com a comunidade a experiência de entrega, de sofrimento atravessado, de bondade de Deus descoberta na crise — é o movimento do versículo 24. A força que vem de “os meus tempos estão na Tua mão” é força para transmitir: “sede fortes, os que esperais no Senhor.” Para os versículos de encorajamento.

Oração Baseada no Salmo 31

Em Ti, Senhor, me refugio.
Sê-me rocha e fortaleza —
porque eu preciso de fundamento que não cede.

Em Tuas mãos entrego o meu espírito.
Tu já me resgataste — Senhor Deus de verdade.
E agora entrego o que tenho de mais precioso:
o próprio ser, a própria vida, o próprio amanhã.

Os meus tempos estão na Tua mão.
Não no acaso. Não no poder dos outros.
Não na minha própria capacidade de controlar.
Na Tua mão — que criou os céus
e que me tirou das muitas águas.

Faze brilhar o Teu rosto sobre mim.
Quão grande é a bondade que reservaste
para os que te temem.

Sede fortes — dirijo a mim mesmo o versículo final.
E o meu coração se fortifique.
Pois espero no Senhor.
Amém.

Frases do Salmo 31 para Compartilhar

  • “Em ti, Senhor, me refugio; não me deixes jamais envergonhado.” — Salmo 31:1
  • “Pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza.” — Salmo 31:3
  • “Em tuas mãos entrego o meu espírito; tu me resgataste, Senhor Deus de verdade.” — Salmo 31:5
  • “Mas eu confio em ti, Senhor; digo: Tu és o meu Deus.” — Salmo 31:14
  • “Os meus tempos estão na tua mão.” — Salmo 31:15
  • “Faze brilhar o teu rosto sobre o teu servo.” — Salmo 31:16
  • “Quão grande é a tua bondade, que reservaste para os que te temem.” — Salmo 31:19
  • “Sede fortes, e o vosso coração se fortifique, todos vós que esperais no Senhor.” — Salmo 31:24
  • “‘Em tuas mãos entrego o meu espírito’ — as últimas palavras de Jesus na Cruz. E a oração mais radical de confiança que qualquer ser humano pode fazer.”

O Salmo 31 e Outros Conteúdos do Site

Salmo 31 — Texto Completo, Significado e Oração
  • Salmo 17 — “Contemplarei o teu rosto” — o desejo do v.16 do Salmo 31 como bem supremo.
  • Salmo 18 — Os seis títulos de proteção — eco da rocha e fortaleza do Salmo 31:3.
  • Salmo 13 — “Mas eu confiei” — o mesmo “mas eu” que o Salmo 31:14 usa.
  • Salmo 139 — “Os teus olhos viram o meu embrião” — a providência individual do v.15 desenvolvida.
  • Salmo 91 — “O que habita no esconderijo do Altíssimo” — o esconderijo da presença do v.20.
  • Versículos sobre Confiança em Deus — “Em tuas mãos entrego” — v.5 desenvolvido.
  • Versículos de Encorajamento — “Sede fortes” — o v.24 como chamado à coragem.
  • Oração da Noite — “Em tuas mãos entrego o meu espírito” — a entrega antes de dormir.
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