O Salmo do Exame Interior — Quando a Consciência Limpa Clama por Julgamento
O Salmo 26 começa com um dos convites mais ousados de toda a Bíblia: “Julga-me, Senhor, pois tenho andado em minha integridade” (v.1). Davi não foge do julgamento de Deus — convida-o. Não pede misericórdia em vez de julgamento (como no Salmo 6:1) — pede especificamente que Deus examine e julgue, confiante de que o exame revelará uma conduta íntegra. É a oração de quem tem consciência limpa em relação a uma acusação específica e apela ao único Juiz que vê tudo.
O Salmo 26 tem estreita relação com o Salmo 17 — ambos são orações de inocência declarada, onde Davi apresenta a própria conduta ao exame divino. Mas enquanto o Salmo 17 está mais focado na ameaça externa dos inimigos, o Salmo 26 está mais focado no exame interno — na verificação da própria integridade antes de se aproximar do Templo para a adoração. É o salmo de quem se prepara para entrar na presença de Deus examinando se sua vida corresponde ao lugar que quer ocupar.
O amor ao Templo é uma das marcas mais características do Salmo 26. O versículo 8 — “Senhor, amei a habitação da tua casa e o lugar onde a tua glória habita” — é declaração de amor ao espaço da presença de Deus que ressoa com o Salmo 84 (“como são amáveis as tuas moradas”) e que revela a motivação central de Davi: não é apenas que ele quer ser inocentado — é que ele quer ter acesso ao Templo, ao lugar da presença de Deus, que a acusação pode estar lhe negando.
Salmo 26 — Texto Completo
De Davi.
1 Julga-me, Senhor, pois tenho andado em minha integridade; tenho confiado no Senhor sem vacilar.
2 Examina-me, Senhor, e prova-me; analisa os meus rins e o meu coração.
3 Pois a tua misericórdia está diante dos meus olhos, e tenho andado na tua verdade.
4 Não me tenho assentado com homens vãos, e não me associo com os dissimulados.
5 Odeio a congregação dos malfeitores e não me assentarei com os ímpios.
6 Lavarei as minhas mãos em inocência e circundarei o teu altar, Senhor,
7 para publicar com voz de louvor e contar todas as tuas maravilhas.
8 Senhor, amei a habitação da tua casa e o lugar onde a tua glória habita.
9 Não ajuntes a minha alma com os pecadores nem a minha vida com os homens de sangue,
10 em cujas mãos há maldade e cuja destra está cheia de suborno.
11 Mas eu andarei em minha integridade; redime-me e tem misericórdia de mim.
12 O meu pé está num lugar espaçoso; nas congregações bendirei ao Senhor.— Salmo 26:1-12 (Almeida Revista e Atualizada)
Contexto — A Liturgia de Acesso ao Templo
O Salmo 26 está intimamente ligado à tradição das “liturgias de entrada” do Templo de Jerusalém — os textos litúrgicos que estabeleciam os critérios morais de quem podia entrar no espaço sagrado. O Salmo 15 havia perguntado “Quem habitará no teu tabernáculo?” e respondido com dez critérios de integridade. O Salmo 24 havia perguntado “Quem subirá ao monte do Senhor?” e respondido com o perfil das “mãos limpas e coração puro.” O Salmo 26 é a resposta individual a essa pergunta — Davi aplicando os critérios a si mesmo e apresentando o resultado ao Juiz divino.
O contexto mais provável é que Davi estava sendo excluído da participação no culto no Templo por alguma acusação ou situação de impureza — real ou alegada por adversários. O acesso ao Templo era, na Israel do Antigo Testamento, inseparável do status de membro pleno da comunidade do pacto. Ser excluído do Templo era ser excluído da comunidade. Davi não está apenas reivindicando inocência abstrata — está reivindicando o direito de estar no lugar que mais ama (v.8), o lugar da presença de Deus.
Esta situação — exclusão da participação comunitária e da presença de Deus por acusação ou circunstância — é universalmente reconhecível. Qualquer crente que já se sentiu indigno de se aproximar de Deus, que já hesitou antes da comunhão por peso de culpa, que já teve dúvida sobre se realmente pertence ao lugar sagrado — o Salmo 26 endereça essa experiência com a postura do exame honesto e da confiança no julgamento de Deus.
Estrutura do Salmo 26 — Quatro Movimentos
O Salmo 26 tem estrutura circular elegante — começa e termina com declaração de integridade e confiança em Deus:
Movimento 1 — O Apelo ao Julgamento (v.1-3): Convite explícito ao exame divino, fundamentado em integridade e confiança no Senhor. É o ato de abertura mais ousado possível: “julga-me, examina-me, prova-me.”
Movimento 2 — A Declaração de Separação (v.4-5): O que Davi não fez — não se associou com mentirosos, dissimulados, malfeitores, ímpios. A integridade não é apenas afirmação positiva do que se é; inclui afirmação dos com quem não se andou.
Movimento 3 — O Amor ao Templo e o Pedido de Proteção (v.6-10): A lavagem das mãos (v.6), o circundar do altar (v.6), o louvor (v.7), o amor à habitação de Deus (v.8), o pedido de não ser ajuntado com os pecadores (v.9-10).
Movimento 4 — Resolução e Louvor Final (v.11-12): Retorno à declaração de integridade (v.11 eco de v.1), pedido de redenção e misericórdia, e a declaração final: “o meu pé está num lugar espaçoso; bendirei ao Senhor.”
Análise Versículo a Versículo
Versículo 1 — Julga-me, Senhor: O Convite mais Ousado
“Julga-me, Senhor, pois tenho andado em minha integridade; tenho confiado no Senhor sem vacilar.”
“Julga-me, Senhor” (shofteni YHWH) — imperativo que convida o julgamento divino. Na linguagem jurídica hebraica, este é apelo ao tribunal de Deus — pedido de que Deus tome o caso, examine as evidências e pronuncie sentença. É a postura oposta de quem foge do julgamento de Deus — é quem corre em direção a ele, confiante de que o juiz justo encontrará o que o orante declara existir.
“Pois tenho andado em minha integridade” (ki ani betummi halachti) — o fundamento do apelo. Tom (integridade, completude, ser o mesmo por dentro e por fora) é o mesmo conceito do Salmo 15:2 (“anda em integridade”) e do Salmo 25:21 (“a integridade me guarde”). Davi apela ao julgamento de Deus porque tem razão para confiar que o julgamento não o condenará — não por arrogância moral, mas por consciência limpa em relação à situação específica.
“Tenho confiado no Senhor sem vacilar” (baSHEM batachti lo emad) — a confiança sem vacilação é a postura de fé que complementa a integridade de conduta. Integridade sem confiança é moralismo; confiança sem integridade é presunção. O Salmo 26 combina as duas: a vida íntegra fundamentada na confiança firme no Senhor. Leia o Salmo 17 — “ouve, Senhor, a minha causa justa” — como o par mais próximo do Salmo 26.
Versículo 2 — Examina-me, Prova-me, Analisa
“Examina-me, Senhor, e prova-me; analisa os meus rins e o meu coração.”
“Examina-me” (bachneni), “prova-me” (nasseni), “analisa” (tzorfah) — três verbos de inspeção crescente em intensidade. O primeiro é exame geral; o segundo é teste específico (como se prova metal no fogo); o terceiro é refinar, purificar (o mesmo verbo de prata refinada do Salmo 12:6). O convite ao julgamento de Davi não é apenas superficial — é convite ao exame mais profundo e mais completo possível.
“Os meus rins e o meu coração” — na antropologia hebraica, os rins (kelayot) eram a sede das emoções e dos impulsos mais íntimos; o coração (lev) era a sede do pensamento e da vontade. Juntos, cobrem toda a vida interior — o que se sente nos impulsos mais primitivos e o que se decide nos atos mais deliberados. Davi convida Deus a examinar os dois — o que ele sente por dentro e o que decide por dentro. É transparência radical diante de Deus.
O Salmo 139:23-24 usa a mesma linguagem: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau.” O convite ao exame divino é postura espiritual recorrente nos salmos — e revela que a saúde espiritual não é ausência de exame, mas disposição para ser examinado. Leia o Salmo 139 como o desenvolvimento mais completo desta abertura ao exame divino.
Versículo 3 — A Misericórdia Diante dos Olhos
“Pois a tua misericórdia está diante dos meus olhos, e tenho andado na tua verdade.”
“A tua misericórdia está diante dos meus olhos” — a orientação visual e espiritual que fundamenta toda a vida de Davi. Não a própria integridade está diante dos olhos, não o julgamento dos outros — a misericórdia de Deus (chasdecha) é o que Davi mantém à vista. É a misericórdia de Deus que torna possível a integridade humana — não o oposto. A integridade que Davi declara (v.1-2) não é independente da misericórdia de Deus (v.3) — floresce dentro dela.
“Tenho andado na tua verdade” — a verdade (emet) de Deus como caminho que se percorre. Não como proposição a acreditar — como chão firme em que se anda. A “verdade” divina é realidade objetiva sobre como as coisas são, sobre o que Deus prometeu, sobre os padrões morais da criação. Andar na verdade de Deus é andar em conformidade com a realidade mais profunda da existência — é a vida mais real possível. Leia o Salmo 25:5 — “conduz-me na tua verdade” — como o pedido que o Salmo 26 declara ter sido cumprido.
Versículos 4-5 — Não Me Assentei com os Malfeitores
“Não me tenho assentado com homens vãos, e não me associo com os dissimulados. Odeio a congregação dos malfeitores e não me assentarei com os ímpios.”
Os versículos 4-5 descrevem a integridade de Davi pelo que ele recusou — a separação moral que acompanha a integridade positiva. Quatro grupos são mencionados: “homens vãos” (metei shav — os que praticam o vão, o sem valor), “dissimulados” (na’alamim — os que se escondem, que têm agenda oculta), “congregação dos malfeitores” (mera’im — os que praticam o mal), e “ímpios” (resha’im — os que vivem em contradição com a ordem moral de Deus).
A progressão é de associação a congregação — de vínculos individuais a participação em grupos. Davi não apenas evitou relações individuais com os que praticam o mal — evitou fazer parte da “congregação” dos malfeitores, do grupo organizado em torno do mal. Esta distinção é importante: a integridade não é apenas questão de conduta individual, mas de associação e pertencimento comunitário.
Esta declaração de separação ecoa o Salmo 1:1: “Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.” O Salmo 26:4-5 é a aplicação pessoal e afirmativa do princípio do Salmo 1 — Davi declarando que de fato não se assentou onde o Salmo 1 instruiu a não se assentar. Leia o Salmo 1.
Versículo 6-7 — Lavarei as Mãos e Circundarei o Altar
“Lavarei as minhas mãos em inocência e circundarei o teu altar, Senhor, para publicar com voz de louvor e contar todas as tuas maravilhas.”
“Lavarei as minhas mãos em inocência” (erchatz beniqayon kapay) — o gesto ritual de lavagem das mãos antes de se aproximar do altar era parte da liturgia do Templo israelita, mas Davi o usa como declaração moral: lavar as mãos é declarar que estão limpas, que não estão manchadas com o que os adversários alegam. É o mesmo gesto simbólico que Pilatos usará (perversamente) em Mateus 27:24 ao “lavar as mãos” do sangue de Jesus — aqui usado com genuinidade moral.
“Circundarei o teu altar, Senhor” — participar da liturgia do Templo, ir em redor do altar em procissão de adoração. O versículo revela o que Davi anseia recuperar com o julgamento divino em seu favor: não apenas a inocência abstrata, mas o direito de participar da adoração no Templo. O altar é o destino; a declaração de integridade é o caminho que leva a ele.
“Para publicar com voz de louvor e contar todas as tuas maravilhas” — o propósito final de toda a inocência declarada, de todo o julgamento pedido, de toda a integridade mantida: o louvor. Davi não quer ser inocentado para si mesmo — quer ser inocentado para poder louvar, para poder circular o altar, para poder contar as maravilhas de Deus em voz alta na comunidade. A inocência declarada serve ao louvor. Leia o Salmo 9:1 — “contarei todas as tuas maravilhas” — como o mesmo propósito de louvor narrativo.
Versículo 8 — Senhor, Amei a Habitação da Tua Casa
“Senhor, amei a habitação da tua casa e o lugar onde a tua glória habita.”
O versículo 8 é o coração emocional do Salmo 26 — e um dos mais belos de todo o saltério. “Amei a habitação da tua casa” (ahavti me’on betecha) — amor ao espaço físico da presença de Deus, amor ao lugar onde Ele escolheu habitar entre o Seu povo. Este amor não é sentimentalismo religioso — é amor à presença que o espaço representa.
“O lugar onde a tua glória habita” (maqom mishkan kevdecha) — a glória (kavod) de Deus é Sua presença visível, o que os israelitas chamavam de Shekinah — a nuvem de glória que habitava sobre o propiciatório na Arca da Aliança. Amar “o lugar onde a glória habita” é amar a presença concreta e localizada de Deus, o ponto de contacto entre o divino e o humano que o Templo proporcionava.
O Salmo 84:1-2 usa a mesma linguagem com intensidade ainda maior: “Como são amáveis as tuas moradas, ó Senhor dos Exércitos! A minha alma deseja e anela os átrios do Senhor.” O amor ao Templo é amor à presença — e o Salmo 26:8 é uma das expressões mais diretas deste amor. Para o cristão, o equivalente deste amor é o amor à Eucaristia, ao espaço da oração, ao encontro comunitário onde Cristo está presente. Leia o Salmo 84.
Versículos 9-10 — Não Me Ajuntes com os Pecadores
“Não ajuntes a minha alma com os pecadores nem a minha vida com os homens de sangue, em cujas mãos há maldade e cuja destra está cheia de suborno.”
“Não ajuntes a minha alma com os pecadores” — pedido de separação escatológica, que Deus não coloque Davi na mesma categoria dos que ele se recusou a imitar. Em contexto do Antigo Testamento, “ajuntar” com os mortos (asof) significa a morte e o destino post-mortem. Davi pede que seu destino seja diferente do destino dos pecadores e dos homens de sangue.
“Homens de sangue” (anshei damim) — os que derramam sangue inocente, os violentos. “Em cujas mãos há maldade” — o contraste direto com as “mãos lavadas em inocência” do versículo 6. As mãos de Davi foram lavadas em inocência; as mãos dos ímpios estão cheias de maldade e de suborno. O julgamento que Davi pede no versículo 1 deve distinguir entre esses dois tipos de mão. Leia os versículos de proteção para o livramento pedido aqui.
Versículo 11 — Mas Eu Andarei em Minha Integridade
“Mas eu andarei em minha integridade; redime-me e tem misericórdia de mim.”
“Mas eu andarei em minha integridade” — o “mas eu” contrastivo ecoa o versículo 1 e fecha o anel do salmo. Enquanto os homens de sangue têm mãos cheias de maldade (v.10), Davi declara uma vez mais: eu andarei em integridade. É resolução — não afirmação de perfeição passada, mas compromisso de caminhada futura. A integridade não é conquista passada que se guarda no museu; é caminhada presente que se mantém no futuro.
“Redime-me e tem misericórdia de mim” — depois de toda a declaração de integridade, Davi ainda pede redenção e misericórdia. Isto revela o equilíbrio que o Salmo 26 mantém: a declaração de inocência não elimina a necessidade de misericórdia. A integridade é real e deve ser reconhecida pelo Juiz justo — mas o acesso final a Deus é sempre pela misericórdia, não apenas pelo mérito. É a mesma postura do Salmo 17:7 (“manifesta as tuas misericórdias maravilhosas”) e do Salmo 25:11 (“por amor do teu nome, perdoa”). Leia o Salmo 103 sobre a misericórdia que redime.
Versículo 12 — O Pé em Lugar Espaçoso
“O meu pé está num lugar espaçoso; nas congregações bendirei ao Senhor.”
“O meu pé está num lugar espaçoso” (beregel mishor amadi) — imagem de firmeza e liberdade de movimento. O “lugar espaçoso” é o espaço onde não há obstáculo, onde o movimento é livre, onde a pressão que cercava cedeu. Salmo 18:19 usa imagem similar: “pôs-me em lugar espaçoso; livrou-me, porque tinha prazer em mim.” A declaração de que o pé está em lugar espaçoso é declaração de que o julgamento já foi pronunciado internamente — a alma de Davi já se sente no espaço aberto da inocência reconhecida.
“Nas congregações bendirei ao Senhor” — o destino final de toda a oração do Salmo 26: o louvor na comunidade. “Congregações” (maqhelim) — não louvor solitário, mas louvor comunitário, na assembleia do povo. Davi não quer ser inocentado para gloriar-se em privado — quer ser inocentado para poder voltar à congregação e louvar publicamente o Deus que julgou com justiça e com misericórdia. Leia o Salmo 150 — “louvai ao Senhor” em comunidade — como o destino que o Salmo 26 antecipa.
A Teologia da Inocência no Salmo 26
O Salmo 26 levanta novamente a questão da inocência declarada diante de Deus — já tratada no Salmo 17. Vale aprofundar aqui com o contexto específico do Salmo 26:
A declaração de inocência de Davi nos versículos 1-5 e 11 não é afirmação de perfeição absoluta. O mesmo versículo 11 que declara “eu andarei em minha integridade” pede imediatamente “redime-me e tem misericórdia de mim” — o que indica consciência de que a redenção ainda é necessária. A integridade declarada é relativa a uma situação específica (a acusação que gerou a exclusão do Templo) e a um padrão de conduta específico (não se assentar com os malfeitores, andar na verdade de Deus).
Esta distinção — entre inocência relativa em situação específica e necessidade universal de misericórdia — é crucial para compreender o Salmo 26 corretamente. Davi pode genuinamente afirmar que não se associou com os dissimulados (v.4) e ao mesmo tempo pedir misericórdia (v.11) porque sabe que mesmo a integridade real não elimina toda a necessidade de graça divina. O Salmo 26 não é expressão de farisaísmo (que confia na própria justiça e despreza os outros) mas de honestidade radical diante de Deus que combina afirmação da própria conduta com dependência da misericórdia.
O Salmo 26 e o Batismo Cristão
A liturgia da “lavagem das mãos em inocência” e do “circundar o altar” do versículo 6 foi lida pela tradição cristã como prefiguração do Batismo — o sacramento da purificação e da entrada na comunidade de adoração. A lavagem que o Salmo 26 descreve é ritual preparatório para a adoração; o Batismo é lavagem que introduz definitivamente no espaço da adoração cristã.
Esta leitura tipológica está presente nos Padres da Igreja, especialmente Ambrósio de Milão, que usava o Salmo 26 no contexto da preparação dos catecúmenos para o Batismo. O catecúmeno que se aproxima da pia batismal declarava, no espírito do Salmo 26, sua recusa dos caminhos dos malfeitores e sua opção pelo caminho da verdade de Deus — antes de “lavar as mãos em inocência” nas águas do Batismo e ser introduzido na congregação dos fiéis onde “bendiria ao Senhor.”
Como Viver o Salmo 26 no Cotidiano
1. Convidar o Exame de Deus — Não Fugir Dele
“Examina-me, Senhor, e prova-me; analisa os meus rins e o meu coração” (v.2) — a prática de periodicamente convidar Deus ao exame interior, em vez de evitar esse exame. Não como exercício de auto-flagelação, mas como ato de transparência que é, em si mesmo, expressão de integridade. Quem tem algo a esconder foge do exame; quem anda em integridade convida-o. O Salmo 139:23 usa a mesma linguagem como prática regular: “sonda-me, ó Deus.”
2. Manter a Misericórdia de Deus Diante dos Olhos — Versículo 3
“A tua misericórdia está diante dos meus olhos” — a misericórdia de Deus como horizonte constante que orienta a vida. Não os erros dos outros, não os próprios sucessos, não as circunstâncias adversas — a misericórdia de Deus como o que está “diante dos olhos.” Para a Oração da Manhã, declarar o versículo 3 como orientação do dia.
3. Cultivar o Amor ao Lugar da Presença de Deus
“Senhor, amei a habitação da tua casa” (v.8) — o amor ao espaço da presença de Deus não é sentimentalismo; é expressão do amor a Deus mesmo que o espaço representa. Para o cristão, cultivar o amor pela Igreja, pela Eucaristia, pela oração comunitária — não como obrigação religiosa mas como expressão do amor pelo Deus que nesses espaços Se torna especialmente acessível. O amor ao Templo do Salmo 26 é o amor que move o cristão para o encontro comunitário com Deus. Leia o Salmo 84.
4. Combinar Integridade com Misericórdia — Versículo 11
“Mas eu andarei em minha integridade; redime-me e tem misericórdia de mim” — a postura que combina compromisso com a integridade e dependência da misericórdia é a postura espiritualmente madura. Não é “confio na minha bondade” nem é “não importa o que faço porque Deus perdoa tudo.” É: me comprometo a andar em integridade e reconheço que ainda preciso de redenção e misericórdia. Este equilíbrio — entre esforço e graça, entre responsabilidade e dependência — é o coração da espiritualidade cristã madura. Leia os versículos sobre perdão.
O Salmo 26 na Liturgia Cristã
Na Liturgia das Horas, o Salmo 26 é cantado nas Laudes — especialmente nos momentos de exame de consciência antes da adoração comunitária. O versículo 6 — “lavarei as minhas mãos em inocência e circundarei o teu altar, Senhor” — era tradicionamente cantado pelo sacerdote ao chegar ao altar para a missa, como ato de preparação espiritual antes do sacrifício eucarístico.
Na Quaresma, o Salmo 26 é especialmente relevante — o tempo em que a Igreja se convida ao exame de consciência e à conversão, ao “examina-me, Senhor” antes de renová-la aliança na Páscoa. E o versículo 12 — “nas congregações bendirei ao Senhor” — é frequentemente o versículo responsorial das missas de renovação comunitária — a alegria do regresso à congregação após o exame e a purificação quaresmais.
Oração Baseada no Salmo 26
Julga-me, Senhor —
não porque tenha medo de ser julgado,
mas porque confio no Juiz
que vê o que os outros não veem.
Examina-me. Prova-me.
Analisa os meus rins e o meu coração.
Encontra o que está lá.A Tua misericórdia está diante dos meus olhos.
Tenho andado na Tua verdade —
não na perfeição, mas na orientação certa.Senhor, amei a habitação da Tua casa
e o lugar onde a Tua glória habita.
Não me ajuntes com os que escolheram outro caminho.Mas eu andarei em minha integridade.
E ainda assim: redime-me. Tem misericórdia de mim.
Porque o pé firme na integridade
ainda precisa da mão que redime.O meu pé está num lugar espaçoso.
Nas congregações bendizerei ao Senhor.
Amém.
Frases do Salmo 26 para Compartilhar
- “Julga-me, Senhor, pois tenho andado em minha integridade.” — Salmo 26:1
- “Examina-me, Senhor, e prova-me; analisa os meus rins e o meu coração.” — Salmo 26:2
- “A tua misericórdia está diante dos meus olhos, e tenho andado na tua verdade.” — Salmo 26:3
- “Senhor, amei a habitação da tua casa e o lugar onde a tua glória habita.” — Salmo 26:8
- “Mas eu andarei em minha integridade; redime-me e tem misericórdia de mim.” — Salmo 26:11
- “O meu pé está num lugar espaçoso; nas congregações bendirei ao Senhor.” — Salmo 26:12
- “Convidar o exame de Deus é o ato mais corajoso da integridade — e o mais revelador.”
- “O Salmo 26 ensina: afirmar a própria integridade e pedir misericórdia não são contraditórios — são dois lados da mesma fé matura.”
O Salmo 26 e Outros Conteúdos do Site
- Salmo 17 — “Ouve, Senhor, a minha causa justa” — o par mais próximo do Salmo 26 na inocência declarada.
- Salmo 15 — “Quem habitará no teu tabernáculo?” — os critérios que o Salmo 26 aplica a si mesmo.
- Salmo 84 — “Como são amáveis as tuas moradas” — o amor ao Templo do Salmo 26:8 desenvolvido.
- Salmo 1 — “Não anda no conselho dos ímpios” — o princípio que Davi aplica em Salmo 26:4-5.
- Salmo 139 — “Sonda-me, ó Deus” — o exame divino do Salmo 26:2 desenvolvido em profundidade.
- Salmo 103 — “Misericordioso e piedoso” — a misericórdia do v.11 que redime mesmo a integridade imperfeita.
- Salmo 150 — “Louvai ao Senhor” — o destino do louvor comunitário que o Salmo 26:12 antecipa.
- Versículos sobre Perdão — “Redime-me e tem misericórdia de mim” — o v.11 desenvolvido.
- Salmo 25 — “Conduz-me na tua verdade” — o pedido que o Salmo 26 declara ter sido cumprido (v.3).



